sábado, agosto 03, 2013
Sinistro
terça-feira, junho 05, 2012
Vagas
sábado, maio 14, 2011
Fôlego
terça-feira, maio 25, 2010
Mãos
colore, pinta, cola;
Esboça, clica, rabisca,
constrói, deriva, toca;
Esvai, rasga, rabisca,
destrói, esviscera e chora;
Amarga, hesita, vacila,
refaz, deduz, devora;
Sofrega, insta, abisma,
compraz, induz, provoca;
Afrouxa, estala, instiga,
apraz, seduz e cora.
sexta-feira, setembro 25, 2009
Invisível
E enquanto isso, assisto às coisas e pessoas do outro lado do espelho d'água, numa outra vida em um outro lugar. Como se do alto do meu palco invisível, ao sentir a proximidade do clímax da minha tragédia, eu vivesse um meta-momento , um momento onde as coisas se invertessem e eu pudesse assistir a platéia. Enfadado de mim mesmo, cansado, repetitivo, nostálgico, agitado, desesperado, cansado, cansado, cansado...
A correnteza aumenta e quase me entrego, meio morto, abandonado ao acaso de ser uma sombra do homem, já quase sem forças para continuar. Tenho os bolsos vazios, um milhão de desejos e nenhuma moeda para o Caronte . E assim, a morte irá prevalecer e a vida também, com todas as suas lamentações as quais este lápis é o único confidente. O único capaz de realizar a materialidade e o significado intrínsecos destes fatos insignes. O único capaz de fazer algo à respeito e sobreviver.
sexta-feira, julho 31, 2009
Aqueronte
Removido das idéias o amigo em questão. O novo-velho-amigo-covalecente, que por acaso não encontrava desde o velório da mãe de um grande amigo nosso (mais meu do que dele na verdade, não por isso menos amigo nosso, coisas de amigos de colégio). Estava magro e positivamente mudado pela idade, aparentava estar mais saudável, sincero e bem cuidado do que em nosso encontro anterior. Acompanhou-me até uma loja de aspecto um tanto vitoriano onde alguns dos meus quadros estavam expostos ainda molhados. Levei-o lá porque ao longo de sua doença aparentemente ele também havia passado a pintar e o fazia muito bem. E ao partilhar de tão agradável experiência, queria que levasse consigo o prazer de uma última conversa com outro amigo pintor. Ele não estava só, o pai dele, um jovem senhor muito gente boa que morreu há alguns anos de uma doença degenerativa, o acompanhava devido a sua impossibilidade de caminhar, conversar e fazer tudo aquilo que ele estava fazendo naquele momento.
Tudo ocorreu muito rápido, tendo em vista que a hora da morte estava marcada para a cena seguinte e não queríamos nos atrasar. Assim, dei-lhe um quadro e voltamos a sua verdadeira casa onde outros rostos conhecidos aguardavam com ansiedade e pesar. Apressado, meu amigo voltou para o quarto de enfermaria que havia deixado em sua casa, no que outrora fora sua sala de estar; deitou-se na cama, ajeitou o travesseiro e colocou de volta os eletrodos. Soutou uma ou duas palavras de ordem durante o processo afim de que tudo ocorresse como planejado e, sem mais me olhar desde que voltamos da loja, desligou os próprios aparelhos enquanto seu pai o auxiliava.
Triste e sem poder mais observar o corpo que agora jazia sem vida, virei de costas e caminhei para longe enquanto lembrava de quando minha irmã do meio removia a carne excessiva de suas pernas após ser morta por um trem algumas noites antes.
Comprimi os olhos com um gosto estranhamente familiar na boca, o som das pedras de gelo castigava o telhado. Virei de lado, e fiquei ali parado, nostalgicamente ouvindo a chuva por alguns minutos até o sono me buscar novamente.
terça-feira, setembro 23, 2008
Cadafalso
Com rosnados e roncos ensurdecedores a rua trata os passantes rispidamente.
A cova aguarda.
Força um transe hipnótico em que ninguém vê ninguém, só ouve aos barulhos e respira o cheiro fétido da cidade, de suas velhas galerias, hidrocarbonetos e esgoto à vista de estabelecimentos pútridos.
A cova aguarda.
Em algum lugar do outro lado da cidade ela aguarda, sinistra, silenciosa, funesta. E eu aqui, em um lapso de consciência oriundo das mais misteriosas manifestações da vida, batatas e leveduras. Minhas batatas, minhas leveduras, outras vidas e a minha não-vida. Enquanto a minha vida... A cova aguarda pronta para me devorar a cada dia mais. Mas mal sabe ela que já me tem por inteiro! Que estou morto sabe lá desde quando e que se ainda existo é porque apenas ando e moribundo, mórbido, maltrapilho, habito a casca vazia de mim mesmo.
Ocasionalmente acordo e enxergo através de meus próprios olhos em um instante único de lucidez quando à noite a Lua envolve as minhas entranhas com carícias. Ou quando às vezes sinto um pálido raio de sol invernal o qual ao passar me retorna ao cadafalso, como agora que o lusco-fusco foi-se, o frio é implacável, as batatas jazem gélidas no prato e a consciência luta contra a imobilidade.
O copo rapidamente seca enquanto rabisco as últimas linhas entre goles. O corpo reluta.
A cova aguarda seu momento triunfal.
E eu espero pelo último frio do inverno.
quinta-feira, julho 05, 2007
Problemática
O problema de ficar muito tempo com alguém é desaprender a ficar sozinho.
O problema de ficar sozinho é passar tempo demais calado.
O problema de ficar tanto tempo calado é que a garganta arranha quando você fala.
O problema de falar é não saber o que dizer.
O problema de não saber o que dizer é o silêncio constrangedor.
O problema do silêncio constrangedor é que ele nos faz pensar que preferíamos estar sozinhos.
O problema de estar sozinho é desaprender a ficar com alguém.
segunda-feira, maio 28, 2007
Acorda...
Acorda. Está frio pacas. Mal o chá alcança a xícara e já está morno, quase frio. O final de semana passou e você nem o viu. E mesmo que visse ao longo da semana nem teria a quem contar. Pessoas saem do metrô abafado para a rua gelada carregando grandes nuvens de vapor arduamente espiradas.
Acorda. A viagem é cansativa. As gentes se acotovelam tal qual bois indo ao matadouro e no fundo, no fundo, não sei qual é a pressa. É gente para todo lado, se acotovelando mesmo ao trabalho, dia à dentro, semanas a fio, meses, anos. Espremidas em escrivaninhas justas, confinadas a espaços escuros, salas secas de ar-condicionado e outras tantas alcovas tenebrosas da ganância intensiva.
Acorda. Vede a mancha marrom no horizonte e o frio sol de outono antes que descubram a persiana aberta. Vede a vida passando lá fora enquanto secam aqui dentro você e a pobre pimenteira. A vagar, liga anestesiado o monitor, coloca uma música sóbria e sonha com dias melhores.
quinta-feira, outubro 26, 2006
Maybe I Have Found Something Blue
Não dá para explicar em palavras o que estava acontecendo, eu tive que sair de onde estava e ir direto para onde a música tocava. Entrei no café da livraria e não quis olhar diretamente para a banda naquele primeiro momento, bastava ouvir, era uma sensação tão boa que eu só precisava estar ali. Particularidades da música e da sensação que me provoca, sinto que de uma certa maneira isso me liga profundamente aos seus criadores. Procurei uma mesa e achei uma de canto, muito escondida e longe do palco, uma das únicas duas mesas que restavam vagas. Pedi um chá e rabisquei um pouco enquanto a lapiseira reclamava.
Foi um show curto, mas delicioso. Quando o som acabou eu paguei a conta com alguns trocados e me aproximei do palco. Ela era linda.
A beleza tem dessas coisas, uma pessoa não é só bela pela sua aparência, ela é bela pela sua alma, pela forma como trata as pessoas, como sorri quando responde com simplicidade a aquela pergunta óbvia que só você não havia percebido (quantas vezes será que ela já não fez isso?). Pois é, ela era linda, simpática como poucas vezes eu esperei que um artista o fosse.
Foi uma conversa breve, fiquei um pouco tímido (de verdade), acho que tive medo de ser meio clichê, ou de parecer um doido varrido. Foi uma conversa divertida, me fez sentir bem. Quando terminou senti que eu havia saído meio fugido (timidez novamente?). Arrependi-me por não ter agradecido.
Agora noite vai avançando e talvez ainda vá longe. A inspiração que ela me deu lentamente começou a forjar um novo quadro. Talvez o primeiro quadro que eu consiga terminar de pintar em um longo ano.
ps.: http://www.myspace.com/bluebellmusic
quinta-feira, agosto 17, 2006
Você não sabe...
quão distante estou daqui.
Quantas rosas quero dar;
quantas flores já colhi.
Quantas folhas já rasguei;
quantos livros eu já li.
Quantas vezes fiz chorar;
quantos nomes já esqueci.
Quantos rostos já pintei;
quantos versos já escrevi.
Quando a noite vai chegar;
quando a noite vai partir.
Quando a lua vai nascer;
quais estrelas vão surgir.
Quantas delas há no céu;
Elas vão sempre existir?
Ou quantos beijos dar-te-ei,
logo assim que eu te vir.
by Juca Lopes
sábado, setembro 17, 2005
"Home is where your heart lies, they say."
Não sei quem pronunciou essa frase pela primeira vez, nem quem foram os primeiros a propagá-la, mas gosto de pensar, como decerto deve ser, que esta frase surgiu em meio àqueles homens bravios que singraram o azul desde o princípio das coisas. Pode ser apenas ilusão minha, mas essa é parte de minha natureza de pretenso contador de histórias e tecelão de sonhos. Assim, sonhem comigo. Sonhem porque é na ousadia dos homens que seguem em busca do lugar onde o céu toca o mar que mora a verdade. Sonhem porque embora só os sonhos possam ser assim tão belos, não é preciso fechar os olhos para viver pesadelos. Sejam grandes e audazes, mesmo que isso por vezes signifique arriscar o que lhes é mais caro, como tantos homens e mulheres o fizeram antes de nós. "Be bold - and mighty forces will come to your aid" - Basil King. Porque mesmo se estivermos à deriva, mesmo se tudo o mais der errado, o nosso lar continuará sendo o lugar aonde o nosso coração pertence.
segunda-feira, julho 11, 2005
Pesadelo
Feixe a porta que separa a sua consciência do mundo exterior deixando todos os sons do lado de fora.
Respire devagar e profundamente por três vezes.
E só então leia.
Imagine o terror de acordar de um pesadelo que te assombrou a noite toda. Uma noite azul, escura, quase negra e fria... Absolutamente fria. A respiração ofegante, o suor frio a escorrer salgado sobre a face depositando-se em suas sobrancelhas a ponto de fazê-las pesar mais que o mundo. Um pesadelo que te fizeste correr o céu durante a noite toda, dilacerando teus pés descalços em um chão metálico de pontas de agulhas partidas, molhadas e frias raspando teus ossos. Uma corrida interminável e tão agitada quando o desespero dos últimos grãos de areia de uma ampulheta tentando não cair pelo buraco. Imagine o cansaço queimando os pulmões como se eles estivessem repletos de ácido invadir o teu corpo, aquele mesmo cansaço que surge diante da exaustão, que salga a boca por baixo da língua e que traz à tona a vertigem. Imagine o céu girando em falso sob os teus pés e deixando-te imóvel na estratosfera enquanto chega a aurora. Os primeiros raios de sol despontando no horizonte revelando a silhueta distante daquilo que tu persegues, raios que irão queimar-te antes que o alcance. Raios estes a mostrar que tu passaste a noite toda correndo senão atrás de você mesmo como o cão corre bobo atrás do próprio rabo. Imagine acordar, sentar na cama gelado enquanto alguém se aproxima a passos lentos, assistir inerte e cansado a esse alguém se declinar aos teus pés e ser flagrado por um tênue facho de luz no instante em que se abaixa revelando que é você. E que seja o que for, pesadelo ou realidade, ainda não acabou.
sexta-feira, maio 20, 2005
Paisagem
quinta-feira, dezembro 16, 2004
Entre a sobrancelha e o olho
quinta-feira, novembro 25, 2004
Lazward
Alguma vez já disse o quanto gosto dela? Naquele dia algumas nuvens passeavam pelo cerúleo, adornando a abobada celeste, contrastando com o fundo da tela de algum Deus, tela essa que invejo absolutamente todas as vezes que percebo quão profundos e belos são os tons de seus pigmentos. Tento me lembrar de quantas vezes me roubou os pensamentos, como quando mergulhei entre as pedras e os cardumes de Ilha Bela, como quando estava à beira do mar das praias do sul, dos céus que me roubaram a paz, dos olhos de safira que me roubaram à fala... dos poucos olhos que me invadiram violentamente a alma. “Acho que são olhos de mar na ressaca... Aquele mar que vem e me arrasta e me puxa para dentro de você”. Lembro-me igualmente dos tons ultramarinos que tingiram as coisas na calada da noite quando a luz a muito se fôra e da cor daquela manhã em especial. Há quanto tempo foi? Já não me lembro mais ou minto muito bem para mim mesmo. Foi a melhor de todas as noites em meio àqueles dias turbulentos, a calmaria no olho da tempestade. Era quase como se eu pudesse ouvir o som das ondas que me levavam entre o mar e a praia. Era o sonho de Ícaro.
Azul, do persa Lazward. Adj. 1. Da cor do céu sem nuvens com o Sol alto; da cor do mar fundo em dia claro; da cor da safira. S.m. 2. A cor azul em todas as suas gradações. 3. O céu, os ares, o firmamento: Voam pássaros pelo azul em fora.