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domingo, janeiro 13, 2013

O Vestido

Hoje a morte veio me ver em meus sonhos. Deitada em uma grande cuba de inox parcialmente cheia de água, vestia a carcaça de uma mulher adulta, quase uma senhora, cujas partes centrais de seus membros haviam sido libertas de todas as carnes. Suas pernas sem a carne das coxas e seus antebraços sem a carne dos braços moviam-se eloquentes, pendurados pelos ossos ainda cobertos de sangue, como longas luvas e botas de carne. Alguma pele da coxa direita ainda estava lá presa e boiava como um chiffon de seda na água de sua cama metálica, um detalhe sofisticadamente maquiavélico. Seus cabelos eram belos, longos, castanhos e encaracolados. Seus olhos, profundos e agudos como pontas de facas. Olhava para dentro de mim, através do recôndito de meus olhos, curiosa e animada, olhava dentro de mim e contava a história dessa senhora. Sorria e tentava ser de todo agradável, mesmo sabendo que não o era, talvez pelo simples fato que seja essa a sua natureza ou porque queria que eu que eu não tivesse duvidas sobre quem ela era. Divertia-se com isso. Ela conhece meu cansaço das injustiças do mundo. Ela sabe que penso nela. E acordo sozinho, enjoado, ofegante, suando frio. Meus olhos banhados pela luz fria da noite piscam secos e confusos e, a cada encontro de pálpebras, lá está ela a sorrir novamente. Queria gritar, mas não tenho voz e chorar mesmo sem lágrimas, queria me libertar da crueldade de seu sorriso que me abandona desperto para o mesmo mundo de sempre.

terça-feira, janeiro 01, 2013

Labirinto


Essa noite eu tive um sonho. Sonhei que tentava escrever e a tinta de todas as canetas falhava. As letras, despedaçadas, irreconhecíveis, se atiravam pelo papel cobrindo toda sua superfície diminuída pelo tamanho das garatujas que o cobriam.
Sonhei que vagava por longas horas pela cidade e, onde quer que eu fosse, havia apenas mendigos se banhando alegres em sua ignorância. Por vezes estes me falavam alguma coisa que eu nunca consegui ouvir. Mesmo vagando por horas sem chegar a lugar algum, visitei três lugares. O primeiro era familiar, um vasto apartamento cheio de plantas onde uma criança me pedia para ensiná-la a pintar. Me levou pela mão a um cavalete com uma tela, pinceis e tinta, mas sempre que o meu pincel tocava o pote de tinta, toda a tinta se tornava carne moída que apodrecia num caldo marrom espesso e liquefazia a cada pincelada. A tela pingava, a mistura escorria para fora e nada ficava. A mãe, que se mostrava indiferente ao que eu fazia, foi crescendo em aversão e impaciência a minha presença, ao que decidi sair de lá. Lembrei que precisava retornar uma fita de videogame à locadora, estava comigo há dias e nunca havia encaixado ao aparelho. A dona da locadora se propôs a examinar o mesmo e retornar-me as diárias. Partimos em uma caminhada que levou dias, o aparelho se encontrava na casa de alguém de quem eu não gostava, mas que permitiu nossa entrada. Atravessamos então a sala da casa, mas o corredor que levava ao quarto era agora um túnel de metrô. Nunca chegamos ao quarto. Abandonei o lugar, fui para o estúdio onde trabalho. A rua estava toda molhada da tempestade que havia caído e o sol saía por entre as nuvens pintando o asfalto e as calçadas em tons de dourado resplandescentes. O imóvel cinza jazia lá no mesmo lugar, vazio, sem nada nem ninguém. Foi então que decidi ir ao único lugar que eu queria ir desde o princípio, ver a única pessoa com quem eu desejava estar. Acordei com a boca seca e o sol quente invadindo a janela, ardendo em meu rosto.

terça-feira, junho 05, 2012

Vagas

O vento e a chuva castigam a janela aborrecendo as pessoas, mas não a mim. Chegaram ontem, de sobressalto, pulsando vida que recebo com a alegria velada de quem vê no outro o reflexo de uma paisagem muito mais interna. Era como aguardar um amigo que está a anos-luz de distância. E que quando chega não fala, ficamos apenas calados, sentados na varanda e isso nos basta. Eu sonhei que era assim que eu encontrava um casal de velhos amigos e contava a eles um sonho que tive (com eles) sem evitar falar em versos com éfes e éles . Era natural, sem esforço, ao mesmo tempo em que  eu era um garoto na estrada querendo aprender sobre garotas e uma rapaz sendo cortejado num bar. E o bar era uma piscina, que era um lago, que pendia sobre o garoto na estrada e arrebentava mar. Eu deixava os meus amigos em seu ninho-castelo de portas abertas e paredes grossas cheias de espinhos. Eu seguia a estrada de pé sobre uma parelha de cavalos. Eu abraçava a garota pela cintura e me despedia como quem sabe que parte por conta de alguma inadequabilidade, que me carrega sobre as vagas para algum outro lugar. Então acordo à deriva, feliz por ter trocado o toque do meu alarme, mesmo que esse estivesse alto demais. O outro me deprimia. E me inclino para fotografar a janela do ônibus, toda molhada, sem me importar para onde este me leva ou quanto tempo levará para chegar.

sexta-feira, julho 31, 2009

Aqueronte

Sensação estranha, uma misura de imagens que são por sua vez misturas de idéias. Um amigo morto, ou melhor dizendo, prestes a morrer porque seu cérebro foi danificado permanentemente, além de qualquer possibilidade de conserto. Nem sei como fiquei sabendo, fui até a casa do amigo em questão que se tornou outro de uma hora para outra, talvez porque eu tenha decidido polidamente declinar de minha amizade para com este anos atrás. Uma relação estranha, tóxica e questionável do ponto de vista do que se deve esperar de uma amizade.

Removido das idéias o amigo em questão. O novo-velho-amigo-covalecente, que por acaso não encontrava desde o velório da mãe de um grande amigo nosso (mais meu do que dele na verdade, não por isso menos amigo nosso, coisas de amigos de colégio). Estava magro e positivamente mudado pela idade, aparentava estar mais saudável, sincero e bem cuidado do que em nosso encontro anterior. Acompanhou-me até uma loja de aspecto um tanto vitoriano onde alguns dos meus quadros estavam expostos ainda molhados. Levei-o lá porque ao longo de sua doença aparentemente ele também havia passado a pintar e o fazia muito bem. E ao partilhar de tão agradável experiência, queria que levasse consigo o prazer de uma última conversa com outro amigo pintor. Ele não estava só, o pai dele, um jovem senhor muito gente boa que morreu há alguns anos de uma doença degenerativa, o acompanhava devido a sua impossibilidade de caminhar, conversar e fazer tudo aquilo que ele estava fazendo naquele momento.

Tudo ocorreu muito rápido, tendo em vista que a hora da morte estava marcada para a cena seguinte e não queríamos nos atrasar. Assim, dei-lhe um quadro e voltamos a sua verdadeira casa onde outros rostos conhecidos aguardavam com ansiedade e pesar. Apressado, meu amigo voltou para o quarto de enfermaria que havia deixado em sua casa, no que outrora fora sua sala de estar; deitou-se na cama, ajeitou o travesseiro e colocou de volta os eletrodos. Soutou uma ou duas palavras de ordem durante o processo afim de que tudo ocorresse como planejado e, sem mais me olhar desde que voltamos da loja, desligou os próprios aparelhos enquanto seu pai o auxiliava.

Triste e sem poder mais observar o corpo que agora jazia sem vida, virei de costas e caminhei para longe enquanto lembrava de quando minha irmã do meio removia a carne excessiva de suas pernas após ser morta por um trem algumas noites antes.

Comprimi os olhos com um gosto estranhamente familiar na boca, o som das pedras de gelo castigava o telhado. Virei de lado, e fiquei ali parado, nostalgicamente ouvindo a chuva por alguns minutos até o sono me buscar novamente.