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terça-feira, maio 12, 2015

Tantálio

Tinha olhos, mas não podia ver. Cego por uma presença invisível, de gosto doce e cheiro acre, agarrada a carótida e atada a língua em palavras não ditas, que esticava suas garras longas e jorrava tédio garganta abaixo. Convulsionando em meio a apoplexia, a tinta escorria sobre o papel como que por milagre, sangrando de poros há muito esquecidos. Uma arte contraditória que pulsa da morte do ser e do ser da morte. Morte, morte, morte. 9 vezes morte ou quem sabe mais. Comiserava-se e velava-se em meio a um silêncio brutal de palavras vazias. Uma ladainha contínua, vinda de todos os lugares. Um balbuciar insensato a brotar de múltiplas bocas plenas de inutilidades. Gritou para si mesmo de um canto escuro da mente e esperou o eco que nunca vinha quebrar a inercia de uma existência insípida.

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Hoje

Você acorda e é só outro dia. Hoje está menos quente, está nublado e cinza. Você tenta escrever porque precisa e a dislexia apavora. Faz tanto tempo... Você vai trabalhar porque hoje você não pensa nos motivos bons para trabalhar, hoje você não pensa nos motivos bons, hoje você não pensa nos motivos, hoje você não pensa, hoje você não, hoje você, hoje... Você não sabe como as palavras saem, do mesmo modo que não sabe como o ar entra. Você se pega lembrando de cinco em cinco minutos que esqueceu de respirar. E respira e tenta focar e nada. Porque de vez em quando temos dias assim. Porque de vez em quando o céu cai. Porque acontece e não há o que fazer. Simplesmente acontece. Às vezes não acontece, às vezes acontece. E não adianta ficar bravo ou frustrado, assim como não adianta não ficar. Você fica e ponto, mas fica por ficar porque não muda nada. Amanhã vai ser um pouco menos pior, e depois de amanhã um pouco menos. Talvez amanhã você consiga se concentrar no que precisa, ou talvez depois de amanhã. Uma hora vai. Uma hora vai parar de doer. Uma hora você volta a respirar. E talvez um dia cicatrize. E é o que tem para hoje. Amanhã vai ser um dia melhor.

sábado, agosto 03, 2013

Sinistro

Você me disse que ficaria por perto, lembro-me bem. Não foram as palavras que você não disse, mas seu olhar misterioso, aterrador, profundo, seu sorriso belo e sinistro. O dia é belo, quente, claro e de cores profundas. As árvores despem-se deixando a pele nua e as folhas caídas pelas calçadas. O telefone toca logo cedo e sua campainha arrasta consigo para longe o humor das cores. Silêncio. O azul do céu, antes profundo e alegre, agora possuí um aspecto patético, baço, ainda que não houvesse mudado em nada desde o instante anterior. Outro pecador se vai para aqueles que acreditam em pecado, mas para mim... para mim segue o silêncio. E penso nisso tudo enquanto ando e o sol arde, enquanto espero na estação rabiscando quieto o meu pesar sobre as páginas do caderno. Pesando o tempo enquanto o trem singra a planície entre os galpões e prédios ao deixar para trás as casas bucólicas. O amigo vai ficando distante enquanto o trem se afasta da estação. E quando menos espero você está aqui outra vez. Ou talvez eu seja apenas um cego incapaz de ver que você nunca saiu do meu lado.

segunda-feira, março 25, 2013

Manhã de Outono

Algumas cores voltaram e me fazem quase não triste. Alegre, aproveito a solidão de me encontrar à só, tão rara e oportuna que me faz respirar aliviado frente ao contraste da corriqueira e tortuosa solidão acompanhada. É outono, minha estação preferida, cujas cores mudam em segundos e revelam centenas de matizes e nuances nas peles dos velhos, na cesta de cebolas e na xícara de café. Enquanto isso continuo a narrar trechos desconexos de sabe-se lá o que. Seria isso a vida? Tento me desvincilhar de minhas tentativas frustradas de escapar ao esquecimento ou ao abandono. É verdade que freqüentemente sou eu próprio a fonte do meu ostracismo. Meus amigos me esquecem ou se revoltam e, por mais sensível que eu seja, nunca fui capaz de não me perder entre tudo o que vejo e o que deixo de ver. Sou muitas vezes incapaz de distinguir nas pessoas a afeição real e a necessidade do outro para a autoafirmação egocêntrica de si mesmo. Chame-me de hipócrita, crucifique-me se quiser. Sinto falta de poucas pessoas, mas sinto essa falta como sentiria a falta do ar, do sangue ou de meus ossos. E não me envergonho mais em dizer que não raro me envergonho de ser... Mas eu falava das cores do outono que se revelaram paranóicas pela nesga de sol entre as nuvens agora fechadas.

sábado, julho 02, 2011

Era uma vez...

... um gato negro de olhos amarelos que se apaixonou por uma mariposa castanha e lhe arrancou as asas.

sábado, maio 14, 2011

Fôlego

O impacto gelado golpeou cada milímetro do seu corpo, arrebatando-lhe, suprimindo-lhe os sentidos... estava só, tentava ver, mas a luz tremeluzente e fraca pregava-lhe peças. Insistia, descia mais e mais fundo, o que começava a render-lhe estalidos fracos em seus ouvidos, estalidos que por mais fracos que começassem, sempre o assustavam tanto quanto quando tornavam-se fortes estrondos. Logo o ar faltava, o peito reclamava e ele continuava a procurar com o mesmo desespero que buscaria uma bolha de ar. Para então, levado ao limite, voltar a superfície. Agora começava a se acostumar a temperatura e não mais assustava com o impacto do frio. Seu corpo logo seria um com a água e o frio não mais importaria, ainda que soubesse estar fora de seu ambiente.

Mergulhou mais uma vez e outra, e outra, e outra. Mergulhou até parar de sentir seus dedos. Mergulhou até não conseguir contar. Mergulhou até que toda a sua pele enrugasse. Muito. E continuava mergulhando confuso, sem saber o que via ou deixava de ver. Às vezes pensava ter visto algo. Às vezes encontrava de fato e chegava a ter a certeza de ter tocado sua calda, apenas para perdê-la no instante seguinte junto as suas certezas. E era tragado de volta à superfície por sua incapacidade de permanecer lá, mas a sensação que se seguia era, não a do fôlego recuperado, e sim a da total perda do ar.

E continuou ali a tentar, muito tempo depois de o sol se por e as estrelas nascerem. Muito tempo depois de o frio abrir-lhe feridas que escureciam a água ao seu redor. Continuou sem saber de nada, numa ciência imprecisa, numa arte perdida ou talvez nunca adquirida. Continuou sem saber que havia na verdade se deixado apaixonar pela morte.

sexta-feira, junho 25, 2010

Scientia Vinces

A pequena criatura dourado-avermelhada deslizava misteriosamente com o peso de seus anos em seu cubo azul entremeado de folhas verdes, nas quais roçava costumeiramente atraído pela leve sensação táctil.

-Pai, o que você faz no trabalho?

O jovem senhor, cujos cabelos só agora começavam timidamente a branquear, fitou longamente seu rebento tentando encontrar algum sinal nele de que o momento era apropriado. Perdeu-se por um instante em seus pensamentos e, como o homem de ciência orgulhoso que era, decidiu que nunca é cedo o bastante para alguém ser iniciado nas maravilhas da ciência. O garoto, que a essa altura já havia desistido de obter qualquer resposta, surpreendeu-se quando a voz rouca de seu pai cortou o ar novamente abrindo espaço entre o menino e seu brinquedo.

-O papai é um médico tanatologista. Você sabe o que é isso?

-Médico tatanologitas? - Disse o menino divertidamente.

-Tanatologista. - Repetiu o pai forçando as letras de volta a seus respectivos lugares.

-Não... - hesitou o garoto de cabeça baixa desviando o olhar calculada e imperceptivelmente para a estante de livros logo atrás do pai. - Médico não é aquele homem que cuida das pessoas?

-Sim. E o médico tanatologista cuida das pessoas depois que elas morrem.

-O que é morrer? - Indagou a criança quase sem respirar.

-Você não sabe o que é morrer? - Inspirou lentamente - A morte é quando uma pessoa deixa de existir. Fisicamente! - completou rapidamente e inspirou mais uma vez - Como aconteceu com a sua mãe.

-Mas por que as pessoas mortas precisam de médico? - Continuou curioso.

O homem sentia-se emaranhar nas crescentes dúvidas do filho. Queria explicar tudo com tanta ciência quanto aprendera, porém, a resposta verdadeira era tão complicada que às vezes ele mesmo não sabia estar certa. Prevendo a espiral de perguntas que se seguiriam e sua crescente impaciência diante das limitações de seu questionador, atalhou relutante:

-Para reconstruir os fatos e descobrir como eles morreram, assim os mortos poderão descansar em paz e os vivos aprenderão a evitar a morte. - Disse o homem satisfeito consigo mesmo pela articulação verossímil enquanto os olhos de seu filho brilhavam com orgulho do pai.

"Reconstruir os fatos" - Repetiu mentalmente o garoto fascinado pelo significado que desconhecia.

"Reconstruir os fatos" - Ele desconhecia o que isso significava, mas seu pai não, era um homem muito inteligente que sabia de tudo.

Brincou maravilhado até que a noite chegou, sua babá veio e sue pai se foi. às horas passaram rapidamente e logo era hora de dormir. Deitou na cama de olhos fechados e esperou pouco como de costume, levantou-se, caminhou até a porta, escutou e abriu. Atravessou o corredor e a sala observando com curiosidade e afeto a babá que em sua exaustão havia cedido mais uma vez ao sono.

"Parece tão cansada!" - pensou.

Caminhou até o aquário, observou o velho peixe que tanto amava e falou em bom tom:

-Eu vou aprender tudo e você nunca vai deixar de existir fisicamente! Boa noite peixe!. Deixou-se ali por um instante e depois voltou para o seu quarto. Deitou-se na cama e pensou longamente até cair no sono:

"Reconstruir os fatos."

"Reconstruir os fatos." - Repetiu mentalmente o garoto fascinado pela força das palavras.

"Reconstruir os fatos..." - Agora ele começava a compreender o significava. Queria aprender tudo como o seu pai. E um dia quando soubesse ler, leria todos os livros do pai e aprenderia tudo o que ainda não sabia sobre "reconstruir os fatos". Todos aqueles livros com figuras grandes de homens tortos e engraçados que folheava à noite enquanto a babá dormia e o pai trabalhava. Todos os livros da estante ao lado do grande cubo azul que agora tingia-se de vermelho com a reconstrução de seu primeiro fato. E reconstruiria a todos os fatos para que todos descansassem em paz e para que ninguém mais deixasse de existir fisicamente.

quinta-feira, abril 08, 2010

Queria

Queria. Que houvessem grandes significados, questões de importância, consequências últimas e cenas poéticas como garotas de cabelo colorido, rãs alaranjadas, escaravelhos, lagos com carpas, e tons de fotografia polaroide alterados pelo tempo. Ou então coisas de avós, porque coisas de avós são sempre histórias legais de se ouvir, pois guardam um sentimento nostálgico de um tempo bom.

Queria, ou talvez nunca tenha querido, porque eu nunca soube e você talvez nunca saiba, quiçá a única importância disso seja o excesso de importância que todo mundo dá. Tudo muito freudiano e problemático como tudo aquilo em que se mete muita gente. Logo, farei como o homem que começou a escrever depois de morto e te direi sobre o passado que a verdade aqui é o que menos importa.

Não há história, só estória, desde o começo.
Significados fugidios,
importâncias ocultas,
inconsequências últimas
e poesias dissecadas.
"you see is all here, you are meant to be here, from the beggining..."

Até hoje nenhum momento foi tão prolífico quanto a calada da noite. Enquanto todos dormem, no silêncio de si e do outro eu me perco e me encontro. Ainda que para tocar o outro, faz-se necessário um certo conforto e um certo espaço. Pode chamar de timidez se quiser, mas as minhas ideias são muito voláteis, juntam-se como turbas ensandecidas, mas fogem ao ouvir o menor estalo. Um amigo costumava me dizer que era tudo uma questão de gravidade, com a qual as boas ideias precisam romper a fim de se lançarem da orbita ao redor das nossas cabeças para o mundo.

No fim das contas não sei dizer qual a finalidade disso tudo, embora o tempo traga sentido às coisas é difícil prever a objetividade de toda essa volatilidade. Hoje é tudo tão frágil, tão descartável, tão fragmentado que a mim já não é mais possível dizer se somos aqueles que veem as sombras de dentro da caverna ou se somos as sombras que observam a caverna de fora. Talvez por isso eu pinte, para que outros possam ver através da minha pintura algo que está além da realidade das uvas de Zeuxis.

terça-feira, março 16, 2010

O Tigre da Tasmânia

Dizem que recordar é passar novamente pelo coração, mas a memória tem algo de volátil e de traiçoeira, tal qual a víbora que desvanece tão repentinamente quanto surge antes do bote. Pode parecer uma afirmação falsa, mas é fato que não sou capaz de me recordar da minha primeira experiência artística significativa. Lembro de muitas coisas, das cores nas latas de tinta, do silêncio e da escuridão do laboratório fotográfico, das mesas de desenho e de pessoas que passaram por elas; mas sobre tudo me lembro da mistura peculiar de cheiros que iam da serragem na carpintaria aos periódicos sobre as mesas do escritório passando pelo cheiro das emulsões, thiner, poeira, películas e das pessoas que davam vida à fábrica. Os dias eram longos, repletos de contradições e curiosidades. De certo não era arte, mas ela estava impregnada por lá em todos os cantos e espaços, entrava pelos poros e morria na boca. E quando terminava deixava um sabor estranho de algo que é o que não é e não é o que é.
Devaneio, uma garota ao telefone rabisca dezenas de caixas num pedaço de papel, outra quebra uma folha em centenas de triângulos cuidadosamente coloridos. No museu de arte, um garoto brinca com uma estátua da maneira que garotos brincam para constranger aos adultos. Em um quarto mal iluminado uma gaveta transborda lápis, réguas, tintas e decalques. Um prédio se sustenta no ar por quatro pernas que ainda não eram vermelhas. Eu não sei como foi porque eu não estava lá, era outro, lá no principio, onde a linguagem se insinuou antes da mensagem. Carregada de um hálito embriagante, inexorável, sedutor, proibido, implacável.

domingo, dezembro 13, 2009

Ficção Intitulada

Ao olhar por um instante para o céu, notou o que nunca antes parara para pensar e deu por falta da luminosidade tenra de uma estrela conhecida. Era normal que vibrasse e fraquejasse e que por vezes parasse e voltasse, desde que sempre estivesse lá. Mas naquele momento, sabe-se lá por que, o que deveria estar lá não estava. Não havia estrela alguma, apenas o temor até então desconhecido de que ela nunca mais voltasse.

Jack lembrou-se de que toda a subjetividade tem um preço, que quando olhamos tempo demais para dentro de nós não vemos o que está a mais de um palmo do nosso umbigo. Sempre “soube” que as estrelas morriam, mas nunca em sua vidinha miserável imaginou que veria isso acontecer. No entanto lá estava ele diante do fato, extremamente surpreso e um tanto quanto envergonhado de por tanto tempo ter sentido a necessidade de saber que alguém um dia lançou daquela estrela um olhar de volta para ele.

Olhou de novo para o céu, e de novo, e de novo, sabendo que já ocorrera antes de ter apenas perdido a estrela de vista e se confundido, visto que era apenas um amador na arte de observar estrelas. Mas sabia que até então ela não estava lá e talvez amanhã não estivesse, nem depois de amanhã e nem depois de depois de amanhã. E por mais que doesse não havia nada que pudesse fazer a não ser esperar.

Enquanto fitava o horizonte aturdido, lembrou-se de que quando era criança acreditava que as estrelas existiam uma por causa das outras. Que de cada estrela brotavam várias outras e destas muitas outras ainda, numa profusão caótica, amistosa e infinita. Até que um dia, ao compartilhar com cortesia sua pequena sabedoria a um adulto, recebera de volta uma risada curta, rude e sarcástica e uma pergunta capciosa. “Então, se as estrelas nascem umas das outras, de quem nasceu a primeira estrela?”

Diante do enunciado o pequeno Jack não teve outra opção senão sorrir sem graça e corar. Conteve o choro enfurecido e orgulhoso até conseguir se encontrar só e então verteu todas as lágrimas que pode, não pela grosseria recebida, nem pela certeza que lhe havia sido arrancada, mas pela necessidade do homem em destruir tudo pela “lógica”. No fundo ele sempre soube que não era aquela a resposta para o brilho da noite, mas nunca entendeu o prazer mórbido do homem em destruir coisas belas fingindo ignorar o que estava para além de si próprio.

Naquela noite Jack não conseguiu dormir, ficou esperando a estrela até que a aurora não o deixasse mais distinguir entre os astros e céu. E sem saber se a estrela havia morrido ou não, o amargor de tornar-se consciente de que estrelas morriam todos os dias só era superado pelo amargor de saber ter herdado a ignorância que o tornava impotente e cúmplice de um fato tão sórdido quanto a morte de uma estrela.