Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens

sábado, julho 02, 2011

Era uma vez...

... um gato negro de olhos amarelos que se apaixonou por uma mariposa castanha e lhe arrancou as asas.

sábado, maio 14, 2011

Fôlego

O impacto gelado golpeou cada milímetro do seu corpo, arrebatando-lhe, suprimindo-lhe os sentidos... estava só, tentava ver, mas a luz tremeluzente e fraca pregava-lhe peças. Insistia, descia mais e mais fundo, o que começava a render-lhe estalidos fracos em seus ouvidos, estalidos que por mais fracos que começassem, sempre o assustavam tanto quanto quando tornavam-se fortes estrondos. Logo o ar faltava, o peito reclamava e ele continuava a procurar com o mesmo desespero que buscaria uma bolha de ar. Para então, levado ao limite, voltar a superfície. Agora começava a se acostumar a temperatura e não mais assustava com o impacto do frio. Seu corpo logo seria um com a água e o frio não mais importaria, ainda que soubesse estar fora de seu ambiente.

Mergulhou mais uma vez e outra, e outra, e outra. Mergulhou até parar de sentir seus dedos. Mergulhou até não conseguir contar. Mergulhou até que toda a sua pele enrugasse. Muito. E continuava mergulhando confuso, sem saber o que via ou deixava de ver. Às vezes pensava ter visto algo. Às vezes encontrava de fato e chegava a ter a certeza de ter tocado sua calda, apenas para perdê-la no instante seguinte junto as suas certezas. E era tragado de volta à superfície por sua incapacidade de permanecer lá, mas a sensação que se seguia era, não a do fôlego recuperado, e sim a da total perda do ar.

E continuou ali a tentar, muito tempo depois de o sol se por e as estrelas nascerem. Muito tempo depois de o frio abrir-lhe feridas que escureciam a água ao seu redor. Continuou sem saber de nada, numa ciência imprecisa, numa arte perdida ou talvez nunca adquirida. Continuou sem saber que havia na verdade se deixado apaixonar pela morte.

sexta-feira, junho 25, 2010

Scientia Vinces

A pequena criatura dourado-avermelhada deslizava misteriosamente com o peso de seus anos em seu cubo azul entremeado de folhas verdes, nas quais roçava costumeiramente atraído pela leve sensação táctil.

-Pai, o que você faz no trabalho?

O jovem senhor, cujos cabelos só agora começavam timidamente a branquear, fitou longamente seu rebento tentando encontrar algum sinal nele de que o momento era apropriado. Perdeu-se por um instante em seus pensamentos e, como o homem de ciência orgulhoso que era, decidiu que nunca é cedo o bastante para alguém ser iniciado nas maravilhas da ciência. O garoto, que a essa altura já havia desistido de obter qualquer resposta, surpreendeu-se quando a voz rouca de seu pai cortou o ar novamente abrindo espaço entre o menino e seu brinquedo.

-O papai é um médico tanatologista. Você sabe o que é isso?

-Médico tatanologitas? - Disse o menino divertidamente.

-Tanatologista. - Repetiu o pai forçando as letras de volta a seus respectivos lugares.

-Não... - hesitou o garoto de cabeça baixa desviando o olhar calculada e imperceptivelmente para a estante de livros logo atrás do pai. - Médico não é aquele homem que cuida das pessoas?

-Sim. E o médico tanatologista cuida das pessoas depois que elas morrem.

-O que é morrer? - Indagou a criança quase sem respirar.

-Você não sabe o que é morrer? - Inspirou lentamente - A morte é quando uma pessoa deixa de existir. Fisicamente! - completou rapidamente e inspirou mais uma vez - Como aconteceu com a sua mãe.

-Mas por que as pessoas mortas precisam de médico? - Continuou curioso.

O homem sentia-se emaranhar nas crescentes dúvidas do filho. Queria explicar tudo com tanta ciência quanto aprendera, porém, a resposta verdadeira era tão complicada que às vezes ele mesmo não sabia estar certa. Prevendo a espiral de perguntas que se seguiriam e sua crescente impaciência diante das limitações de seu questionador, atalhou relutante:

-Para reconstruir os fatos e descobrir como eles morreram, assim os mortos poderão descansar em paz e os vivos aprenderão a evitar a morte. - Disse o homem satisfeito consigo mesmo pela articulação verossímil enquanto os olhos de seu filho brilhavam com orgulho do pai.

"Reconstruir os fatos" - Repetiu mentalmente o garoto fascinado pelo significado que desconhecia.

"Reconstruir os fatos" - Ele desconhecia o que isso significava, mas seu pai não, era um homem muito inteligente que sabia de tudo.

Brincou maravilhado até que a noite chegou, sua babá veio e sue pai se foi. às horas passaram rapidamente e logo era hora de dormir. Deitou na cama de olhos fechados e esperou pouco como de costume, levantou-se, caminhou até a porta, escutou e abriu. Atravessou o corredor e a sala observando com curiosidade e afeto a babá que em sua exaustão havia cedido mais uma vez ao sono.

"Parece tão cansada!" - pensou.

Caminhou até o aquário, observou o velho peixe que tanto amava e falou em bom tom:

-Eu vou aprender tudo e você nunca vai deixar de existir fisicamente! Boa noite peixe!. Deixou-se ali por um instante e depois voltou para o seu quarto. Deitou-se na cama e pensou longamente até cair no sono:

"Reconstruir os fatos."

"Reconstruir os fatos." - Repetiu mentalmente o garoto fascinado pela força das palavras.

"Reconstruir os fatos..." - Agora ele começava a compreender o significava. Queria aprender tudo como o seu pai. E um dia quando soubesse ler, leria todos os livros do pai e aprenderia tudo o que ainda não sabia sobre "reconstruir os fatos". Todos aqueles livros com figuras grandes de homens tortos e engraçados que folheava à noite enquanto a babá dormia e o pai trabalhava. Todos os livros da estante ao lado do grande cubo azul que agora tingia-se de vermelho com a reconstrução de seu primeiro fato. E reconstruiria a todos os fatos para que todos descansassem em paz e para que ninguém mais deixasse de existir fisicamente.

domingo, dezembro 13, 2009

Ficção Intitulada

Ao olhar por um instante para o céu, notou o que nunca antes parara para pensar e deu por falta da luminosidade tenra de uma estrela conhecida. Era normal que vibrasse e fraquejasse e que por vezes parasse e voltasse, desde que sempre estivesse lá. Mas naquele momento, sabe-se lá por que, o que deveria estar lá não estava. Não havia estrela alguma, apenas o temor até então desconhecido de que ela nunca mais voltasse.

Jack lembrou-se de que toda a subjetividade tem um preço, que quando olhamos tempo demais para dentro de nós não vemos o que está a mais de um palmo do nosso umbigo. Sempre “soube” que as estrelas morriam, mas nunca em sua vidinha miserável imaginou que veria isso acontecer. No entanto lá estava ele diante do fato, extremamente surpreso e um tanto quanto envergonhado de por tanto tempo ter sentido a necessidade de saber que alguém um dia lançou daquela estrela um olhar de volta para ele.

Olhou de novo para o céu, e de novo, e de novo, sabendo que já ocorrera antes de ter apenas perdido a estrela de vista e se confundido, visto que era apenas um amador na arte de observar estrelas. Mas sabia que até então ela não estava lá e talvez amanhã não estivesse, nem depois de amanhã e nem depois de depois de amanhã. E por mais que doesse não havia nada que pudesse fazer a não ser esperar.

Enquanto fitava o horizonte aturdido, lembrou-se de que quando era criança acreditava que as estrelas existiam uma por causa das outras. Que de cada estrela brotavam várias outras e destas muitas outras ainda, numa profusão caótica, amistosa e infinita. Até que um dia, ao compartilhar com cortesia sua pequena sabedoria a um adulto, recebera de volta uma risada curta, rude e sarcástica e uma pergunta capciosa. “Então, se as estrelas nascem umas das outras, de quem nasceu a primeira estrela?”

Diante do enunciado o pequeno Jack não teve outra opção senão sorrir sem graça e corar. Conteve o choro enfurecido e orgulhoso até conseguir se encontrar só e então verteu todas as lágrimas que pode, não pela grosseria recebida, nem pela certeza que lhe havia sido arrancada, mas pela necessidade do homem em destruir tudo pela “lógica”. No fundo ele sempre soube que não era aquela a resposta para o brilho da noite, mas nunca entendeu o prazer mórbido do homem em destruir coisas belas fingindo ignorar o que estava para além de si próprio.

Naquela noite Jack não conseguiu dormir, ficou esperando a estrela até que a aurora não o deixasse mais distinguir entre os astros e céu. E sem saber se a estrela havia morrido ou não, o amargor de tornar-se consciente de que estrelas morriam todos os dias só era superado pelo amargor de saber ter herdado a ignorância que o tornava impotente e cúmplice de um fato tão sórdido quanto a morte de uma estrela.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Fim de Tarde

Ele saiu bem diferente de como eu o imaginei, ficou legal, então vou publicar e acho que vou tentar escrever outro seguindo a idéia original. Até lá, divirtam-se:

***

Fim de Tarde


A sensação de estar mentalmente distante do lugar onde se está fisicamente é uma velha-conhecida. Onde eu estava, de verdade, não sei? Onde estava? Parado no metrô.

A bela garota passava em um vestido bordô. Combinando desde as unhas até o sapato com os mais deliciosos tons de vermelho. Seus cachos perfeitamente castanhos destacavam os fones brancos do iPod e emolduravam o rosto pálido onde brilhavam olhos do mais puro azul-turquesa.

Ela se senta e eu assisto como um garoto na multidão. A curiosidade me devora. Quero saber o que ela está escutando enquanto sorri e batuca animadamente com as unhas na superfície do iPod. Seu sorriso é gracioso, um daqueles sorrisos que se dá quando ninguém está olhando, ou quando se está distraído demais para pensar nisso. Em deleite eu observo.

Mas no mundo real o telefone toca, borra a imagem e revela o escritório. Todo mundo ao redor olha enquanto brigo com a pequena concha cinzenta para silenciar o seu toque. Converso rapidamente e me dirijo para o recinto mais branco e diminuto que alguém ousou chamar de copa. na seqüência desligo o telefone e volto a minha mesa para me concentrar.

Só que alguém ralha com alguém, alguém contra argumenta e outro alguém cantarola do outro lado da sala. Eu respiro fundo, finjo ignorar tudo enquanto ar gélido me açoita saindo do maldito ar-condicionado. É tão difícil voltar a me concentrar! O relógio do computador ainda errado assiste a tudo e o do celular denuncia: falta dez minutos para o final do expediente. Fico indeciso se salvo ou não o arquivo e me lembro da pasta com dezenas de textos inacabados que apaguei recentemente.

Visto a minha jaqueta vermelha, desligo o computador e atravesso a sala tentando não levantar suspeitas ou revelar a minha felicidade. Passo o cartão no relógio de ponto que apita com o elevador. Corro para a porta quase inutilmente e alguém segura o elevador pouco antes que fechasse.

Agradeço automaticamente antes de erguer os olhos do chão e ver o rosto conhecido cujo sorriso eu só imaginei em sonhos. Abro meus lábios assustado em um reflexo sem, no entanto, emitir som e, enquanto a porta do elevador se fecha, ela diz: “Era Modern Love, do Bowie”.

terça-feira, setembro 19, 2006

Peixeiro

Estava atrasado novamente e pensou enquanto acendia a outro cigarro.

“Por quanto tempo mais meu chefe agüentará isso?”

O trago iluminou o quarto e as cobertas das quais se quer havia saído ainda.

“Quanto tempo mais eu tenho até ser mandado embora? Todo mundo sabe que limpar peixes está mais para um trabalho insalubre que para qualquer outra coisa, mas ninguém se importa. Tem aquele cheiro, óbvio, que depois de dois dias impregna tudo, aquela sujeira que nunca mais sairá de você e têm os espinhos, ah sim, os espinhos... Eles te pegam de jeito quando os seus dedos já enrugaram de passar tanto tempo naquele caldo misto água, sangue, tripas, gelo e suor. Os espinhos são normalmente bem incômodos para as pessoas que os sentem, mas uma das vantagens de abandonar a medicação por falta de dinheiro é que o seu limiar a dor aumenta, que na verdade é como se nada disso importasse muito realmente.”

Apagou o cigarro no cinzeiro, mas não antes de acender outro. Odiava o gosto daquilo, mas que se dane, quem se importa. Colocou o novo cigarro no cinzeiro e saiu da cama. Caminhou pelo apartamento minúsculo procurando alguma peça de roupa limpa, juntou uma calça e uma camisa que cheiravam menos a peixe e as vestiu. Ignorou o café, a geladeira havia quebrado há uma semana e o leite já havia passado dessa para melhor há tempos. Comeu um saco de “Porquitos” que comprara no dia anterior e ao sair para o “trabalho”, batendo a porta com força derrubou da parede da sala o diploma da faculdade de direito espatifando a moldura em milhares de cacos que ainda ficariam ali por muitos dias.


***

Eu nunca entendi direito por que as pessoas continuam fazendo coisas que lhes fazem mal.

sexta-feira, março 17, 2006

Somniculus

Ônibus. No ônibus. Movimento. O calor é degradante, a viagem lenta. Viagem, literalmente. O Shin’in, ex-imperador Sutoku, levanta-se e dá lugar a uma moça. Propicia-me a conversa mais agradável que eu já tive com estranhos dentro de um ônibus em toda a minha vida. Do lado de fora, os carneiros atravessam a paulista na faixa, pulando o canteiro central. Ela me pergunta o que estou lendo, eu mostro. Ela diz ser dona de uma empresa de artigos de bambu. Take era o nome, acho. Mais algumas palavras e me despeço, levanto, passo a catraca e percebo que não estou bem aonde eu pensava. Faltam três ou quatro pontos até o meu, mas fiquei com medo de perdê-lo, a conversa estava realmente boa. Desço do ônibus no meu ponto habitual e noto que o vento balançando a cerca viva de uma casa lembra as algas do fundo de um aquário, ou isso foi depois? Depois eu acho, antes eu atravessei a faixa da Faria Lima, antes ainda a da Cidade Jardim. Os carneiros estavam lá, eu me lembro. Pulavam alegremente e não pisavam nas rachaduras do chão de concreto. Distorções espaço-temporais, fotofobia. Meu estado é realmente deplorável. Paro em um café e peço um chá, odeio beber café, preciso de cafeína. Pago ao homem que me atendeu realmente confuso e quase esqueço o troco com medo de perder o meu próximo ônibus. Saio em tempo de vê-lo chegar a toda velocidade. Não, não era ele, agora estou confundindo cores também. Entro em outro ônibus evitando pisar nos degraus com cogumelos, bebo chá mate e acordo um pouco. Sento-me, mas ainda tenho a sensação de que os objetos são feitos de diversos planos sobrepostos, sem a profundidade que enxergamos. Um mundo composto por diversos planos que, quando viramos rapidamente a cabeça, conseguimos ver saírem de registro. Lentamente as coisas voltam ao normal, acho que acordei um pouco. A cabeça pesa, mas agora está tudo bem, noto que estou muito atrasado. Respiro fundo, me recomponho assistindo a um senhor de aparência circunspeta que trava uma guerra contra a sua pasta. E quando me viro para a moça ao meu lado uma carpa gigante me saúda do lado de fora do ônibus, flutuando em frente à cerca viva de algas do restaurante mais próximo, aonde os carneiros tomam um brunch. Preciso dormir.

sábado, junho 25, 2005

Vermelha

Vermelha.
Perfeitamente vermelha escura.
Deslizara pelo branco aveludado, lentamente, ora atrasada pelos pequenos pelos, ora correndo mais de pressa até a borda onde se debruçara com um brilho vivo, intenso, furtivo, balançara, pulsara, pendera e caíra. Viajando por centenas de longos instantes pelo ar, perdida, redonda e vermelha.
O tempo parara. Algumas vezes pestanejava, caía em um sono longo, etéreo e instantâneo, visitava pradarias, bosques, montanhas e ia muito além. O cheiro de madeira invadia as narinas, as extremidades do corpo reclamavam frias, as mãos ásperas falhavam, vacilava... E o sono perseverava mais forte que tudo, disputava, tentava acordar, piscava forte contra o sono dos justos. Às vezes um raio de luz refletido no copo de vidro que ia e voltava saltando os frisos do assoalho de madeira alcançava a gigantesca pupila dilatada que não precisava mais esconder-se atrás da pálpebra para sonhar. Alçara vôo sobre dois mundos. De súbito todas as cores ganharam um brilho forte, sobrenatural, como se a tinta do quadro borrasse em milhares de tons impressionistas. Não havia mais extremidades e cada cor era feita de milhares de outras, estava dentro de um quadro. Em um átimo de segundo sentiu-se finalmente livre, o corpo parou de lutar, os músculos cederam, a consciência deu lugar à inconsciência.
Acordara bruscamente com o estardalhaço. Eram milhares de gotas vermelhas a surgir da derradeira que despedaçara-se ao encontrar com a água, multiplicando o impacto e o efeito do vermelho vivo diluindo e desaparecendo no líquido transparente. O estrago já havia sido feito. O vermelho escorria sobre o cavalete e o chão misturando o seu forte odor ao do vinho. A tela branca possuía agora manchas produzidas por um efeito errático. Rorschach.

terça-feira, março 08, 2005

"8"

A luminária balançava devagar fazendo o fio, tencionado, ranger levemente no ponto onde tocava o teto. Paredes vermelho-cereja delimitavam o aposento onde uma mesa longa, perfeitamente envernizada, era coberta pelo verde de um tecido; um mundo de contrastes em um filme de alta sensibilidade. A meia-luz revelava o colo exposto e o contorno perfeito dos seios da garota que iniciara o seu movimento, estremecendo a ordem do mundo. Do outro lado da sala, saindo da penumbra, ele contornava a mesa com movimentos felinos, um sorriso no canto dos lábios e olhos escuros, atentos e brilhantes. Snap! Uma bola corria para a caçapa enquanto a luz continuava a pendular, e levantando da mesa para ela, lentamente, os olhos, ele pronunciou em meio a um sorriso: “_É sua vez”. A luz focara abruptamente em sua mão, segurada com força, um gesto de cortesia tão tentador como o que balançara a luminária. Ela ria tímida afastando, esbaforida, dos lábios a taça de champagne marcada pelo batom e colocando-a de lado junto a sua timidez. Olhou diretamente dentro de seus olhos, caminhou sensual e decididamente de encontro a ele e inclinou-se levemente sobre a mesa enquanto mordia os lábios olhando de canto. Snap! Outra bola atravessava a mesa. Ela levantara sorrindo com um ar de graça que lembrava as pin-ups de Gil Evergreen e com um movimento sutil soltou o coque que prendia seus longos fios castanhos, quase negros. Não precisavam de palavras, os olhos de ambos falavam por eles, inquietos, libidinosos, famintos, olhos que devoravam uns aos outros euforicamente com as pupilas dilatadas. A respiração intensa trazia ar aos pulmões gerando aquela leve cócega no externo, uma sensação que poucas vezes se sente, mas da qual ninguém nunca se esquece. Noite adentro, as bolas foram desaparecendo da mesa, uma após a outra em um ritmo forte e intenso, noite adentro... até o momento onde restara apenas uma. Seus olhares se cruzaram desejosos. A tensão alcançara o seu ápice, o tempo dilatara e Beth Gibbons cantava para eles, distante no rádio.
“ ‘Cause the child roses like,
Try to reveal what I could feel,
And this loneliness,
It just won't leave me alone, oh no.”
Logo, não havia mais bolas na mesa, não havia mais copos, não havia mais chão. Os faróis dos carros iluminavam a vida longe em movimento, em flashes que não alcançavam as janelas. Havia lábios, olhos, cheiros, êxtase. O tecido amortecia os movimentos e a luminária pendulava novamente.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Conto de Natal

18:20, eu havia saído da casa dela, um pouco constrangido e um pouco consternado. Não é todo dia que você entrega um presente de aniversário, ainda que atrasado, e fica com a impressão de que a pessoa olhava através de você. Sei lá, ela deveria ter seus motivos, os quais não cabem a este ensaio. O fato é que faltavam quase seis horas para a ceia de natal e eu não estava nem um pouco a fim de voltar para casa. A idéia que vinha crescendo há algumas horas na minha mente agora tomava forma. Um bate-e-volta em Santos. Praticidades de quem tem uma moto, não paga pedágio e gasta uns R$12,00 em combustível para ir e voltar. Lá fui eu seguindo estrada adentro com o sol já baixo. Com sorte, ainda conseguiria assistir ao sol se pondo no mar.Sempre venta muito na descida da serra, mas, no dia, até que estava tranqüilo. Poucos veículos, nenhum caminhão, apenas eu, Valentyne e o asfalto, ocasionalmente acompanhados por meia-dúzia de carros. No começo da “Nova Imigrantes” o sol resolveu esconder-se atrás das nuvens e uma neblina espessa tomou conta da estrada. Neblina de verdade e muita, eu enxergava apenas as luzes de freio do carro à frente perdidas no meio do branco e o chão imediatamente abaixo da roda dianteira até 3 ou 4 metros à frente. Alguns pensamentos bizarros surgiram “literalmente” do nada: “é só seguir em direção às luzes, as duas vermelhas quadradinhas, não a branca gigantesca à direita no final do túnel”. A neblina causa uma sensação estranha, como se Deus passasse uma borracha no mundo, mas essa impressão durou pouco, pois logo eu entrei no túnel (o da estrada, não o da luz) ignorando a existência de neblina ou vento e rapidamente alcançando a Baixada Santista. Uma vez em Santos, demorei apenas para alcançar a praia, chegando lá no exato momento em que o sol entrega-se para morrer nos braços do mar, numa diversidade de tons que apenas o oceano é capaz de pintar de encontro ao firmamento. Minha empreitada não poderia ter sido melhor, voar pela estrada livre para caçar um pôr do sol. Regozijado pelo momento único, aproveitei para visitar alguns parentes, o que fez com que partisse de lá apenas 23:20. Apesar da hospitalidade, não resisti, voltei àquela hora mesmo, pois havia combinado de encontrar com meus poucos amigos próximos após a ceia e abrir um bom Cabernet Sauvignon. Mas nem imaginava que o meu intento seria frustrado e que não encontraria ninguém quando chegasse em São Paulo. Enfim, foi então, durante a volta, que aconteceu o extraordinário. A estrada estava deserta, como era de se esperar, estendendo seu veludo negro sob meus pés, um silêncio tranqüilo e um céu estrelado. Eu deslizava noite adentro praticamente só e meus pensamentos pareciam falar em voz muito alta. No final da planície litorânea a única estrada disponível para a volta era a Anchieta, eu nunca havia subido a serra por ela que é mais tortuosa e utilizada para transporte de cargas, mas a estrada estava tranqüila e não havia outra opção. Eu já disse que a estrada estava tranqüila? Pois é, estava tranqüila... tranqüila até demais e foi em meio a toda essa tranqüilidade que avistei meia dúzia de carros subindo juntos atrás de uma viatura com as luzes apagadas, provavelmente um carro da polícia ou da empresa concessionária da estrada, estavam a uma velocidade razoável e pareciam conhecer bem a estrada. Decidi me embrenhar junto a eles e fui subindo com calma, em segurança na estrada vazia com uma certa paz de espírito. Foi bem melhor do que enfrentar aquele breu absoluto, já que as lanternas dos carros aumentavam a luminosidade da estrada e espantavam aquela escuridão quase sobrenatural. Chegando na divisa de município com São Bernardo, no ponto onde a Anchieta retorna a Imigrantes depois da serra, todos os carros haviam me ultrapassado e enfileirado a minha direita, sendo que o último da fila começou a sinalizar com a seta e com o braço para que eu ultrapassasse. Achando tudo muito estranho vim para a pista da esquerda e acelerei ultrapassando a fila toda, inclusive a viatura... do serviço funerário municipal.