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segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Hoje

Você acorda e é só outro dia. Hoje está menos quente, está nublado e cinza. Você tenta escrever porque precisa e a dislexia apavora. Faz tanto tempo... Você vai trabalhar porque hoje você não pensa nos motivos bons para trabalhar, hoje você não pensa nos motivos bons, hoje você não pensa nos motivos, hoje você não pensa, hoje você não, hoje você, hoje... Você não sabe como as palavras saem, do mesmo modo que não sabe como o ar entra. Você se pega lembrando de cinco em cinco minutos que esqueceu de respirar. E respira e tenta focar e nada. Porque de vez em quando temos dias assim. Porque de vez em quando o céu cai. Porque acontece e não há o que fazer. Simplesmente acontece. Às vezes não acontece, às vezes acontece. E não adianta ficar bravo ou frustrado, assim como não adianta não ficar. Você fica e ponto, mas fica por ficar porque não muda nada. Amanhã vai ser um pouco menos pior, e depois de amanhã um pouco menos. Talvez amanhã você consiga se concentrar no que precisa, ou talvez depois de amanhã. Uma hora vai. Uma hora vai parar de doer. Uma hora você volta a respirar. E talvez um dia cicatrize. E é o que tem para hoje. Amanhã vai ser um dia melhor.

terça-feira, janeiro 01, 2013

Labirinto


Essa noite eu tive um sonho. Sonhei que tentava escrever e a tinta de todas as canetas falhava. As letras, despedaçadas, irreconhecíveis, se atiravam pelo papel cobrindo toda sua superfície diminuída pelo tamanho das garatujas que o cobriam.
Sonhei que vagava por longas horas pela cidade e, onde quer que eu fosse, havia apenas mendigos se banhando alegres em sua ignorância. Por vezes estes me falavam alguma coisa que eu nunca consegui ouvir. Mesmo vagando por horas sem chegar a lugar algum, visitei três lugares. O primeiro era familiar, um vasto apartamento cheio de plantas onde uma criança me pedia para ensiná-la a pintar. Me levou pela mão a um cavalete com uma tela, pinceis e tinta, mas sempre que o meu pincel tocava o pote de tinta, toda a tinta se tornava carne moída que apodrecia num caldo marrom espesso e liquefazia a cada pincelada. A tela pingava, a mistura escorria para fora e nada ficava. A mãe, que se mostrava indiferente ao que eu fazia, foi crescendo em aversão e impaciência a minha presença, ao que decidi sair de lá. Lembrei que precisava retornar uma fita de videogame à locadora, estava comigo há dias e nunca havia encaixado ao aparelho. A dona da locadora se propôs a examinar o mesmo e retornar-me as diárias. Partimos em uma caminhada que levou dias, o aparelho se encontrava na casa de alguém de quem eu não gostava, mas que permitiu nossa entrada. Atravessamos então a sala da casa, mas o corredor que levava ao quarto era agora um túnel de metrô. Nunca chegamos ao quarto. Abandonei o lugar, fui para o estúdio onde trabalho. A rua estava toda molhada da tempestade que havia caído e o sol saía por entre as nuvens pintando o asfalto e as calçadas em tons de dourado resplandescentes. O imóvel cinza jazia lá no mesmo lugar, vazio, sem nada nem ninguém. Foi então que decidi ir ao único lugar que eu queria ir desde o princípio, ver a única pessoa com quem eu desejava estar. Acordei com a boca seca e o sol quente invadindo a janela, ardendo em meu rosto.

terça-feira, junho 05, 2012

Vagas

O vento e a chuva castigam a janela aborrecendo as pessoas, mas não a mim. Chegaram ontem, de sobressalto, pulsando vida que recebo com a alegria velada de quem vê no outro o reflexo de uma paisagem muito mais interna. Era como aguardar um amigo que está a anos-luz de distância. E que quando chega não fala, ficamos apenas calados, sentados na varanda e isso nos basta. Eu sonhei que era assim que eu encontrava um casal de velhos amigos e contava a eles um sonho que tive (com eles) sem evitar falar em versos com éfes e éles . Era natural, sem esforço, ao mesmo tempo em que  eu era um garoto na estrada querendo aprender sobre garotas e uma rapaz sendo cortejado num bar. E o bar era uma piscina, que era um lago, que pendia sobre o garoto na estrada e arrebentava mar. Eu deixava os meus amigos em seu ninho-castelo de portas abertas e paredes grossas cheias de espinhos. Eu seguia a estrada de pé sobre uma parelha de cavalos. Eu abraçava a garota pela cintura e me despedia como quem sabe que parte por conta de alguma inadequabilidade, que me carrega sobre as vagas para algum outro lugar. Então acordo à deriva, feliz por ter trocado o toque do meu alarme, mesmo que esse estivesse alto demais. O outro me deprimia. E me inclino para fotografar a janela do ônibus, toda molhada, sem me importar para onde este me leva ou quanto tempo levará para chegar.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Pulso

A aurora chega desconexa e distante. Sinapses se estabelecem, quebram e tornam a se estabelecer, calam a ressaca ruidosa que se abate sobre a praia. Não somos novos e não somos velhos, estamos apenas vivos há tempo o bastante para entender o que fazemos. As poucas nuvens no céu se esquivam de golpes aleatórios de vento como eu me esquivo das milhares de palavras que tenho apertadas contra o peito. E quem foi que disse que palavras tem de ser ditas? Enquanto viajamos na mesma direção, por aquele pequeno instante, palavras não importam. Guardo para mim meus próprios demônios que não tardam a cobrar o que lhes é devido. Finjo para mim mesmo que não sei do que estou falando e, por um breve instante entre dois pulsos, quase consigo me enganar. Quase.