sexta-feira, janeiro 21, 2005

Uma nova tentativa de vencer o nó na garganta

Já faz algum tempo que a minha produção de textos diminuiu e ela tem minguado cada vez mais. Tenho muitas coisas para dizer, mas todas elas parecem não vencer o nó na minha garganta e vir a conhecer a luz do dia.
Não estou bem, de fato, nunca estive, nasci assim, uma daquelas pessoas inconformadas com o mundo. Em uma conversa com um bom professor a minha guarda foi aberta por apenas três perguntas que me mostraram o quanto somos parecidos. Fiquei feliz e triste por isso, feliz por saber que eu não sou o único a tentar atravessar a correnteza a nado, ele tem feito em um certo aspecto, e isso foi o que me deixou triste. Mostrei a ele o inconformado que sou e ele me perguntou se eu achava isso ruim. Eu respondi que não, existe algo muito bom em ser inconformado, a constante busca pelo aperfeiçoamento. Mas também há algo muito complicado a respeito, esta é uma busca sem fim e as pessoas se cansam disso.
Na verdade tudo se trata sobre isso, pessoas. Quando eu canso, fico meio deprimido, mas continuo seguindo por essa estrada, eu sou assim e para mim não existe outra escolha, outra forma de ser. Porém as pessoas cansam, as outras pessoas. É difícil para as pessoas lidarem umas com as outras quando alguns de seus limites vão muito além dos limites alheios. Talvez seja essa uma das coisas que eu tanto gosto em Batman e talvez seja isso o que eu tenha amado ao assistir Alexandre.
Eu tenho um bom amigo muito semelhante a mim, dentre as nossas poucas diferenças figuram apenas que ele é muito mais inteligente do que eu e que ele já chegou bem mais perto da sua “massa crítica”. Além disso, a nossa maior diferença está na forma como encaramos esta questão, na forma como escolhemos viver (e também meu professor). A maior questão sobre essa natureza é o isolamento. Uma hora você vê que as pessoas não estarão ali para sempre, que elas talvez não cheguem ao próximo verão. Você vê que as pessoas com que você conta um dia, no outro vão embora, passam a te odiar, mudam completamente. E a culpa é de quem? Sua por ter uma personalidade forte e limites muito amplos? Das pessoas por serem limitadas e não saberem simplesmente dizer não? Dos dois talvez. Mas uma hora você se dá conta o quanto as pessoas são voláteis e o quanto elas podem ser insípidas. E então você tem que escolher entre ignorar as suas asas ou esquecer as pessoas. Não dá para levar as duas coisas juntas, uma hora alguém sempre se machuca. Então o que você faz? Passa a viver só mesmo sabendo que uma hora isso acabará com você porque ninguém consegue viver absolutamente sozinho? Porque isso envenena, enlouquece. Ou vai contra você mesmo, adota uma vida medíocre (segundo os seus parâmetros) e ignora a si mesmo?
Não sei o que fazer. É uma “escolha de Sofia” e no final você sabe nem um dos caminhos irá trazer felicidade.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Momentos de histeria!

Depois de muitos e muitos anos tentando lembrar quais foram os dois primeiros animes que assisti na minha vida (e que provavelmente geraram toda a minha identificação com a cultura japonesa, junto a meu antigo sensei de judô com ares de Pai Mei). Hoje, ao entrar no www.omelete.com.br encontrei uma matéria gigante sobre um deles (e graças ao hipertexto sobre o outro também)! Fiquei surpreso ao notar como um deles era tosco (ei! Eu tinha só 5 anos ta! Tinha o direito!) e feliz de relembrar os meus divertidos finais de tarde após a escola. Um deles (por acaso o tosco...rs) foi na época o que me levou a ter a minha primeira namoradinha... Acho que vem daí a minha inclinação para mulheres inteligentes, desde pequeno eu começava os meus namoros por afinidades intelectuais. Eram dias felizes aqueles... Então, espero fazer a felicidade de outros que como eu passavam as tardes loucos por mais um episódio e que a nostalgia possa dar um sorriso a vocês também. Seguem os links para as matérias:

Patrulha estelar, (originalmente Encouraçado Espacial Yamato - Uchuu Senkan Yamato):
http://www.omelete.com.br/tv/artigos/base_para_artigos.asp?artigo=2409
Pirata do Espaço
http://www.omelete.com.br/tv/artigos/base_para_news.asp?artigo=1559

Outras conclusões:

Sabe, pensando em Deus como o grande roteirista universal, não deixo de achar tudo isso um recurso melodramático. Muito simples, depois de perder um ano de faculdade corri atrás do tempo perdido no ano passado, mas as circunstâncias não foram propícias, faltou tempo para estudar (e ainda falta). Consegui resolver grande parte dos problemas em relação a minha habilitação em língua portuguesa, mas não posso dizer o mesmo da minha segunda habilitação, língua japonesa. Estou em vias de fazer a prova de recuperação de Língua Japonesa 2 com poucas expectativas de sucesso e conseqüentemente estou preste a trancar a minha segunda habilitação. Muito triste, mas praticamente inevitável. Mesmo que eu passe para o próximo semestre, não terei condições de acompanhar o curso e não dá para admitir que isso atrapalhe a minha outra habilitação. Como pretendo investir na carreira acadêmica em literatura brasileira, o japonês ficou meio supérfluo. É claro que estou aborrecido com isso, gosto de desafios e esse foi um que não consegui levar. Mas não é de todo mal, vou poder concentrar os meus estudos e terminar a faculdade antes, o que não me impede de estudar japonês por conta. Tenho pelo menos dois anos de faculdade ainda pela frente já que estou um ano atrasado e, mais certo do que isso, sei que esta com certeza não será a minha única faculdade.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Kill Bill - Volume 1

Resenha singela mas de cunho próprio... O DVD sai em pré-venda amanhã.

O quarto filme de Quentin Tarantino chega arrasando como um dos marcos do cinema contemporâneo. Kill Bill presta uma grande homenagem aos filmes de Kung-fu das décadas de 60 e 70, seus atores e estilos. Dirigido com exímia presteza, a obra foi delicadamente produzida o que dá ao expectador um deleite frente às diversas mudanças de sensibilidade do filme, cenas em preto e branco, seqüências, sombras, ângulos de câmera e intertextualidade com outras mídias como o trecho do filme feito em anime e a sensacional trilha sonora que se tornou um dos deliciosos hábitos viciantes dos filmes de Tarantino. O primeiro volume do filme narra o início da vingança da ex-assassina Black Mamba (cujo nome real só nos é revelado ao final do segundo filme). Ao acordar do coma, Black Mamba percebe que foi a única sobrevivente do extermínio ocorrido no dia de seu casamento e que levara as vidas de todos a quem amava, inclusive do filho que levava no ventre. Ela começa então uma caçada impiedosa aos assassinos, seus ex-companheiros do esquadrão de assassinato Deadly Viper. Mas Kill Bill não é apenas um filme sobre sangue e assassinato, ao final do primeiro volume ficamos desesperados para assistir sua continuação e obter a resposta para sua maior pergunta: Até onde somos capazes de ir quando o amor se transforma em raiva?

segunda-feira, janeiro 10, 2005

O fantasma do ano novo

É um hábito comum passar o natal sempre com a família, mas o ano novo... Ah... O ano novo sempre reserva diversas possibilidades novas: viagens, baladas, amigos e diversão. O final daquele ano em particular não prometia muito. Juliana iria para a casa de algumas pessoas que julgava conhecer muito bem, apesar da verdade ser exatamente o contrário, e acreditava realmente que iria se divertir muito. Ledo engano. Ao chegar sentiu-se imediatamente incomodada frente a todas aquelas pessoas estranhas com seus hábitos desagradáveis acomodadas pelos cantos da casa suja e empoeirada. Alguns bêbados, outros drogados e outros ainda com um cheiro nauseante. Poucos rostos lhe eram familiares, o de seu namorado, Alan, o da dona da casa, Joana, e o de mais duas ou três outras pessoas. Sentia-se muito sozinha, principalmente porque queria passar algum tempo a sós com o seu namorado. Enquanto ele conversava e se divertia do lado de fora da casa ela conversava no quarto mais limpo que encontrou com as poucas pessoas que a agradaram, uma delas era Leandro, um divertido ruivo que estava de cama e que a fazia rir. Mas não foi o bastante, a solidão continuava a devorá-la por dentro e as decepções acabaram por deixá-la cada vez mais triste. Foi então que oportunamente seu celular tocou. Agora, enquanto recordava, um desejo auto-destrutivo dizia a ela que talvez devesse ter ficado lá se enganando, mesmo sabendo que faria a escolha mais sensata para aquele momento. Era Flavia, uma tímida amiga sua a quem não via há um longo tempo convidando-a para cear em sua casa. Em dúvida chamou Alan e depois de uma discussão de poucos minutos acreditava não estar trocando o certo pelo duvidoso. Despediu-se de todos dizendo que voltaria no dia seguinte, arrumou suas coisas e seguiu para casa de Flavia junto à lua nascente, deixando até mesmo Alan para trás. Na casa de Flávia, o jantar transcorrera com tranqüilidade. Estavam apenas Flávia, seu marido Renan, a namorada do irmão de Renan, Julia, e um amigo do casal, Marcelo. Pouco tempo depois da ceia Flavia e Renan decidiram parar de brigar contra o sono e resolveram ir dormir deixando Juliana, Marcelo e Julia conversando na sala. Juliana se sentia atraída por Marcelo, ele era muito bonito, inteligente e tinha um sorriso encantador. Ficaram lá os três conversando e só então Juliana notou como Julia se parecia com ela, no formato do rosto, no corte de cabelo e no jeito de falar. Falavam sobre os filmes que gostavam e os cinemas que costumavam ir. Julia falava sobre quando ia ao cinema com seu namorado, sobre o quanto o amava e sobre a saudade dele que estava viajando. As horas passavam e Juliana ficava mais e mais intrigada. No começo os três conversavam falando igualmente, mas enquanto a lua atravessava o céu Juliana ia ficando cada vez mais impressionada e silente. A conversa seguiu noite à dentro entre livros e peças de teatro e muitas vezes Julia interrompia Juliana para dizer algo a Marcelo. Eram as palavras de Juliana e até seus pensamentos vindo à luz na boca de Julia. Eram muito parecidas. Há até quem pudesse dizer que eram irmãs, tamanha a semelhança que a conversa salientava como a água do rio a carregar do leito a terra e expor o cascalho. A lua figurava com um brilho sinistro no céu e Juliana começara a se questionar se deveria ter vindo. Julia falava a Marcelo com paixão deixando Juliana estarrecida. Elas eram parecidas em tudo das roupas e pensamentos aos desejos e sentimentos mais íntimos. Certa hora, enquanto Julia ajeitava o cabelo Juliana notou que possuíam até as mesmas duas pintas do lado esquerdo do peito. Julia era Juliana. E Juliana, terrificada, era um espelho da mulher que flertava com Marcelo a sua frente como se fosse ela mesma; nada era capaz de provar o contrário. As luzes forma se tornando quentes e a escuridão tomou conta de tudo. Juliana tomara consciência da pergunta ribombando em seu cérebro. Se Julia era Juliana... quem era ela? Apenas ela ouviu o baque surdo do corpo indo de encontro ao chão e o estalo ardente do beijo entre o casal na sala.

O Medo – Coletânea de idéias dispersas, realidades fictícias e afins.

Só o medo pode explicar o que acontece, observe, digo explicar e não justificar. Uma amiga minha diz que tenho o habito de encontrar justificativas para tudo, principalmente para as mancadas que os outros dão para comigo. Não importa, certas coisas não passam de um reflexo de nós mesmos, o que nos torna não tão inocentes assim, o respeito é uma delas. Pois bem, eu falava do medo, e o que é o medo na verdade senão uma tentativa de simplificar as coisas. Sentimentos absolutos dificilmente são contestados e quando contestados trazem mudanças e marcas. Mas façamos de conta por hoje... Façamos como a nossa psique e acreditemos ingenuamente no “espaço angelical” e na simplicidade das coisas, além disso, brinquemos um pouco de Hitchcock.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Conto de Natal

18:20, eu havia saído da casa dela, um pouco constrangido e um pouco consternado. Não é todo dia que você entrega um presente de aniversário, ainda que atrasado, e fica com a impressão de que a pessoa olhava através de você. Sei lá, ela deveria ter seus motivos, os quais não cabem a este ensaio. O fato é que faltavam quase seis horas para a ceia de natal e eu não estava nem um pouco a fim de voltar para casa. A idéia que vinha crescendo há algumas horas na minha mente agora tomava forma. Um bate-e-volta em Santos. Praticidades de quem tem uma moto, não paga pedágio e gasta uns R$12,00 em combustível para ir e voltar. Lá fui eu seguindo estrada adentro com o sol já baixo. Com sorte, ainda conseguiria assistir ao sol se pondo no mar.Sempre venta muito na descida da serra, mas, no dia, até que estava tranqüilo. Poucos veículos, nenhum caminhão, apenas eu, Valentyne e o asfalto, ocasionalmente acompanhados por meia-dúzia de carros. No começo da “Nova Imigrantes” o sol resolveu esconder-se atrás das nuvens e uma neblina espessa tomou conta da estrada. Neblina de verdade e muita, eu enxergava apenas as luzes de freio do carro à frente perdidas no meio do branco e o chão imediatamente abaixo da roda dianteira até 3 ou 4 metros à frente. Alguns pensamentos bizarros surgiram “literalmente” do nada: “é só seguir em direção às luzes, as duas vermelhas quadradinhas, não a branca gigantesca à direita no final do túnel”. A neblina causa uma sensação estranha, como se Deus passasse uma borracha no mundo, mas essa impressão durou pouco, pois logo eu entrei no túnel (o da estrada, não o da luz) ignorando a existência de neblina ou vento e rapidamente alcançando a Baixada Santista. Uma vez em Santos, demorei apenas para alcançar a praia, chegando lá no exato momento em que o sol entrega-se para morrer nos braços do mar, numa diversidade de tons que apenas o oceano é capaz de pintar de encontro ao firmamento. Minha empreitada não poderia ter sido melhor, voar pela estrada livre para caçar um pôr do sol. Regozijado pelo momento único, aproveitei para visitar alguns parentes, o que fez com que partisse de lá apenas 23:20. Apesar da hospitalidade, não resisti, voltei àquela hora mesmo, pois havia combinado de encontrar com meus poucos amigos próximos após a ceia e abrir um bom Cabernet Sauvignon. Mas nem imaginava que o meu intento seria frustrado e que não encontraria ninguém quando chegasse em São Paulo. Enfim, foi então, durante a volta, que aconteceu o extraordinário. A estrada estava deserta, como era de se esperar, estendendo seu veludo negro sob meus pés, um silêncio tranqüilo e um céu estrelado. Eu deslizava noite adentro praticamente só e meus pensamentos pareciam falar em voz muito alta. No final da planície litorânea a única estrada disponível para a volta era a Anchieta, eu nunca havia subido a serra por ela que é mais tortuosa e utilizada para transporte de cargas, mas a estrada estava tranqüila e não havia outra opção. Eu já disse que a estrada estava tranqüila? Pois é, estava tranqüila... tranqüila até demais e foi em meio a toda essa tranqüilidade que avistei meia dúzia de carros subindo juntos atrás de uma viatura com as luzes apagadas, provavelmente um carro da polícia ou da empresa concessionária da estrada, estavam a uma velocidade razoável e pareciam conhecer bem a estrada. Decidi me embrenhar junto a eles e fui subindo com calma, em segurança na estrada vazia com uma certa paz de espírito. Foi bem melhor do que enfrentar aquele breu absoluto, já que as lanternas dos carros aumentavam a luminosidade da estrada e espantavam aquela escuridão quase sobrenatural. Chegando na divisa de município com São Bernardo, no ponto onde a Anchieta retorna a Imigrantes depois da serra, todos os carros haviam me ultrapassado e enfileirado a minha direita, sendo que o último da fila começou a sinalizar com a seta e com o braço para que eu ultrapassasse. Achando tudo muito estranho vim para a pista da esquerda e acelerei ultrapassando a fila toda, inclusive a viatura... do serviço funerário municipal.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Meninos não choram.

Meninos não choram. Não sei bem porque, mas meninos não choram. Não cai bem. Coisa de frouxo diriam uns e outros, coisa de mulher... meninos não choram. Não importa, mesmo que estejam sozinhos, meninos não choram. Mesmo que se sintam magoados, meninos não choram. Mesmo quando desenganados, meninos não choram.
Não há motivo que justifique o choro. Devem ser duros, ásperos, não devem ter lágrimas. Lágrimas molham, amolecem. Lágrimas são piegas, tem sentimentos demais. Meninos não devem sentir nem amolecer, meninos devem ser duros como pedra. E pedras? Pedras não choram. Pedras são brutas, sedutoras, eternas, pontiagudas, mas pedras... não choram. Que confiança há em quem chora? Quem chora precisa ser acalentado, protegido, quem chora precisa de colo. Meninos não, meninos devem ser bravos e varonis o tempo todo, ou então, simplesmente não são. E não ser... é pior que não chorar.
Mesmo que percam um amigo dito valoroso, meninos não choram, a eles não é permitido este tipo de amizade, devem sim ser camaradas, mas a intimidade carrega sempre uma mácula, retira sempre um pouco do brio. A amizade é sempre maldita como a de Arthur e Galahard. Mesmo que percam alguém de quem gostem muito, meninos não choram, pois não são eles quem perdem, meninos sim são perdidos. Mesmo que se percam pela vida, meninos não choram, meninos não se perdem, figuram à proa do navio apontando o caminho tal qual o astrolábio.
Meninos devem ser algozes, alentejos, carnífices, severos. Meninos devem estar prontos para o sacrifício, mesmo que seja por alguém que não queira, mesmo que seja por alguém que não mereça, e não devem de maneira alguma demonstrar seu interior ou velam como o filme fotográfico, tornam-se inúteis, perdem o valor.
Meninos não choram, mesmo que percam seu maior companheiro de muitos e muitos anos, seu fiel amigo de 18 anos, em uma manhã fria e chuvosa no primeiro dia de um verão. Aquele que sempre lhe saudara e sempre lhe acolhera sem nunca se importar se meninos devem ou não chorar. Ah amigo, como lhe dizer adeus depois de tantos e tantos anos? Tantas corridas e tantas caminhadas? Tantos afagos e tantos carinhos? Pago lhe hoje meu último favor, não um favor, pois é antes meu dever. Pago-lhe hoje as moedas para o Caronte e desejo um dia lhe reencontrar junto aos Deuses. Boa viagem em sua derradeira caminhada.
Adeus amigo, adeus.

Semi-existência

Escrito ontem pela manhã.

Batidas descompassadas, coração acelerado, falta fôlego, água, frio, incômodo. Estou na cama. Viro de um lado para outro, quase me debato, não encontro posição confortável. Ora um calor insuportável, ora um frio desagradável e ninguém a meu lado. Meu corpo dói. Meu cérebro pulsa, resiste a acordar, não quer voltar a dormir. Permaneço prostrado, cansado, vazio, desalentado e com um sono insuportável. Levanto de súbito, me visto tão rápido que não entendo como. Silêncio. Todos foram embora. Que estou fazendo eu sozinho? Não me lembro do meu nome, olho no espelho e não me reconheço. Na mesa permanece o desjejum, frio já há algum tempo. Bebo leite. Olho em volta, uma brisa gelada constante arrepia a pele. Saio à rua e os olhos passam por mim sem me notar, olhos vazios, esbranquiçados, olhos de mortos. Vez que outra um olhar parece me acompanhar, parece me reconhecer, depois desiste, ignora-me. Não sei, parece que sou outro, torto, não valho a pena, e meus olhos talvez sejam de um morto, ou estejam se tornando. Desisto, vou trabalhar. O sono me devora, não consigo acompanhar as letras no monitor, para onde elas foram? Fugiram, correram pela sala. Fico perseguindo as letras, os olhos, o sono. Numa sala vazia, sempre vazia, onde os anos passam e eu envelheço mais e mais sozinho. Mas nunca morro. Talvez já esteja morto a algum tempo e por isso não viva. Aparentemente voltei a acordar, olho ao redor desconfiado, um mosquito disputa a minha atenção com o monitor. Parece que ele consegue me ver, desvia dos meus movimentos. Fico imaginando se o mesmo acontece com as pessoas, se não vou passar através delas e sentir muito frio. É impossível explicar, é ilógico, é tortuoso. Começo a falar e percebo que converso sozinho, do outro lado do tabuleiro de xadrez não há ninguém. Chá para dois, três, seis, mas uma xícara só se esvazia em quanto as outras esfriam. Meu coração dói e eu não consigo saber por que, não há o que eu faça, não há o que eu fale nem o que escreva nem o que grite. Os dias vão perdendo as cores e as rosas secam no armário.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Entre a sobrancelha e o olho

Deitado na varanda à sombra dos arbustos repousava em uma rede um homem admoestado pelo sono insistente. O tempo quente das tardes de verão deixava tudo vagaroso. A brisa às vezes acariciava o corpo, refrescava e balançava a rede. O cheiro de frutas invadia a casa vindo do pomar, os gatos dormiam sob o sol, tudo compunha um quadro. Do seu lado esquerdo, em uma pequena mesa redonda, branca, repousava um copo de limonada com gelo e um livro, “A queda que as mulheres têm para os tolos”, uma excelente tradução de um autor francês desconhecido feita pelo senhor Machado de Assis. Uma cigarra chiava ao longe fazendo lembrar o cheiro de mato dos dias de infância e o riso dos primos. O sol escapava por minúsculos espaços entre as folhas das árvores para furar a sombra, lamber-lhe o colo e iluminar a pequena pinta que residia só entre a sobrancelha e o olho. Espreguiçou-se e virou de lado expondo o torso nu, o sono vinha gostoso e os sonhos, doces como néctar, regados num desejo de ouvir Djavan. Ah... vontade de poesia que rola no corpo, na sensação de toque leve na pele e no cheiro de calêndula. Dentes de Leão voando pelo ar, escalando o céu claro até as nuvens brancas que dançam no cerúleo refletidas na íris e na pupila dilatada, pegadia, perdida.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Não Leia.

Às vezes quando estou só algumas idéias vem me visitar em asas de mariposas e se queimam na lâmpada inúmeras vezes até caírem mortas no chão. Outras vivem escavando o solo e devorando a terra fazendo cócegas na minha mente. Algumas vêm e outras vão depois de um tempo. Às vezes estas idéias ficam, esperando maturação, às vezes elas morrem sem terem conhecido a luz do dia. Outras surgem devorando a estas idéias como surgem os vermes que devoram cadáveres. Hoje apenas não há como falar. É falar sobre o nada, tentar relacionar ecos, ametistas, vinagre e vestidos vermelhos, como relacionar olhares, madeira e desespero. É imiscuir água em óleo, derreter areia com gelo. Às vezes não há como falar. Aqui sou senhor do absoluto, monarca supremo do meu reino. Aqui minha palavra é a ordem e estabelece a história, mas hoje, hoje não há histórias para serem contadas. No princípio era o verbo, e depois, o silêncio. Como poderia deixar-me seduzir pelo silêncio e fazê-lo abater-se sobre todas as coisas? Delírios apoteóticos de uma mente lúgubre, insana e insalubre. O dia de hoje simplesmente não aconteceu. E no sétimo dia? Ele não descansou? Não. Estava farto por demais, enrolou, chorou, padeceu, riu e visitou a loucura.
Blasfêmia, eu disse: "Não leia." e a propósito, não quer ler, não venha.

terça-feira, novembro 30, 2004

É engano...

Existe algo mais deprimente do que uma ligação enganada no celular? Você atende e o cara do outro lado pergunta quem está falando, como se ele não soubesse para quem ele ligou. Tudo bem, até entendo, de repente a pessoa deixou o celular dele na bolsa da namorada, ou estava longe e alguém atendeu por que ele pediu (ou não... vai saber), mas de modo geral as pessoas costumam atender a seus próprios telefones. Então você pergunta para o cara com quem ele quer falar, geralmente essa é a pior parte, chovem nomes esdrúxulos, títulos bizarros, dicções tortas e insistências estúpidas. “Queria falar como o Ministro Caetano”, “O Evérclaidísson está?” (como se as pessoas pregassem seus celulares na parede, o que me lembra da história da empresa que mandou fixar os lap-tops dos executivos às mesas porque não queriam que eles levassem os respectivos em viagens ou algo do gênero).
_ aáà luidiisjns esk?
_Eim?
_ ``AÀ`´a luidiisjns!
_Eim?
_LUIDIISJNS!
Você para, pensa, não consegue se decidir se desliga na cara ou manda tirar o p... da boca. Desliga porque é educado. A pessoa liga de novo e ainda acha que pode ficar puta porque você está enganando ela! Mas acreditar realmente que deram a ela o numero errado... isso não, nunca. O processo se repete pela próxima hora e, a partir do dia seguinte, em dias alternados. Afinal, todo mundo sabe que os celulares saem à noite para cantar no muro do quintal e se reproduzir (de onde você imaginou que vinham os celulares? Não vai me dizer que também acredita em cegonha...) e nesse processo às vezes voltam para a casa errada, mas um dia eles voltam. Isso tudo quando a pessoa não começa a perguntar de onde fala, ou quando acha que você é o(a) amante da esposa(o) e começa a te perturbar a vida. Maldita baixa estima...
Mas passando os constrangimentos sociais diretos, você sempre tem os sociais indiretos e os psicológicos. Os sociais indiretos geralmente são relativos à oportunidade, isso sempre costuma ocorrer nas horas mais constrangedoras possíveis. No dia em que você esqueceu de desligar o celular no motel, quando você está chegando atrasado no serviço (mais precisamente no exato momento em que você está passando discretamente pela sala do seu chefe), no banheiro, no cinema, quando você finalmente conseguiu dormir depois de vários dias, ou pior, quando a sua namorada com uma cólica desgraçada e aquela TPM insuportável conseguiu. Mas ainda acho que os piores efeitos de todos são os psicológicos: Quando se está esperando resposta a uma entrevista de emprego, quando se está esperando uma ligação daquela pessoa especial, ou quando você brigou com o seu melhor amigo ou com a namorada. É horrível. E se é tão horrível hoje, imagine quando as pessoas usavam pombos correio...

quinta-feira, novembro 25, 2004

Lazward

Depois de alguns dias de chuva, acordei com a pele levemente arrepiada pelo frio das últimas horas da manhã, olhei para o céu e percebi, um tanto incrédulo, que o tempo abrira. O céu estava tão profundo que eu não me lembrava que ele era desta cor.
Alguma vez já disse o quanto gosto dela? Naquele dia algumas nuvens passeavam pelo cerúleo, adornando a abobada celeste, contrastando com o fundo da tela de algum Deus, tela essa que invejo absolutamente todas as vezes que percebo quão profundos e belos são os tons de seus pigmentos. Tento me lembrar de quantas vezes me roubou os pensamentos, como quando mergulhei entre as pedras e os cardumes de Ilha Bela, como quando estava à beira do mar das praias do sul, dos céus que me roubaram a paz, dos olhos de safira que me roubaram à fala... dos poucos olhos que me invadiram violentamente a alma. “Acho que são olhos de mar na ressaca... Aquele mar que vem e me arrasta e me puxa para dentro de você”. Lembro-me igualmente dos tons ultramarinos que tingiram as coisas na calada da noite quando a luz a muito se fôra e da cor daquela manhã em especial. Há quanto tempo foi? Já não me lembro mais ou minto muito bem para mim mesmo. Foi a melhor de todas as noites em meio àqueles dias turbulentos, a calmaria no olho da tempestade. Era quase como se eu pudesse ouvir o som das ondas que me levavam entre o mar e a praia. Era o sonho de Ícaro.

Azul, do persa Lazward. Adj. 1. Da cor do céu sem nuvens com o Sol alto; da cor do mar fundo em dia claro; da cor da safira. S.m. 2. A cor azul em todas as suas gradações. 3. O céu, os ares, o firmamento: Voam pássaros pelo azul em fora.

segunda-feira, novembro 22, 2004

Problemas com seus empregados?

Seus trabalhadores são muito onerosos? Cansado de enfrentar greves? Você não agüenta mais receber aquele barbudo devorador de charutos do sindicato?
Um novo trabalhador-conceito irá mudar para sempre a rotina de sua empresa! Desenvolvidos sob condições extremas em laboratórios subterrâneos no Laos, trazemos para vocês os Fabulosos Estagiários Anões TM, Chuin!!!! (Som de Brilho de Robô Gigante de Seriado Japonês). Os únicos estagiários de alto desempenho, performance dinâmica e baixo custo que ocupam menos de um metro cúbico! Ensinados, os Fabulosos Estagiários Anões TM, Chuin!!!! possuem habilidades inigualáveis e são capazes de realizar tarefas únicas como piking, paking, textos, petit gateau e muito mais! São capazes de amarrar os próprios cadarços, precisam de pouca luz, pouca comida, pouca água e pouco carinho, mas são capazes de trabalhar por extensos períodos em qualquer condição físico-geológico-psico-climato-sociológicas! Mas espere, não peça os seus Fabulosos Estagiários Anões TM, Chuin!!!! ainda porque nas compras acima de cinco unidades você ainda leva uma prática caixinha de areia que irá manter os seus Fabulosos Estagiários Anões TM, Chuin!!!! limpos e asseados.

terça-feira, novembro 09, 2004

Chove lá fora

Como estou em época de provas e até as tampas de trabalho decidi publicar um ensaio já um pouco antigo para vocês se divertirem, não o havia publicado até hoje porque queria aumentar um pouco o tamanho, divirtam-se:

A meia luz banhava o quarto escondendo segredos entre as sombras dos móveis. Uma vela acesa em um canto bruxuleava levemente. Os movimentos eram sutis. Um mundo em tons alaranjados expunha corpos que eram calmamente despidos de suas vergonhas. Um sorriso de pin-up, uma boca carmim, lindas pintas e grandes olhos ocupavam meus pensamentos. A leveza de um toque e a voluptuosa vontade estabeleciam a excitação entre dois amantes a disputar um jogo. Sedução. Do latim seductione, substantivo feminino 1. Ato ou efeito de seduzir ou ser seduzido. 2. Qualidade de sedutor. 3 . Atração, encanto, fascínio. A alça de sua blusa caiu expondo sua pele clara, um dos ombros e a saboneteira. Os movimentos da chama aumentavam e em algum lugar raios choviam na terra. O fôlego faltava. A chama aumentava. O calor crescia. Um instante de resistência fazia os corações acelerarem dilatando suas pupilas ao máximo, arrepiando suas peles até o encontro de seus toques. Um clarão iluminou o mundo e a chuva caia forte em tons azulados lá fora.

sexta-feira, novembro 05, 2004

Sexta-feira, mais um dia de posts extranhos...

Tá, as crônicas não tem surtido muitos comentários nem visitas, isso me desanimou um pouco com relação à minha produção para o Projeto Nascente, mas tudo bem. Acho que poderia ter trabalhado um pouco melhor o último texto, tinha várias idéias legais, mas faltou tempo para variar. Então por hoje vou me ater aos comentários da semana.

Mulheres, mulheres, mulheres.
Ainda vou ficar louco, o tempo melhora e as garotas aqui do trabalho desfilam com cada vestido que me deixam insano... Não sei se já falei alguma vez sobre o quão sexy eu acho uma mulher de vestido, saia, mini-saia... Pernas, ahh... posso dizer com algum orgulho que compartilho de uma das opiniões do Drummond... rs. E existe algo mais sensual do que uma garota inteligente e bonita com um vestido leve, cabelos soltos, mostrando de leve os ombros e as pernas claras, inebriando os sentidos com o seu cheiro e um sorriso lindo nos lábios? A tradição clama por mim, dezenas de poetas que sob esse céu estariam tomando sua cerveja a beira do mar, escrevendo, discutindo e observando a essas beldades. Mas só observando... São todas livre, muitas comprometidas e eu aqui passo só vontade, tenho tanto com o que me preocupar, tanto a estudar, e montanhas de trabalho... O jeito é ligar o meu disc-man e ouvir novamente “Love in a Elevator” do Aerosmith.

Cores.
Hoje o escritório está despido do cinza habitual, centenas de bexigas coloridas enfeitam cada monitor da sala em comemoração ao aniversário da empresa. O efeito é delicioso, somado ao fato da semana estar chegando ao fim, todos trabalham um pouco mais felizes. Muitos preferiam que a comida do refeitório fosse boa só por hoje. Eu particularmente olho para as minhas bexigas laranjas e penso que de tão belas provavelmente devam ter um gosto melhor do que o arroz cru, o pirão azedo e o peixe de que tentei fugir inutilmente ontem. Acho que estou emagrecendo, depois da viagem não tenho mais dinheiro para comer comida de verdade. Minhas refeições matinais sempre foram parcas, meu almoço agora tem sido repetidamente folhas amarelas e pedaços de beterraba e o jantar, que já estava restrito a um ou dois salgados na faculdade, agora já não existe mais. Estou pensando em arrumar um fogareiro à álcool e trazer marmita, ou cozinhar aqui, mas para um não tenho espaço na mochila e para o outro não acho que o RH vá gostar. Mas é bom olhar ao redor e ver alguma cor diferente, já que não tenho uma janela para olhar o céu lá fora e ainda não pintei a minha paisagem para colar aqui dentro. Se eu não tivesse uma prova na segunda, talvez a pintasse hoje, ou durante o final de semana. O engraçado é ler o texto enviado pelo diretor da empresa que diz que a força e o valor da empresa reside aqui em seus funcionários e saber que existe uma comissão de corte de custos do refeitório que já não serve comida. É nisso que dá um canceriano sarcástico escrevendo com fome antes do almoço...

quinta-feira, novembro 04, 2004

O dia dos mortos

Ao se levantar, logo pela manhã, seus olhos teimavam em ficar fechados. O corpo jazia semi-inerte enrolado nos lençóis e virava-se vez ou outra procurando um pouco de calor e uma posição confortável. Mas sua consciência não tardou a falar mais alto e mesmo amarrado as necessidades fisiológicas que seu corpo exigia de forma pungente e turbulenta, levantou-se cambaleante e arrastou-se pelo quarto tateando em busca de uma calça. Ontem havia sido o dia de Finados, o dia onde se cultuam os mortos, e ele havia permanecido confinado a sua casa como um defunto em sua cripta. Não foi a falta de opção, nem a falta de vontade, pelo menos não a princípio. Quando pequeno, seus pais costumavam levá-lo até o tumulo dos avós, em uma outra cidade. Avós que não conheceu, mas os visitava habitualmente, se é que os mortos realmente se importam com visitas; certo dia isso lhe fez pensar: _Coisa curiosa. A morte. Vindo de uma família grande e nascido uma geração mais tarde, conheceu vários de seus anciões e teve a oportunidade de voltar à mansão dos mortos diversas vezes. Hoje, lembrava-se daqueles tempos, da necrópole escaldante, do cheiro de crisântemos, das beatas nas vielas e das pontuais chuvas torrenciais no fim de tarde. Sempre chovia. Sempre. Por vezes os velhos lhe contavam histórias e velhas superstições. Neste mesmo instante lembrava-se de uma: diziam que ao olhar para o cemitério a meia noite do dia de finados, você seria capaz de ver a procissão dos mortos saindo de suas covas em direção às casas para visitar os vivos. Pensou pelo dia à fora, sem encontrar a resposta a equação que se impunha lasciva a sua mente. Quem estava de fato morto? Seus avós, que hoje não passavam de um punhado de pó, cabelos e ossos ou ele, que lutava contra os próprios impulsos e necessidades da vida para enfrentar um novo dia de trabalho? De olhos vidrados em frente ao monitor o sono tentava usurpar sua atenção, este há dias o desafiava, mas também negava a ele o descanso. Com o descaso a fome lhe tratava e mesmo as iguarias que mais apreciava não pareciam provocar-lhe o estímulo necessário. Gastou com alguma besteira que comera apenas pelo impulso. Se quer possuía fome. A volúpia parecia jogar o mesmo jogo, mostrando-se em horas impróprias para desvanecer nos momentos onde seria ela oportuna. Durante todo o tempo em que permanecia acordado tinha impressão de ter suas vontades trocadas, queria dormir quando precisava ficar acordado, trabalhar quando devia dormir, rir e conversar quando deveria fazer sexo... Desenhar, ler, estudar, brincar, beijar, deitar na grama, nadar na praia, tudo se misturava em um sincretismo maldito, ameaçador, brincalhão. Espíritos Zombeteiros... Parecia-lhe agora que havia passado para outro lado da vida, parecia agora pertencer ao Senhor dos Esquecimentos. Este vinha se aproximando vagarosamente em uma marcha inexorável. Primeiro se apropriara de suas memórias, depois de seus gostos e agora parecia cobrar sua vida, sentado sobre o computador, estalando os dedos e balançando os pés sobre o monitor, o que produzia um estalido baixo e cadenciado do contato entre o coturno que vestia e o vidro do monitor. Talvez seja isso, talvez seja uma forma de ignorar quem está vivo e quem está morto. Talvez um modo de cultuar a nós mesmos. Jogo perigoso esse, quando pequenos seres se aproximam cobrando coisas grandiosas.

sexta-feira, outubro 29, 2004

O que não deve ser nomeado.

_O que mais lhe assusta? – perguntou o homem no outro canto da sala.
Imersa em sombras e fumaça de cigarro apenas o mostrador do rádio relógio rasgava em verde os tons marrons escuros que cobriam a sala como uma mortalha. Um silêncio mórbido percorreu o ambiente causando a mesma sensação estranha que a friagem causa em nossa pele instantes antes do tempo mudar avassaladoramente. Por vezes, seus pelos arrepiavam-se e todo o ambiente parecia compor um quadro em sua mente, com cores da fase holandesa de Van Gogh. Imagens corriam sua mente e vultos freqüentavam a extensa sala. Uma imagem se formava.
_Certas coisas não devem ser nomeadas. – respondeu o rapaz em voz baixa, esquivo e inquieto.
Uma crença comum é a de que nomes têm poder, saber o nome real de uma coisa pode ser bastante perigoso. O rapaz tentou explicar entre palavras vacilantes. Falou ao homem sobre uma certa crença Haitiana, rituais de morte e os pesquisadores que tentaram estudá-la, falou também sobre o poder de se acreditar em algo. Logo suas palavras sumiram em meio a fumaça.
_Por que me perguntou isso? – o temor começara a se transformar em raiva.
O homem não soube responder, por mais preparado que estivesse a força nas palavras do rapaz lhe açoitaram o peito, o ar faltara e suas próprias palavras não conseguiam romper o som do silêncio. O homem percebeu que acordara demônios que permaneciam há muito adormecidos, demônios que não deveriam ser acordados sob hipótese alguma. Na verdade, o que ele não sabia é que este demônio voltara a rondar pouco tempo antes e possuía sim um nome.
A sensação de estar com o abdômen preso por faixas sujas, levemente ensangüentadas, encurtando-lhe a respiração, em um quarto semi-destruido, imerso na sombra, ao súbito e esperado zunido de um letreiro de néon vermelho refletindo nos respingos que a chuva colocara na janela; somada a impressão de uma mão em forma de garra, feita de acúleos de rosas, com seu caule já há muito seco, espremendo o seu coração a cada batida, como que fazendo-o bombear o mesmo sangue que escorre por entre os longos dedos desta mesma mão sob o odor característico de madeira podre. Pavor é o nome.
O homem afrouxou a gravata e soltou o primeiro botão da camisa, uma atitude nada convencional, pouco profissional em sua própria opinião. Tentou disfarçada e inutilmente enxugar as gotas de suor que passaram a brotar em sua face na mesma velocidade de seu pensamento. Era tarde demais, seu nervosismo já era aparente.
Em sua frente com as faces ruborizadas, inclinado para frente, ofegante, dentro da única coisa clara em todo aquele ambiente, florescia agora a impressão de ar brotando de dentro para fora, inundando os seus pulmões, um calor conhecido e um ímpeto destemido, desavisado, imprudente gritando em sua mente. A raiva agora fluía livremente. Abruptamente parara o som do letreiro de néon. Tudo isso por causa de um nome, um nome de mulher. Ela voltou.

quinta-feira, outubro 28, 2004

Como outro dia qualquer

“Hoje acho que estou a fim de pegar um cinema sozinho, como nos bons tempos”. Foi assim que começou. Olhou os bolsos onde jaziam duas moedas de dez centavos, a carteira onde um surrado trevo de quatro folhas dividia, plastificado, o pequeno espaço com cinqüenta Iene e mais vinte centavos de Real e terminou com uma breve visita ao site do banco, onde números vermelhos exterminavam sonhos. Respirou fundo, olhou o trabalho empilhado sobre a mesa junto ao computador e uma xícara fria de chá. Ainda dá para tomar, pensou num surto de polianisses. Fez algumas contas. Hoje é quinta, amanhã recebo e começo bem o final de semana, cobrindo o limite da minha conta corrente até segunda feira quando, então, faltará apenas quinze dias para que o ritual se repita. Sentiu-se ridículo, riu de si, reclinou a cadeira e continuou digitando. Um breve olhar ao redor revelava pessoas ocupadas, preocupadas e desesperadas pelo excesso de trabalho. Na mesa em frente, um administrador mauricinho abria uma embalagem de plástico e se debruçava, voraz, sobre o pedaço de bolo de chocolate. No disc-man um led indicava a bateria chegando ao seu fim enquanto Lenny Kravitz tocava apenas para ele.
Procurou rapidamente algo em seu e-mail e encontrou apenas algumas propagandas, dois vírus e algum vazio. Pensou: “Existirá vida inteligente lá fora?”. Era quase hora do almoço, hora em que, diariamente, ele fugia desesperado do refeitório da empresa em busca de alguma comida real e alguma discussão estimulante. Infelizmente as garotas mais inteligentes do escritório por vezes insistiam em retornar a assuntos rotineiros e por demais cotidianos. Casamentos, crianças, o maldito trabalho de conclusão de curso. Assuntos que se repetiam religiosamente da mesma forma, com os mesmos comentários e tópicos em uma ordem inabalável. Memens. Ao menos elas não falam sobre novela... Os rapazes, bom, meu salário não ajuda muito a convivência. O almoço passou por ele como previsto, não conseguiu empurrar o lixo que alguém insistia em chamar de comida, feijão sem gosto, farofa mole e pedaços crus de frango e lingüiça. Comeu apenas alguns pedaços de beterraba, algo que nunca lhe agradara, e tomates extremamente vermelhos. Lembrou-se do exército e em seguida tentou retirar uns cheques no caixa do banco para comprar qualquer coisa que lhe enganasse o estômago. Quando retornou a sua mesa a voz do administrador em frente o irritava penetrando levianamente em sua mente, este, passara toda a última hora no telefone, entretido em uma conversa fútil onde se gabava por enganar com sucesso a própria namorada. Ligou novamente o disc-man numa tentativa frustrada de ignorar o administrador e exterminou grande parte do trabalho enquanto isso. Pôs-se então a examinar as resenhas dos clientes. Continuou curioso sobre a existência de vida inteligente.

segunda-feira, outubro 25, 2004

Alma

Escrito originalmente domingo pela manhã durante algum tempo psicológico.

Cheiro da “Radical. Uma peculiar mistura de móveis velhos, tinta de impressão serigráfica, papel couche e revistas. Quando entrei na sala, preenchera-me os pulmões, agora, por um instante, quase o perdi. Limpo a mesa do outro lado da sala e arrasto-a para perto do sofá. Coloco o aparelho de som em uma extremidade e sento-me na outra com os meus livros. Levanto, procuro a tomada e coloco um CD no aparelho de som. Música clássica, ou quase... A trilha sonora de “O Senhor dos Anéis”. Não pude resistir a vontade de escrever. O som, os cheiros, a arte. Essa mesma sala já foi o meu estúdio inúmeras vezes. Assistiu a vários “estados” e mudanças de espírito meus. Essa sala conheceu de mim um lado que poucos conhecem, talvez ninguém. Agora ela está tomada de coisas da Radical, firma do meu pai. Humm... vejo aqui, de repente, tantas coisas sobre o que escrever. Simples prazeres... A música evolui forte ecoando pela sala, violenta, sóbria. Lembro-me dos aromas das mulheres que tive. Como um cheiro pode seduzir um homem? Domá-lo? Tocá-lo? Posso lembrar-me dos aromas de cada uma delas, o que às vezes me faz arrepiar. Estes dias todos tenho pensado: que tipo de homem eu sou? Sobre tudo um tipo raro. Creio que tenho aquele tipo de característica provocadora, acompanhada por uma profundidade assustadoramente perigosa. Algo em mim atrai e amedronta. Tenho uma segurança sobre coisas que assustam as pessoas comuns, sempre gostei do desafio, da audácia, do perigo. Mas confesso que muitas vezes não sei lidar com coisas simples como um Beijo. Touche. Às vezes penso demais, ponho tudo à perder. Um troféu enfeita o tampo superior do piano de minha mãe, nesta mesma sala. Foi um dos melhores dias da minha vida, quando domei um cavalo e venci uma prova hípica de salto. Faz tanto tempo... seis longos anos. Esta sala também me faz recordar alguns dos beijos apaixonados que já dei. A alma de um homem é algo que poucas vezes se revela.


quinta-feira, outubro 21, 2004

Frase Red Dragon da semana:

“O estado de degradação de um homem é diretamente proporcional à quantidade de Cup Nodles que ele toma no café da manhã.”