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domingo, março 25, 2012

Manhã Branca

Acordo para uma manhã branca. Os raios frios entram pelas frestas que o tempo abriu na janela. O teto se inclina em minha direção curvado pelo peso dos cupins e o tempo breve prenuncia mudanças. Está cedo de verdade, não aquele o cedo de todos os dias e todas as horas, o cedo do incerto, está cedo de verdade. O sono deixa a cama com pressa e vilania e eu já nem insisto que ele fique, mas levo alguns minutos para me dar conta de mim mesmo e da partida de um amigo.

Ele não foi embora ontem, já havia partido há uns cinco anos, ou talvez eu que partira então. Ainda assim é amargo acordar em um mundo arbitrário. Talvez eu nunca mais o visse mesmo que ele continuasse vivo, mas agora... Agora tudo o que faço é me lembrar dos ritos fúnebres e dos rostos de inúmeros desconhecidos, enquanto percebo o quanto já me esqueci dos rostos que nós conhecíamos e que não estavam lá. Como se houvesse calor num abraço hipócrita de quem teme a ave de rapina. Como se nossa carne não estivesse igualmente rota e carcomida porque ainda respiramos. E me assustei. Não por medo de sua sombra ou pelo toque de suas penas, nem pelo vazio deixado por quem nunca esteve ao meu lado, mas por perceber o quanto eu também já esqueci de mim mesmo.

quinta-feira, abril 08, 2010

Queria

Queria. Que houvessem grandes significados, questões de importância, consequências últimas e cenas poéticas como garotas de cabelo colorido, rãs alaranjadas, escaravelhos, lagos com carpas, e tons de fotografia polaroide alterados pelo tempo. Ou então coisas de avós, porque coisas de avós são sempre histórias legais de se ouvir, pois guardam um sentimento nostálgico de um tempo bom.

Queria, ou talvez nunca tenha querido, porque eu nunca soube e você talvez nunca saiba, quiçá a única importância disso seja o excesso de importância que todo mundo dá. Tudo muito freudiano e problemático como tudo aquilo em que se mete muita gente. Logo, farei como o homem que começou a escrever depois de morto e te direi sobre o passado que a verdade aqui é o que menos importa.

Não há história, só estória, desde o começo.
Significados fugidios,
importâncias ocultas,
inconsequências últimas
e poesias dissecadas.
"you see is all here, you are meant to be here, from the beggining..."

Até hoje nenhum momento foi tão prolífico quanto a calada da noite. Enquanto todos dormem, no silêncio de si e do outro eu me perco e me encontro. Ainda que para tocar o outro, faz-se necessário um certo conforto e um certo espaço. Pode chamar de timidez se quiser, mas as minhas ideias são muito voláteis, juntam-se como turbas ensandecidas, mas fogem ao ouvir o menor estalo. Um amigo costumava me dizer que era tudo uma questão de gravidade, com a qual as boas ideias precisam romper a fim de se lançarem da orbita ao redor das nossas cabeças para o mundo.

No fim das contas não sei dizer qual a finalidade disso tudo, embora o tempo traga sentido às coisas é difícil prever a objetividade de toda essa volatilidade. Hoje é tudo tão frágil, tão descartável, tão fragmentado que a mim já não é mais possível dizer se somos aqueles que veem as sombras de dentro da caverna ou se somos as sombras que observam a caverna de fora. Talvez por isso eu pinte, para que outros possam ver através da minha pintura algo que está além da realidade das uvas de Zeuxis.

terça-feira, março 16, 2010

O Tigre da Tasmânia

Dizem que recordar é passar novamente pelo coração, mas a memória tem algo de volátil e de traiçoeira, tal qual a víbora que desvanece tão repentinamente quanto surge antes do bote. Pode parecer uma afirmação falsa, mas é fato que não sou capaz de me recordar da minha primeira experiência artística significativa. Lembro de muitas coisas, das cores nas latas de tinta, do silêncio e da escuridão do laboratório fotográfico, das mesas de desenho e de pessoas que passaram por elas; mas sobre tudo me lembro da mistura peculiar de cheiros que iam da serragem na carpintaria aos periódicos sobre as mesas do escritório passando pelo cheiro das emulsões, thiner, poeira, películas e das pessoas que davam vida à fábrica. Os dias eram longos, repletos de contradições e curiosidades. De certo não era arte, mas ela estava impregnada por lá em todos os cantos e espaços, entrava pelos poros e morria na boca. E quando terminava deixava um sabor estranho de algo que é o que não é e não é o que é.
Devaneio, uma garota ao telefone rabisca dezenas de caixas num pedaço de papel, outra quebra uma folha em centenas de triângulos cuidadosamente coloridos. No museu de arte, um garoto brinca com uma estátua da maneira que garotos brincam para constranger aos adultos. Em um quarto mal iluminado uma gaveta transborda lápis, réguas, tintas e decalques. Um prédio se sustenta no ar por quatro pernas que ainda não eram vermelhas. Eu não sei como foi porque eu não estava lá, era outro, lá no principio, onde a linguagem se insinuou antes da mensagem. Carregada de um hálito embriagante, inexorável, sedutor, proibido, implacável.