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sábado, agosto 03, 2013

Sinistro

Você me disse que ficaria por perto, lembro-me bem. Não foram as palavras que você não disse, mas seu olhar misterioso, aterrador, profundo, seu sorriso belo e sinistro. O dia é belo, quente, claro e de cores profundas. As árvores despem-se deixando a pele nua e as folhas caídas pelas calçadas. O telefone toca logo cedo e sua campainha arrasta consigo para longe o humor das cores. Silêncio. O azul do céu, antes profundo e alegre, agora possuí um aspecto patético, baço, ainda que não houvesse mudado em nada desde o instante anterior. Outro pecador se vai para aqueles que acreditam em pecado, mas para mim... para mim segue o silêncio. E penso nisso tudo enquanto ando e o sol arde, enquanto espero na estação rabiscando quieto o meu pesar sobre as páginas do caderno. Pesando o tempo enquanto o trem singra a planície entre os galpões e prédios ao deixar para trás as casas bucólicas. O amigo vai ficando distante enquanto o trem se afasta da estação. E quando menos espero você está aqui outra vez. Ou talvez eu seja apenas um cego incapaz de ver que você nunca saiu do meu lado.

terça-feira, junho 05, 2012

Vagas

O vento e a chuva castigam a janela aborrecendo as pessoas, mas não a mim. Chegaram ontem, de sobressalto, pulsando vida que recebo com a alegria velada de quem vê no outro o reflexo de uma paisagem muito mais interna. Era como aguardar um amigo que está a anos-luz de distância. E que quando chega não fala, ficamos apenas calados, sentados na varanda e isso nos basta. Eu sonhei que era assim que eu encontrava um casal de velhos amigos e contava a eles um sonho que tive (com eles) sem evitar falar em versos com éfes e éles . Era natural, sem esforço, ao mesmo tempo em que  eu era um garoto na estrada querendo aprender sobre garotas e uma rapaz sendo cortejado num bar. E o bar era uma piscina, que era um lago, que pendia sobre o garoto na estrada e arrebentava mar. Eu deixava os meus amigos em seu ninho-castelo de portas abertas e paredes grossas cheias de espinhos. Eu seguia a estrada de pé sobre uma parelha de cavalos. Eu abraçava a garota pela cintura e me despedia como quem sabe que parte por conta de alguma inadequabilidade, que me carrega sobre as vagas para algum outro lugar. Então acordo à deriva, feliz por ter trocado o toque do meu alarme, mesmo que esse estivesse alto demais. O outro me deprimia. E me inclino para fotografar a janela do ônibus, toda molhada, sem me importar para onde este me leva ou quanto tempo levará para chegar.

sábado, maio 14, 2011

Fôlego

O impacto gelado golpeou cada milímetro do seu corpo, arrebatando-lhe, suprimindo-lhe os sentidos... estava só, tentava ver, mas a luz tremeluzente e fraca pregava-lhe peças. Insistia, descia mais e mais fundo, o que começava a render-lhe estalidos fracos em seus ouvidos, estalidos que por mais fracos que começassem, sempre o assustavam tanto quanto quando tornavam-se fortes estrondos. Logo o ar faltava, o peito reclamava e ele continuava a procurar com o mesmo desespero que buscaria uma bolha de ar. Para então, levado ao limite, voltar a superfície. Agora começava a se acostumar a temperatura e não mais assustava com o impacto do frio. Seu corpo logo seria um com a água e o frio não mais importaria, ainda que soubesse estar fora de seu ambiente.

Mergulhou mais uma vez e outra, e outra, e outra. Mergulhou até parar de sentir seus dedos. Mergulhou até não conseguir contar. Mergulhou até que toda a sua pele enrugasse. Muito. E continuava mergulhando confuso, sem saber o que via ou deixava de ver. Às vezes pensava ter visto algo. Às vezes encontrava de fato e chegava a ter a certeza de ter tocado sua calda, apenas para perdê-la no instante seguinte junto as suas certezas. E era tragado de volta à superfície por sua incapacidade de permanecer lá, mas a sensação que se seguia era, não a do fôlego recuperado, e sim a da total perda do ar.

E continuou ali a tentar, muito tempo depois de o sol se por e as estrelas nascerem. Muito tempo depois de o frio abrir-lhe feridas que escureciam a água ao seu redor. Continuou sem saber de nada, numa ciência imprecisa, numa arte perdida ou talvez nunca adquirida. Continuou sem saber que havia na verdade se deixado apaixonar pela morte.

terça-feira, maio 25, 2010

Mãos

Escreve, risca, rabisca,
colore, pinta, cola;

Esboça, clica, rabisca,
constrói, deriva, toca;

Esvai, rasga, rabisca,
destrói, esviscera e chora;


Amarga, hesita, vacila,
refaz, deduz, devora;

Sofrega, insta, abisma,
compraz, induz, provoca;

Afrouxa, estala, instiga,
apraz, seduz e cora.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Invisível

Deu calor, foi uma corrida que dei na rua, demorou a passar, horas e horas. Sinto o nariz cheio de ar e os ouvidos quase tapados. Os sons chegam abafados, submersos e tento segurar a chuva com um tremor interno. A sombra é fria e o sol arde enquanto me afogo em mim mesmo.

E enquanto isso, assisto às coisas e pessoas do outro lado do espelho d'água, numa outra vida em um outro lugar. Como se do alto do meu palco invisível, ao sentir a proximidade do clímax da minha tragédia, eu vivesse um meta-momento , um momento onde as coisas se invertessem e eu pudesse assistir a platéia. Enfadado de mim mesmo, cansado, repetitivo, nostálgico, agitado, desesperado, cansado, cansado, cansado...

A correnteza aumenta e quase me entrego, meio morto, abandonado ao acaso de ser uma sombra do homem, já quase sem forças para continuar. Tenho os bolsos vazios, um milhão de desejos e nenhuma moeda para o Caronte . E assim, a morte irá prevalecer e a vida também, com todas as suas lamentações as quais este lápis é o único confidente. O único capaz de realizar a materialidade e o significado intrínsecos destes fatos insignes. O único capaz de fazer algo à respeito e sobreviver.

sexta-feira, julho 31, 2009

Aqueronte

Sensação estranha, uma misura de imagens que são por sua vez misturas de idéias. Um amigo morto, ou melhor dizendo, prestes a morrer porque seu cérebro foi danificado permanentemente, além de qualquer possibilidade de conserto. Nem sei como fiquei sabendo, fui até a casa do amigo em questão que se tornou outro de uma hora para outra, talvez porque eu tenha decidido polidamente declinar de minha amizade para com este anos atrás. Uma relação estranha, tóxica e questionável do ponto de vista do que se deve esperar de uma amizade.

Removido das idéias o amigo em questão. O novo-velho-amigo-covalecente, que por acaso não encontrava desde o velório da mãe de um grande amigo nosso (mais meu do que dele na verdade, não por isso menos amigo nosso, coisas de amigos de colégio). Estava magro e positivamente mudado pela idade, aparentava estar mais saudável, sincero e bem cuidado do que em nosso encontro anterior. Acompanhou-me até uma loja de aspecto um tanto vitoriano onde alguns dos meus quadros estavam expostos ainda molhados. Levei-o lá porque ao longo de sua doença aparentemente ele também havia passado a pintar e o fazia muito bem. E ao partilhar de tão agradável experiência, queria que levasse consigo o prazer de uma última conversa com outro amigo pintor. Ele não estava só, o pai dele, um jovem senhor muito gente boa que morreu há alguns anos de uma doença degenerativa, o acompanhava devido a sua impossibilidade de caminhar, conversar e fazer tudo aquilo que ele estava fazendo naquele momento.

Tudo ocorreu muito rápido, tendo em vista que a hora da morte estava marcada para a cena seguinte e não queríamos nos atrasar. Assim, dei-lhe um quadro e voltamos a sua verdadeira casa onde outros rostos conhecidos aguardavam com ansiedade e pesar. Apressado, meu amigo voltou para o quarto de enfermaria que havia deixado em sua casa, no que outrora fora sua sala de estar; deitou-se na cama, ajeitou o travesseiro e colocou de volta os eletrodos. Soutou uma ou duas palavras de ordem durante o processo afim de que tudo ocorresse como planejado e, sem mais me olhar desde que voltamos da loja, desligou os próprios aparelhos enquanto seu pai o auxiliava.

Triste e sem poder mais observar o corpo que agora jazia sem vida, virei de costas e caminhei para longe enquanto lembrava de quando minha irmã do meio removia a carne excessiva de suas pernas após ser morta por um trem algumas noites antes.

Comprimi os olhos com um gosto estranhamente familiar na boca, o som das pedras de gelo castigava o telhado. Virei de lado, e fiquei ali parado, nostalgicamente ouvindo a chuva por alguns minutos até o sono me buscar novamente.

terça-feira, setembro 23, 2008

Cadafalso

A cova aguarda.

Com rosnados e roncos ensurdecedores a rua trata os passantes rispidamente.

A cova aguarda.

Força um transe hipnótico em que ninguém vê ninguém, só ouve aos barulhos e respira o cheiro fétido da cidade, de suas velhas galerias, hidrocarbonetos e esgoto à vista de estabelecimentos pútridos.

A cova aguarda.

Em algum lugar do outro lado da cidade ela aguarda, sinistra, silenciosa, funesta. E eu aqui, em um lapso de consciência oriundo das mais misteriosas manifestações da vida, batatas e leveduras. Minhas batatas, minhas leveduras, outras vidas e a minha não-vida. Enquanto a minha vida... A cova aguarda pronta para me devorar a cada dia mais. Mas mal sabe ela que já me tem por inteiro! Que estou morto sabe lá desde quando e que se ainda existo é porque apenas ando e moribundo, mórbido, maltrapilho, habito a casca vazia de mim mesmo.

Ocasionalmente acordo e enxergo através de meus próprios olhos em um instante único de lucidez quando à noite a Lua envolve as minhas entranhas com carícias. Ou quando às vezes sinto um pálido raio de sol invernal o qual ao passar me retorna ao cadafalso, como agora que o lusco-fusco foi-se, o frio é implacável, as batatas jazem gélidas no prato e a consciência luta contra a imobilidade.

O copo rapidamente seca enquanto rabisco as últimas linhas entre goles. O corpo reluta.

A cova aguarda seu momento triunfal.

E eu espero pelo último frio do inverno.

quinta-feira, julho 05, 2007

Problemática

O problema de ficar muito tempo com alguém é desaprender a ficar sozinho.

O problema de ficar sozinho é passar tempo demais calado.

O problema de ficar tanto tempo calado é que a garganta arranha quando você fala.

O problema de falar é não saber o que dizer.

O problema de não saber o que dizer é o silêncio constrangedor.

O problema do silêncio constrangedor é que ele nos faz pensar que preferíamos estar sozinhos.

O problema de estar sozinho é desaprender a ficar com alguém.

segunda-feira, maio 28, 2007

Acorda...

Acorda. É mais uma manhã fria. Os homens cansados levantam para tomar um pingado e vão caminhar para o trabalho. Os ônibus passam lotados e as pessoas se escoram em outras pessoas, todas sonolentas, todas cobertas de pó. O céu escuro resiste e demora a clarear.

Acorda. Está frio pacas. Mal o chá alcança a xícara e já está morno, quase frio. O final de semana passou e você nem o viu. E mesmo que visse ao longo da semana nem teria a quem contar. Pessoas saem do metrô abafado para a rua gelada carregando grandes nuvens de vapor arduamente espiradas.

Acorda. A viagem é cansativa. As gentes se acotovelam tal qual bois indo ao matadouro e no fundo, no fundo, não sei qual é a pressa. É gente para todo lado, se acotovelando mesmo ao trabalho, dia à dentro, semanas a fio, meses, anos. Espremidas em escrivaninhas justas, confinadas a espaços escuros, salas secas de ar-condicionado e outras tantas alcovas tenebrosas da ganância intensiva.

Acorda. Vede a mancha marrom no horizonte e o frio sol de outono antes que descubram a persiana aberta. Vede a vida passando lá fora enquanto secam aqui dentro você e a pobre pimenteira. A vagar, liga anestesiado o monitor, coloca uma música sóbria e sonha com dias melhores.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Maybe I Have Found Something Blue

Eu estava lá, cercado por zilhões de letras, trilhões de palavras, milhões de frases e milhares de páginas em forma de livros. Talvez muito mais que isso, impossível contar. Ao cair da noite eu procurava algo perdido há realmente muito tempo, tanto tempo que eu não esperava mais encontrar, mas eu procurava. Aquela livraria é um lugar estranho para mim por diversos motivos, alguns muito bons, alguns ruins, mas sempre me pego voltando para lá. E lá estava eu, quando inesperadamente eu ouvi. Estava lá.

Não dá para explicar em palavras o que estava acontecendo, eu tive que sair de onde estava e ir direto para onde a música tocava. Entrei no café da livraria e não quis olhar diretamente para a banda naquele primeiro momento, bastava ouvir, era uma sensação tão boa que eu só precisava estar ali. Particularidades da música e da sensação que me provoca, sinto que de uma certa maneira isso me liga profundamente aos seus criadores. Procurei uma mesa e achei uma de canto, muito escondida e longe do palco, uma das únicas duas mesas que restavam vagas. Pedi um chá e rabisquei um pouco enquanto a lapiseira reclamava.

Foi um show curto, mas delicioso. Quando o som acabou eu paguei a conta com alguns trocados e me aproximei do palco. Ela era linda.

A beleza tem dessas coisas, uma pessoa não é só bela pela sua aparência, ela é bela pela sua alma, pela forma como trata as pessoas, como sorri quando responde com simplicidade a aquela pergunta óbvia que só você não havia percebido (quantas vezes será que ela já não fez isso?). Pois é, ela era linda, simpática como poucas vezes eu esperei que um artista o fosse.

Foi uma conversa breve, fiquei um pouco tímido (de verdade), acho que tive medo de ser meio clichê, ou de parecer um doido varrido. Foi uma conversa divertida, me fez sentir bem. Quando terminou senti que eu havia saído meio fugido (timidez novamente?). Arrependi-me por não ter agradecido.

Agora noite vai avançando e talvez ainda vá longe. A inspiração que ela me deu lentamente começou a forjar um novo quadro. Talvez o primeiro quadro que eu consiga terminar de pintar em um longo ano.


ps.: http://www.myspace.com/bluebellmusic

quinta-feira, agosto 17, 2006

Você não sabe...

Quão distante eu quero estar;
quão distante estou daqui.
Quantas rosas quero dar;
quantas flores já colhi.
Quantas folhas já rasguei;
quantos livros eu já li.
Quantas vezes fiz chorar;
quantos nomes já esqueci.
Quantos rostos já pintei;
quantos versos já escrevi.
Quando a noite vai chegar;
quando a noite vai partir.
Quando a lua vai nascer;
quais estrelas vão surgir.
Quantas delas há no céu;
Elas vão sempre existir?
Ou quantos beijos dar-te-ei,
logo assim que eu te vir.


by Juca Lopes

sábado, setembro 17, 2005

"Home is where your heart lies, they say."

Não sei quem pronunciou essa frase pela primeira vez, nem quem foram os primeiros a propagá-la, mas gosto de pensar, como decerto deve ser, que esta frase surgiu em meio àqueles homens bravios que singraram o azul desde o princípio das coisas. Pode ser apenas ilusão minha, mas essa é parte de minha natureza de pretenso contador de histórias e tecelão de sonhos. Assim, sonhem comigo. Sonhem porque é na ousadia dos homens que seguem em busca do lugar onde o céu toca o mar que mora a verdade. Sonhem porque embora só os sonhos possam ser assim tão belos, não é preciso fechar os olhos para viver pesadelos. Sejam grandes e audazes, mesmo que isso por vezes signifique arriscar o que lhes é mais caro, como tantos homens e mulheres o fizeram antes de nós. "Be bold - and mighty forces will come to your aid" - Basil King. Porque mesmo se estivermos à deriva, mesmo se tudo o mais der errado, o nosso lar continuará sendo o lugar aonde o nosso coração pertence.

segunda-feira, julho 11, 2005

Pesadelo

Pare e esvazie sua mente.
Feixe a porta que separa a sua consciência do mundo exterior deixando todos os sons do lado de fora.
Respire devagar e profundamente por três vezes.
E só então leia.

Imagine o terror de acordar de um pesadelo que te assombrou a noite toda. Uma noite azul, escura, quase negra e fria... Absolutamente fria. A respiração ofegante, o suor frio a escorrer salgado sobre a face depositando-se em suas sobrancelhas a ponto de fazê-las pesar mais que o mundo. Um pesadelo que te fizeste correr o céu durante a noite toda, dilacerando teus pés descalços em um chão metálico de pontas de agulhas partidas, molhadas e frias raspando teus ossos. Uma corrida interminável e tão agitada quando o desespero dos últimos grãos de areia de uma ampulheta tentando não cair pelo buraco. Imagine o cansaço queimando os pulmões como se eles estivessem repletos de ácido invadir o teu corpo, aquele mesmo cansaço que surge diante da exaustão, que salga a boca por baixo da língua e que traz à tona a vertigem. Imagine o céu girando em falso sob os teus pés e deixando-te imóvel na estratosfera enquanto chega a aurora. Os primeiros raios de sol despontando no horizonte revelando a silhueta distante daquilo que tu persegues, raios que irão queimar-te antes que o alcance. Raios estes a mostrar que tu passaste a noite toda correndo senão atrás de você mesmo como o cão corre bobo atrás do próprio rabo. Imagine acordar, sentar na cama gelado enquanto alguém se aproxima a passos lentos, assistir inerte e cansado a esse alguém se declinar aos teus pés e ser flagrado por um tênue facho de luz no instante em que se abaixa revelando que é você. E que seja o que for, pesadelo ou realidade, ainda não acabou.

sexta-feira, maio 20, 2005

Paisagem

Contemplo o vazio na ausência do som dos carros. Algumas pessoas vão passando devagar, atravessando a paisagem distante, caminhando daqui para ali, pequenas, tal qual formigas. Sentadas, duas moças dividem comigo o extenso tapete verde que a grama forma atrás do prédio da reitoria onde, ocasionalmente, erguem-se algumas árvores em direção ao céu. As cores vão mudando lentamente, as sombras vão tornando-se penumbras e a lua vai subindo para o azimute enquanto a luz mingua. Pouco a pouco o cenário vai mudando e eu tento capturar essa imagem em minha mente com a futilidade de quem constrói um castelo de areia disputando espaço com as ondas na ponta da praia. Enquanto isso, alguns carros trafegam já com as luzes acesas, os alunos vão chegando lentamente para o turno de aulas da noite e alguns pássaros cantam e brincam. O silêncio é arrebatador. Não o simples silêncio que se deita sobre este lugar mais calmo, mas o silêncio da ausência de vozes conhecidas, das gargalhadas esquecidas e das amizades ausentes. O sol de súbito faz um último esforço no final da abóbada celeste para tingir de amarelo o gramado refletindo-se nas nuvens. Não sei, não sei mais se é de amarelo ou laranja, nem sei se é no outono que estamos ou que dia é hoje. Hoje é só mais um dia qualquer, igual a todos os outros dias. Os dias são iguais há muito tempo e se eu não soubesse que estou aqui, já não saberia mais nada. As luzes dos prédios começam a pipocar entre as janelas dispersas e daqui a pouco a luz do dia terá partido completamente me deixando sem ter como escrever mais hoje. As letras irão embasando, ao papel se misturando e pouco a pouco o silêncio se fará completo.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Entre a sobrancelha e o olho

Deitado na varanda à sombra dos arbustos repousava em uma rede um homem admoestado pelo sono insistente. O tempo quente das tardes de verão deixava tudo vagaroso. A brisa às vezes acariciava o corpo, refrescava e balançava a rede. O cheiro de frutas invadia a casa vindo do pomar, os gatos dormiam sob o sol, tudo compunha um quadro. Do seu lado esquerdo, em uma pequena mesa redonda, branca, repousava um copo de limonada com gelo e um livro, “A queda que as mulheres têm para os tolos”, uma excelente tradução de um autor francês desconhecido feita pelo senhor Machado de Assis. Uma cigarra chiava ao longe fazendo lembrar o cheiro de mato dos dias de infância e o riso dos primos. O sol escapava por minúsculos espaços entre as folhas das árvores para furar a sombra, lamber-lhe o colo e iluminar a pequena pinta que residia só entre a sobrancelha e o olho. Espreguiçou-se e virou de lado expondo o torso nu, o sono vinha gostoso e os sonhos, doces como néctar, regados num desejo de ouvir Djavan. Ah... vontade de poesia que rola no corpo, na sensação de toque leve na pele e no cheiro de calêndula. Dentes de Leão voando pelo ar, escalando o céu claro até as nuvens brancas que dançam no cerúleo refletidas na íris e na pupila dilatada, pegadia, perdida.

quinta-feira, novembro 25, 2004

Lazward

Depois de alguns dias de chuva, acordei com a pele levemente arrepiada pelo frio das últimas horas da manhã, olhei para o céu e percebi, um tanto incrédulo, que o tempo abrira. O céu estava tão profundo que eu não me lembrava que ele era desta cor.
Alguma vez já disse o quanto gosto dela? Naquele dia algumas nuvens passeavam pelo cerúleo, adornando a abobada celeste, contrastando com o fundo da tela de algum Deus, tela essa que invejo absolutamente todas as vezes que percebo quão profundos e belos são os tons de seus pigmentos. Tento me lembrar de quantas vezes me roubou os pensamentos, como quando mergulhei entre as pedras e os cardumes de Ilha Bela, como quando estava à beira do mar das praias do sul, dos céus que me roubaram a paz, dos olhos de safira que me roubaram à fala... dos poucos olhos que me invadiram violentamente a alma. “Acho que são olhos de mar na ressaca... Aquele mar que vem e me arrasta e me puxa para dentro de você”. Lembro-me igualmente dos tons ultramarinos que tingiram as coisas na calada da noite quando a luz a muito se fôra e da cor daquela manhã em especial. Há quanto tempo foi? Já não me lembro mais ou minto muito bem para mim mesmo. Foi a melhor de todas as noites em meio àqueles dias turbulentos, a calmaria no olho da tempestade. Era quase como se eu pudesse ouvir o som das ondas que me levavam entre o mar e a praia. Era o sonho de Ícaro.

Azul, do persa Lazward. Adj. 1. Da cor do céu sem nuvens com o Sol alto; da cor do mar fundo em dia claro; da cor da safira. S.m. 2. A cor azul em todas as suas gradações. 3. O céu, os ares, o firmamento: Voam pássaros pelo azul em fora.