quarta-feira, dezembro 13, 2006

Tabacaria (poema)

Tem dias que não dá para dizer como a gente se sente. pelo menos não tão bem quanto outros.

Tabacaria - Álvaro de Campos

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma sem
Porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates coma mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê —
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como
Tabuletas
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Folha Online: Blogueiros riem por último e invadem "show business" - 11/04/2006

Essa é uma matéria interessante, sobre o poder de comunicação dos blogs: Folha Online: Blogueiros riem por último e invadem "show business" - 11/04/2006.

Eu só discordo da parte que diz que os blogs devem cair frente ao podcast e ao videocast. É o mesmo que dizer que as pessoas deixaram de ler quando criaram o rádio e, posteriormente, a televisão. Sem contar que os blogs são extremamente compatíveis com os outros dois formatos.

E você? O que acha?

You are the Sun


You are The Sun


Happiness, Content, Joy.


The meanings for the Sun are fairly simple and consistent.


Young, healthy, new, fresh. The brain is working, things that were muddled come clear, everything falls into place, and everything seems to go your way.


The Sun is ruled by the Sun, of course. This is the light that comes after the long dark night, Apollo to the Moon's Diana. A positive card, it promises you your day in the sun. Glory, gain, triumph, pleasure, truth, success. As the moon symbolized inspiration from the unconscious, from dreams, this card symbolizes discoveries made fully consciousness and wide awake. You have an understanding and enjoyment of science and math, beautifully constructed music, carefully reasoned philosophy. It is a card of intellect, clarity of mind, and feelings of youthful energy.


What Tarot Card are You?
Take the Test to Find Out.

quinta-feira, novembro 30, 2006

sexta-feira, novembro 24, 2006

Já deu sua cambalhota hoje?

Cambalhota
Substantivo feminino;

1 - volta que se dá com o corpo de cabeça para baixo;
2 - reviravolta;
3 - trambolhão;
4 - tombo;

Mais do que uma simples pirueta, a cambalhota é uma comemoração, pode mostrar alegria e arrancar risos, pode deixar alguém muito feliz, mesmo que esse alguém seja só você.

Venha você também dar risadas e fazer os outros rirem. É por uma boa causa e você ainda pode aproveitar para descontrair com os seus camaradas de trabalho e rir de você mesmo, uma das melhores coisas que você pode fazer por você!

Aproveite e guarde esse momento para posteridade! Nossas amigas Juliana e Michele (batista.juliana@gmail.com) estão fazendo um trabalho de marketing viral para a faculdade e hoje é o último dia em que elas estarão filmando cambalhotas. Participe! De quebra você também pode se tornar uma estrela!


Veja esses depoimentos de gente muito famosa!


Mikail Barishnicov: “A Cambalhota é o ato de expressão perfeito!”

Valderrama: “No começo o difícil era não me embolar no meu cabelo, depois peguei o jeito.”

Marcus Valério: “Cambalhota? Claro! É o que eu mais dou com os deputados!”

Pablo: “Foi legal! Gostei!”

Michael Moore: “Eu dou várias, mas gosto mais de ver as do meu amigo Bush.”

Bush: “Ca-ca-m-balota? Sorry, No Compreendo...”

Fábio: “Ehhhhhh mano... Sohhhhh!”

Silvio Santos: “Aai-hi-hi... Não perca! Hoje na seção das dez, o filme ‘cambalhotas’, eu assisti e é muito bom! E amanhã, não perca a estréia o programa ‘Cambalhotando’!”

quinta-feira, novembro 16, 2006

Fim de Tarde

Ele saiu bem diferente de como eu o imaginei, ficou legal, então vou publicar e acho que vou tentar escrever outro seguindo a idéia original. Até lá, divirtam-se:

***

Fim de Tarde


A sensação de estar mentalmente distante do lugar onde se está fisicamente é uma velha-conhecida. Onde eu estava, de verdade, não sei? Onde estava? Parado no metrô.

A bela garota passava em um vestido bordô. Combinando desde as unhas até o sapato com os mais deliciosos tons de vermelho. Seus cachos perfeitamente castanhos destacavam os fones brancos do iPod e emolduravam o rosto pálido onde brilhavam olhos do mais puro azul-turquesa.

Ela se senta e eu assisto como um garoto na multidão. A curiosidade me devora. Quero saber o que ela está escutando enquanto sorri e batuca animadamente com as unhas na superfície do iPod. Seu sorriso é gracioso, um daqueles sorrisos que se dá quando ninguém está olhando, ou quando se está distraído demais para pensar nisso. Em deleite eu observo.

Mas no mundo real o telefone toca, borra a imagem e revela o escritório. Todo mundo ao redor olha enquanto brigo com a pequena concha cinzenta para silenciar o seu toque. Converso rapidamente e me dirijo para o recinto mais branco e diminuto que alguém ousou chamar de copa. na seqüência desligo o telefone e volto a minha mesa para me concentrar.

Só que alguém ralha com alguém, alguém contra argumenta e outro alguém cantarola do outro lado da sala. Eu respiro fundo, finjo ignorar tudo enquanto ar gélido me açoita saindo do maldito ar-condicionado. É tão difícil voltar a me concentrar! O relógio do computador ainda errado assiste a tudo e o do celular denuncia: falta dez minutos para o final do expediente. Fico indeciso se salvo ou não o arquivo e me lembro da pasta com dezenas de textos inacabados que apaguei recentemente.

Visto a minha jaqueta vermelha, desligo o computador e atravesso a sala tentando não levantar suspeitas ou revelar a minha felicidade. Passo o cartão no relógio de ponto que apita com o elevador. Corro para a porta quase inutilmente e alguém segura o elevador pouco antes que fechasse.

Agradeço automaticamente antes de erguer os olhos do chão e ver o rosto conhecido cujo sorriso eu só imaginei em sonhos. Abro meus lábios assustado em um reflexo sem, no entanto, emitir som e, enquanto a porta do elevador se fecha, ela diz: “Era Modern Love, do Bowie”.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Um Dia Arrastado

Desde que o meu computador de trabalho resolveu entrar em horário de verão eu tenho tudo menos um relógio no computador, o que só contribui para o meu tédio em acreditar que é uma hora quando é outra.

Fiquei pensando: Se eu pudesse estar em algum lugar outro que não este onde estou agora, eu poderia estar em um texto? Essa idéia causa certa estranheza, mas não a mim que busco ser tão sincero para com as minhas palavras. Eu sinto isso, estou sentindo agora de forma muito real. Afinal, quem nunca sonhou estar em um quadro ou uma foto? Ou ainda em qualquer lugar que não fosse a sua própria realidade?

Esse talvez seja um dos aspectos do sonho que nos fazem seguir em frente: A esperança. Esperança de um dia fugir a uma realidade insípida, inerte, inodora.

Mas para mim a pergunta ainda permanece: Será que são mesmo as pessoas que contaminam com a sua amargura os meus sonhos ou sou apenas eu quem não se permite ir atrás dos próprios sonhos?

quinta-feira, outubro 26, 2006

Maybe I Have Found Something Blue

Eu estava lá, cercado por zilhões de letras, trilhões de palavras, milhões de frases e milhares de páginas em forma de livros. Talvez muito mais que isso, impossível contar. Ao cair da noite eu procurava algo perdido há realmente muito tempo, tanto tempo que eu não esperava mais encontrar, mas eu procurava. Aquela livraria é um lugar estranho para mim por diversos motivos, alguns muito bons, alguns ruins, mas sempre me pego voltando para lá. E lá estava eu, quando inesperadamente eu ouvi. Estava lá.

Não dá para explicar em palavras o que estava acontecendo, eu tive que sair de onde estava e ir direto para onde a música tocava. Entrei no café da livraria e não quis olhar diretamente para a banda naquele primeiro momento, bastava ouvir, era uma sensação tão boa que eu só precisava estar ali. Particularidades da música e da sensação que me provoca, sinto que de uma certa maneira isso me liga profundamente aos seus criadores. Procurei uma mesa e achei uma de canto, muito escondida e longe do palco, uma das únicas duas mesas que restavam vagas. Pedi um chá e rabisquei um pouco enquanto a lapiseira reclamava.

Foi um show curto, mas delicioso. Quando o som acabou eu paguei a conta com alguns trocados e me aproximei do palco. Ela era linda.

A beleza tem dessas coisas, uma pessoa não é só bela pela sua aparência, ela é bela pela sua alma, pela forma como trata as pessoas, como sorri quando responde com simplicidade a aquela pergunta óbvia que só você não havia percebido (quantas vezes será que ela já não fez isso?). Pois é, ela era linda, simpática como poucas vezes eu esperei que um artista o fosse.

Foi uma conversa breve, fiquei um pouco tímido (de verdade), acho que tive medo de ser meio clichê, ou de parecer um doido varrido. Foi uma conversa divertida, me fez sentir bem. Quando terminou senti que eu havia saído meio fugido (timidez novamente?). Arrependi-me por não ter agradecido.

Agora noite vai avançando e talvez ainda vá longe. A inspiração que ela me deu lentamente começou a forjar um novo quadro. Talvez o primeiro quadro que eu consiga terminar de pintar em um longo ano.


ps.: http://www.myspace.com/bluebellmusic

quarta-feira, outubro 25, 2006

Páginas Rasgadas

Quero rasgar as páginas em que está escrita a minha história, para com a tinta a sangrar de milhões de letras erradas talvez eu possa começar uma nova história. Quanto mais eu vivo mais me convenço de que o mundo como o entendemos é baseado nas visões, desejos, escolhas e valores que damos as coisas. É isto o que é o mundo, o que fazemos dele. E eu me pergunto, o que fiz do meu mundo? Um mundo de tubos e tubos de tintas que venceram há anos. Um mundo escrito em páginas em branco. Um mundo onde nada sobreviverá a história. Um mundo de penas quebradas, pessoas distantes, pincéis sem pêlos, violões sem cordas, livros empoeirados e frias paixões...

A noite, quando acordo antes da hora pergunto a mim mesmo o que acontecera ao homem simples e pobre que vivera no século XIV? Cuja existência esvaeceu, cuja história apodreceu para fertilizar a de outros que vieram depois, que as páginas de milhares de livros não contam, cuja memória se apagou. Pergunto sobre tudo o que o amanhã me reserva? Pergunto o que eu faço a mim com justificativas vazias, promessas inócuas e expectativas falsas.



Queen - Spread Your Wings
Words and music by John Deacon

Sammy was low
Just watching the show
Over and over again
Knew it was time
He'd made up his mind
To leave his dead life behind
His boss said to him
'Boy you'd better begin
To get those crazy notions right out of your head
Sammy who do you think that you are?
You should've been sweeping up the Emerald bar'

Spread your wings and fly away
Fly away far away
Spread your little wings and fly away
Fly away far away
Pull yourself together
'Cos you know you should do better
That's because you're a free man

He spends his evenings alone in his hotel room
Keeping his thoughts to himself he'd be leaving soon
Wishing he was miles and miles away
Nothing in this world nothing would make him stay

Since he was small
Had no luck at all
Nothing came easy to him
Now it was time
He'd made up his mind
'This could be my last chance'

His boss said to him 'now listen boy
You're always dreaming
You've got no real ambition you won't get very far
Sammy boy don't you know who you are?
Why can't you be happy at the Emerald bar?'

So honey
Spread your wings and fly away
Fly away far away
Spread your little wings and fly away
Fly away far away
Pull yourself together
'Cos you know you should do better
That's because you're a free man
Come on honey
FLY WITH ME!

segunda-feira, outubro 09, 2006

Pensamentos rápidos sobre o ego

Já me disseram que eu sou a única pessoa que lê essas coisas, mas ainda assim eu juro que fico com raiva quando entro em um site que não tem um link do tipo “o que é isso?”.

Tudo bem, dizer o óbvio é algo bobo, mas às vezes, algo que é óbvio para mim, não o é para você e vice-e-versa. Talvez seja por isso que muitos sites não tem uma seção desse tipo. É algo irritante quando alguém não entende sobre o que estamos falando e dói no ego pensar: “Como posso eu não estar sendo entendido?”. Na cabeça de quem fala parece sempre habitar um serzinho arrogante que não lida bem com essa idéia.

Mas fazer sites, escrever e tantas outras coisas que possuem uma expressão artística, que tentam comunicar algo, padecem do mesmo mal. Antes de haver a arte deve haver o artista, e antes do artista o ego. Isso não é exatamente uma coisa bonitinha porque não é para ser assim, é algo que é simplesmente e, talvez, se pudesse ser diferente, alguém já teria descoberto depois de tanto tempo de humanidade.

terça-feira, setembro 19, 2006

Peixeiro

Estava atrasado novamente e pensou enquanto acendia a outro cigarro.

“Por quanto tempo mais meu chefe agüentará isso?”

O trago iluminou o quarto e as cobertas das quais se quer havia saído ainda.

“Quanto tempo mais eu tenho até ser mandado embora? Todo mundo sabe que limpar peixes está mais para um trabalho insalubre que para qualquer outra coisa, mas ninguém se importa. Tem aquele cheiro, óbvio, que depois de dois dias impregna tudo, aquela sujeira que nunca mais sairá de você e têm os espinhos, ah sim, os espinhos... Eles te pegam de jeito quando os seus dedos já enrugaram de passar tanto tempo naquele caldo misto água, sangue, tripas, gelo e suor. Os espinhos são normalmente bem incômodos para as pessoas que os sentem, mas uma das vantagens de abandonar a medicação por falta de dinheiro é que o seu limiar a dor aumenta, que na verdade é como se nada disso importasse muito realmente.”

Apagou o cigarro no cinzeiro, mas não antes de acender outro. Odiava o gosto daquilo, mas que se dane, quem se importa. Colocou o novo cigarro no cinzeiro e saiu da cama. Caminhou pelo apartamento minúsculo procurando alguma peça de roupa limpa, juntou uma calça e uma camisa que cheiravam menos a peixe e as vestiu. Ignorou o café, a geladeira havia quebrado há uma semana e o leite já havia passado dessa para melhor há tempos. Comeu um saco de “Porquitos” que comprara no dia anterior e ao sair para o “trabalho”, batendo a porta com força derrubou da parede da sala o diploma da faculdade de direito espatifando a moldura em milhares de cacos que ainda ficariam ali por muitos dias.


***

Eu nunca entendi direito por que as pessoas continuam fazendo coisas que lhes fazem mal.

segunda-feira, setembro 18, 2006

quinta-feira, agosto 17, 2006

Você não sabe...

Quão distante eu quero estar;
quão distante estou daqui.
Quantas rosas quero dar;
quantas flores já colhi.
Quantas folhas já rasguei;
quantos livros eu já li.
Quantas vezes fiz chorar;
quantos nomes já esqueci.
Quantos rostos já pintei;
quantos versos já escrevi.
Quando a noite vai chegar;
quando a noite vai partir.
Quando a lua vai nascer;
quais estrelas vão surgir.
Quantas delas há no céu;
Elas vão sempre existir?
Ou quantos beijos dar-te-ei,
logo assim que eu te vir.


by Juca Lopes

quinta-feira, julho 27, 2006

Fim de Férias

As férias da faculdade estão acabando e com elas vão o meu animo que custou a voltar e não voltou muito. Ando muito chateado por faltar tempo para fazer absolutamente tudo. O último semestre foi péssimo para a faculdade e de modo geral péssimo para a minha vida, não sei o que houve, mas eu consegui passar seis meses totalmente ou quase totalmente distante de praticamente todas as minha atividades normais. Nem para escrever eu tenho conseguido tempo e quando tento escrever não sai nada que presta. Ando deprimido.

***

Era inverno, mas bem que poderia ser verão. As pessoas caminhavam na rua usando roupas leves e a únicas duas coisas que faziam ponderar a estação eram os agasalhos para o ar condicionado dos escritórios (e para a noite) e a falta de chuva. A última semana de férias passava tão depressa quanto as pessoas na rua em frente ao prédio.

Uma moça de blusa verde-água e cabelos pretos virou a esquina e passou apressada em meio à multidão. Um rapaz bem alto e magro vestindo uma calça social marrom e uma camisa bege claro vinha no mesmo sentido enxugando a testa com um lenço. Um senhor de idade passava devagar por ali, um cão vadio também, coisa rara nessas paragens. Centenas de rostos surgiam para desaparecerem instantes depois na entrada de um prédio, virando uma esquina ou no meio do povo na distância. Sempre rápido, muito rápido.

Meus olhos ardiam cansados e eu imaginava o que se passava por trás de cada rosto que via ou que rumo poderia tomar a vida se eu saudasse a qualquer um daqueles rostos. Quem sabe o que poderia conhecer, quem sabe o que poderia aprender, quem sabe que lugares visitaria. Num instante dois ou três pessoas ali poderiam ter se tornado amigas, destinos poderiam ser traçados. Coisas novas poderiam acontecer. Simplesmente virei o resto e voltei para dentro do prédio, para aquele lugar estéril chamado escritório.

terça-feira, julho 11, 2006

Lave-me

Isso é para me lembrar de escrever mais, um dia talvez eu chegue aqui e veja o blog coberto de pó e escrito Lave-me bem grande como nos carros sujos. Se eu demorar muito, talvez encontre no pó bem mais do que lave-me.
Enquanto eu não termino nenhum dos textos em que estou trabalhando resolvi publicar este link para passar o tempo. Dá para ficar bobo...

terça-feira, maio 30, 2006

Falta 5 para a prova! Falta 5 para a prova!

Nem sabia se era mesmo verdade, mas se ocupava em pensar que sim.
Falta 5 para a prova! Esperava inquieto, ruminando o tempo, tenso, porém calmo. Era aquela calma e tensão, velhas conhecidas, que precedem as fortes emoções. Sob o tiquetaquear do relógio, pensava que não passar naquela prova logo de primeira seria o mesmo que atestar sua inaptidão para a coisa. E pensava: “Que besteira, precisar de um papel para provar aptidão em uma coisa qualquer, como se papel provasse qualquer coisa”. Pensava, pensava, pensava... Milhares de coisas e pensamentos tortos lhe passavam pela cabeça, porque isso é só o que se pensa nessas horas. Tortuosidades, coisas que, se não são as únicas, são umas das poucas que nos ocupam.
5 minutos se passaram e mais 5 depois, carregando de 5 em 5 o ponteiro, mas em momento algum faltara 5 minutos ou menos para a dita cuja. Ele sabia disso perfeitamente, mas não queria acreditar, não havia sequer olhado para o relógio desde que adentrara a sala. Profilaxia mental, evitava pensar mais merda. Pelo menos achava que era disso que se tratava... Daquela avalanche de sensações vazias decorrentes de um dia-a-dia de cão, onde tudo possuía aquele brilho vítreo, aquela consistência de sonho e ausência de perspectiva. Um dia, talvez, ele acordaria e veria que tudo até ali não passava de um interlúdio para outra coisa. Talvez não.
Corremos tanto, o dia todo, todos os dias, atrás de tudo e de todos... No fim, não somos mais do que cães correndo atrás do próprio rabo. Uma verdadeira lástima, se é que existem outras coisas além de lástimas na vida de quem corre atrás do nada. Somos deprimentemente vazios. Até nisso.

quarta-feira, maio 17, 2006

Putzgrila #2

Olá pessoas,

Eu queria convidar vocês para o lançamento do fanzine Putzgrila #2. O fanzine foi produzido pelos alunos do um curso de Roteiro e Pesquisa de História em Quadrinhos, ministrado no ano passado pela Gibiteca Henfil no Centro Cultural São Paulo por 4 das maiores autoridades em arte seqüencial do país (o cartunista Jal, o editor Gualberto Costa, a Dra. Sonia Bibe Luyten, professora de História em Quadrinhos na ECA e o Prof. Dr. Valdomiro Vergueiro, coordenador do Núcleo de Pesquisas de História em Quadrinhos da ECA ). Está na segunda edição, que esperamos, supere o sucesso da primeira, premiada com o trofel Angelo Agostini, o oscar dos quadrinhos brasileiros e será lançado esta semana como parte dos eventos da Virada Cultural (os detalhes estão no final do texto).

E o que tudo isso tem a ver com vcs? Bom, talvez vcs gostem de quadrinhos (talvez não), talvez vcs já estejam planejando ir a virada cultural (talvez tenham mais o que fazer). Ou ainda talvez vcs queiram ler o meu debute no mundo da arte seqüencial, que não foi dos mais incríveis ou memoráveis, mas está lá em algum lugar no meio da revista. Se nenhum desses motivos for bom o bastante, vocês podem aproveitar para tirar uma com a minha cara depois, perguntar porque eu não durmo antes de escrever essas coisas (ou de desenhar essas coisas) ;) Enfim... é melhor que terminar esse texto por aqui antes que eu me arrependa:

Dia: 20 de maio de 2006, sábado
Workshop: Jam Session de Quadrinhos e Caricaturas e Lançamento do fanzine Putzgrila nº 2, da Gibiteca Henfil
Durante o lançamento do Fanzine Putzgrila nº 2 serão criadas histórias em
quadrinhos e feitas caricaturas, sob a coordenação da equipe de criação do
fanzine, com a participação do público e de artistas convidados. O material
produzido ficará exposto no mezanino da Gibiteca até 31/05.
Coordenação: Eduardo Mendes de Oliveira, Harriot Roxo Júnior, Renan Baliego
Heitzmann e Alberto Pessoa. Artistas Convidados: Eloar Guazzelli, Alexandre
Nagado, Rodolfo Zalla, Rafael Coutinho, Fábio Cobiaco, Sam Hart, Sandro
Castelli, Osvaldo Pavanelli.
Faixa etária: acima de 12 anos
Horário: das 18h às 21h
Local: Gibiteca Henfil.


Dia: 21 de maio de 2006, domingo
Workshop: Jam Session de Quadrinhos e Caricaturas
Serão criadas histórias em quadrinhos e feitas caricaturas, sob a
coordenação da equipe de criação do fanzine PutzGrila, com a participação do
público. O material produzido ficará exposto no mezanino da Gibiteca até
31/05.
Coordenação: Carlos Eduardo Silva Simões, Daniela Beleze Karasawa, Ingrid
Santos Marastoni e André Liberal.
Faixa etária: acima de 12 anos
Horário: das 10h às 13h
Local: Galeria Olido.


Ps.: Embora eu queira muito estar nos dois eventos, o mais provável é que eu só vá ao primeiro, culpa dos meus queridos professores de faculdade...

sexta-feira, maio 05, 2006

Vinte minutos para a meia-noite

O relógio marca exatamente 23:40 e contrariado decido que tenho apenas 10 minutos para escrever. Preciso estar na cama antes da meia-noite, estou mega gripado e depois de passar mal o dia inteiro não consegui se quer ir para a faculdade. Assim, 10 minutos é tudo que tenho, muito menos do que gostaria, muito mais do que posso me dar ao luxo agora. Perco alguns minutos esboçando um parágrafo com o tempo que gasto no meu dia para apagá-lo em seguida. Basta saber que passo em torno de 4 horas viajando de um lado ao outro da cidade e que durmo por volta de 6 horas por noite quando estou com sorte, o resto é trabalho, trabalho, trabalho, estudo, estudo, estudo. Uma qualidade de vida digna da primeira revolução industrial, lá no século XVIII. Mas não é por isso que vocês voltam aqui. A realidade está na vida, no dia-a-dia, nos jornais, no trânsito dessa cidade maldita. Vocês voltam aqui por causa dos sonhos, porque de pesadelos já basta a vida. Pois bem, já passaram 11 minutos e vocês não leram sobre nenhum sonho hoje. Infelizmente preciso mesmo dormir para acordar amanhã, antes das 7:00 em um estado minimamente razoável. Mas sobre os sonhos eu tenho duas coisas a dizer. A primeira é que andei pensando e depois de dois anos escrevendo só neste blog eu descobri sobre o que escrever aqui, sobre sonhos é óbvio. Eu sei, eu sei... estava na cara, mas ainda assim poiesis tem dessas coisas. Criar nem sempre é tão fácil quanto a gente pensa. A segunda, é que falando em sonhos, no último post eu prometi novidades... Pois bem, o nome da novidade é Xubaba Variedades. Lá, eu digo que Xubaba é uma coletânea de notícias divertidas, atualidades, música, cultura inútil, entretenimento e bizarrice em geral, mas a verdade é que eu ainda não sei bem para que serve... rs. Só espero descobrir em menos de dois anos...

Ps.: Visitem o Xubaba Variedades, tenho certeza de que irão gostar. Ainda é uma versão Beta, então, sintam-se a vontade para criticar e também para linkar em seus blogs.
Ps2.: E não se preocupem, não vou abandonar o Life is But a Dream, (principalmente agora que descobri para que serve) a idéia é que as atualizações sejam mais freqüentes. Fiquem ligados ;)
Ps3.: E para os curiosos, o post foi escrito em 27 minutos. Agora ainda falta revisar e publicar...

quarta-feira, abril 12, 2006

Idéias Vadias

Pareço um louco no meu trabalho, ou ao menos assim deve achar o povo que trabalha comigo. Apesar de ser redator, como o meu trabalho é focado em textos realmente pequenos (+/- 140 caracteres), eles devem estranhar o tanto que eu escrevo. Sei que parece inconsistente o que eu vou dizer, porque tenho atualizado muito pouco a este blog (aguardem surpresas), mas eu realmente escrevo muito e o tempo todo. Aliás, feito um louco.

Eu sou daqueles que tecla com vontade, não fico martelando o teclado, mas digito com gosto, como se eu estivesse matando a fome, e, de certo modo, estou mesmo. Sou uma pessoa de reações fortes... Eu também me empolgo quando ouço música, outro hábito que cultivo na empresa.

Ouvir música para mim é algo tão intenso, tão intimo que por vezes exige que eu me controle para não deixar me envolver demais. Às vezes vejo as pessoas ouvindo música e fico me perguntando se elas sentem como eu sinto sobre a música. Se elas sentem a música envolver, se sentem aquele gosto forte na boca e a eletricidade percorre o corpo, como com quem estamos intima, elétrica e gravitacionalmente ligados.

Não sei se vocês já sentiram isso (se não sentiram, tenham os meus mais sinceros e profundos lamentos), quando ao se aproximar da garota de lábios carmim (ou do cara de cabelos curtinhos) os olhos de ambos se caçam em uma dança desesperada, incansável, frenética. Olhos nos olhos o circuito se fecha. Faz notar-se a gravidade que sempre esteve ali, segurando com força e impossível de ignorar. Arrastando e aproximando devagar, sem parar, mais e mais. Você orbita e o cheiro dela invade... Tateia cada poro e envolve com intimidade. Assusta, provoca e faz os pelos da nuca ouriçar... Calafrios. O mundo escapa ao seu redor... Vertigem... Surge a eletricidade. O ar rarefaz e seca. Fagulhas estalam violentas. Você ofega... e é difícil resistir...
É assim que eu ouço música: devorando e sendo devorado, a música me invade a alma e a minha alma invade a música. Naquele momento perfeito somos um só.

Um dia desses algum político ainda há de proibir a intimidade com a aprovação das massas... Dirá: “A partir de hoje está banida a intimidade desta digníssima república, toques, escritos, musicas, falas, pensamentos e tudo o mais”. Militantes já abundam, remoendo seus pequenos rancores rançosos e alistando outros a cada dia. Sei lá, já nem me lembro do que eu falava ou onde queria chegar... é tarde, melhor desligar o som, deixar de lado meus devaneios e voltar para casa.

terça-feira, abril 04, 2006

Trair e Coçar

Esqueci de contar que no último dia 24 fui assistir “Trair e Coçar é só Começar” no Teatro Sérgio Cardoso. A peça, que figura entre as de maior sucesso no teatro nacional esteve em cartaz até o último dia 26, em curta temporada, comemorando 20 anos de estrada. Confesso que até esperava um pouco mais por causa da fama, mas foi uma excelente opção para alegrar a noite (somado a uma ceia rápida e agradável na cantina Ce Que Sabe, em frente ao teatro). A história traz situações bem cômicas. Além disso, uma das coisas que tornou a peça interessante ao longo do tempo é o roteiro visivelmente escrito nos anos 80. Celulares, computadores... Não. Nada disso. Os encontros e desencontros dos personagens surgem de conversas truncadas, muitas vezes ouvidas as escondidas e apimentadas pelas confusões de Olímpia, uma empregada atrapalhadíssima. Infelizmente já saiu de cartaz, mas se você gosta de teatro, fica aí a dica de uma peça imperdível que já entrou quatro vezes para o Guinness Book como a longa temporada ininterrupta do teatro nacional.

quinta-feira, março 23, 2006

Para começar o dia de bom humor

Olá pessoas,

Aqui vai um linkzinho para deixar todo mundo de bom humor: Star Wars with bunnies. Duvido que alguém não tenha assistido o original, mas não custa avisar: O conteúdo é spoiler.
Não deixando de citar da fonte, aqui vc encontra diversos outros filmes with bunnies: Angry Alien Productions.

Divirtam-se

sexta-feira, março 17, 2006

Somniculus

Ônibus. No ônibus. Movimento. O calor é degradante, a viagem lenta. Viagem, literalmente. O Shin’in, ex-imperador Sutoku, levanta-se e dá lugar a uma moça. Propicia-me a conversa mais agradável que eu já tive com estranhos dentro de um ônibus em toda a minha vida. Do lado de fora, os carneiros atravessam a paulista na faixa, pulando o canteiro central. Ela me pergunta o que estou lendo, eu mostro. Ela diz ser dona de uma empresa de artigos de bambu. Take era o nome, acho. Mais algumas palavras e me despeço, levanto, passo a catraca e percebo que não estou bem aonde eu pensava. Faltam três ou quatro pontos até o meu, mas fiquei com medo de perdê-lo, a conversa estava realmente boa. Desço do ônibus no meu ponto habitual e noto que o vento balançando a cerca viva de uma casa lembra as algas do fundo de um aquário, ou isso foi depois? Depois eu acho, antes eu atravessei a faixa da Faria Lima, antes ainda a da Cidade Jardim. Os carneiros estavam lá, eu me lembro. Pulavam alegremente e não pisavam nas rachaduras do chão de concreto. Distorções espaço-temporais, fotofobia. Meu estado é realmente deplorável. Paro em um café e peço um chá, odeio beber café, preciso de cafeína. Pago ao homem que me atendeu realmente confuso e quase esqueço o troco com medo de perder o meu próximo ônibus. Saio em tempo de vê-lo chegar a toda velocidade. Não, não era ele, agora estou confundindo cores também. Entro em outro ônibus evitando pisar nos degraus com cogumelos, bebo chá mate e acordo um pouco. Sento-me, mas ainda tenho a sensação de que os objetos são feitos de diversos planos sobrepostos, sem a profundidade que enxergamos. Um mundo composto por diversos planos que, quando viramos rapidamente a cabeça, conseguimos ver saírem de registro. Lentamente as coisas voltam ao normal, acho que acordei um pouco. A cabeça pesa, mas agora está tudo bem, noto que estou muito atrasado. Respiro fundo, me recomponho assistindo a um senhor de aparência circunspeta que trava uma guerra contra a sua pasta. E quando me viro para a moça ao meu lado uma carpa gigante me saúda do lado de fora do ônibus, flutuando em frente à cerca viva de algas do restaurante mais próximo, aonde os carneiros tomam um brunch. Preciso dormir.

sábado, março 04, 2006

Cada coisa que a gente encontra...

O computador é realmente uma arma... Quando você menos espera percebe que acabara de apontá-lo para o exato ponto médio entre os seus olhos e BANG! São 01:33 e você é uma criatura balbuciante em frente a uma tela com um brilho azulado. Geralmente é nessa hora que você acaba encontrando coisas que, por falta de memória produtiva acordada alocada em seu subconsciente, você não consegue interpretar. Então você se dirige ao seu blog com a esperança de que alguém o leia e publique uma resposta que explique por que você resolveu publicar esse link a essa hora:
Larry Poter

É lógico que o tiro pode sair pela culatra e ninguém comentar, mas é um modo bastante eficiente de tentar não pensar e ir dormir logo de uma vez...

Ps.: Feliz aniversário Dríade! Tão logo eu reinicie o meu cérebro tento ligar novamente para te dar parabéns de forma minimamente aceitável. ;)

sábado, fevereiro 25, 2006

The Mechanical Contrivium: Juca

Ten Top Trivia Tips about Juca!

  1. The difference between Juca and a village is that Juca does not have a church.
  2. 68 percent of all UFO sightings are by Juca.
  3. Olympic badminton rules say that Juca must have exactly fourteen feathers.
  4. Juca became extinct in England in 1486.
  5. Juca can be seen from space.
  6. Pound for pound, hamburgers cost more than Juca.
  7. Originally, Juca could not fly.
  8. If you lick Juca ten times, you will consume one calorie.
  9. Neil Armstrong first stepped on Juca with his left foot.
  10. A lump of Juca the size of a matchbox can be flattened into a sheet the size of a tennis court.
I am interested in - do tell me about

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Um 2006 menos chato?

Essa é para alegrar o carnaval crianças, divirtam-se lendo, bom feriado, muito rock e muita breja!*


2006, o ano candidato ao título de mais chato da última década, parece ter sofrido um duro golpe em seu status com a divulgação de que a Copa do Mundo de Futebol possa ser cancelada devido ao aumento do número de casos da gripe aviária na Europa. Assim, a expectativa de que o ano de 2006 venha a se tornar um ano inócuo ou minimamente interessante aumentara cerca de 50%. Restam agora apenas as eleições como segundo pólo potencialmente entediante e o anseio por dias melhores. Até lá evitem uma infecção cerebral aguda mantendo seus televisores desligados ou a uma distância segura dos canais de esporte e TV aberta.
Antecipando qualquer probabilidade de que o governo alemão arrisque suas chances contra a grande possibilidade de iniciar uma pandemia realizando a copa, grupos intelectuais têm se mobilizado para criar um fundo com o intuito de presentear os candidatos à presidência com viagens para a copa e desse modo salvar pelo menos o segundo semestre.

Mais informações em:

Josias de Souza nos Bastidores do Poder
“uma ameaça ronda a copa”
http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/arch2006-02-19_2006-02-25.html


Folha Online
“Alemanha já tem 103 aves mortas por gripe aviária”
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u92822.shtml



* Ou lasse caso você lendo seja Hare... ;)

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Comia, comia e comia

Tive um sonho. Sonhei que eu repentinamente começava a viver muito, muito infeliz. A infelicidade era tanta que eu não era capaz de sentir prazer com nada. Então, em uma tentativa desesperada de obter alguma felicidade, eu começava a comer sem parar. Tudo aquilo que eu fazia, fazia comendo: se eu estava ao computador, comia; se eu andava, comia; se eu dormia, estava abraçado a um pacote de bolachas ou qualquer outra coisa comestível que se espalhava pela cama a minha volta. E a cada vez que eu passava por um espelho via meu reflexo cada vez mais gordo.
Dado momento, cada vez mais espantado ao ser surpreendido pelo meu reflexo parei e continuei observar um espelho. E para a minha surpresa comecei a inchar e inchar, engordando mais e mais. Minhas roupas rasgaram diante de meus olhos numa fútil tentativa de conter o meu imenso corpanzil. Ainda assim eu continuava a assistir, incapaz de desviar os meus olhos, até o momento em que eu explodi.
Suando frio eu acordei espantado olhando ao meu redor e, ao me deparar com a minha imagem refletida em um espelho vi que nada havia acontecido, porém uma pergunta não me fugia à mente: Se não podemos bebê-la, comê-la, metê-la ou comprá-la, resta apenas esperar que a felicidade surja?

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Ossos do ofício

Quem dera, nós pessoas inteligentes, fossemos menos complicadas e excêntricas. Porque a inteligência que nos é tão cara, infelizmente, nos torna aos olhos dos outros pessoas pedantes, frias e incompreensíveis. Quem corteja a inteligência com intimidade raramente se afasta dela para além do ponto onde distinguimos suas sardas, pupilas e cílios, linha que pessoas que não nutrem essa paixão não se arriscam a cruzar. Falo de paixão verdadeira, aquela sem a qual a vida de uns tantos não seria a mesma. Uma vida sem um livro qualquer para ler entre uma estação e outra do metrô (que diria então de um Graciliano, um Tokien ou um Shopenhauer). Um xadrez, um go ou uma outra atividade lúdica para excitar uma tarde entre amigos. Uma boa Hq ou um bom filme independente para aquecer uma noite. A inteligência é um critério gradual, ela não permite que se divida as pessoas entre duas categorias radicalmente opostas: quem a tem ou quem não a tem. Mas se é seu desejo dividir basta um olhar para saber a quem ela fascina ou a quem não. O que sobra é um abismo criado pelo paradigma social, um abismo que algumas horas é tão grande que faz de nós sábios, solitários.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Atum é assim, você só comenta quando pesca um dos grandes e não quer que ninguém fique criticando o tamanho do seu.

Quero quebrar este silêncio, dizia eu a mim mesmo, contrariado pela falta de idéias como quem reclama por comprar uma lata de atum sem ter um abridor de latas. Coisas de louco: latas vendidas sem o abridor e pessoas que conversam sozinhas, mas embora eu converse sozinho, isso já é outra história. Neste exato momento a falta de idéias ou a falta de intimidade comigo mesmo talvez sejam o ponto.

Voltando a vaca fria, quer dizer, ao atum neste caso, isso me faz lembrar da história dos tiozinhos famintos lá no agreste que ganharam comida através de uma campanha de caridade e receberam várias coisas legais, como latas de atum, ervilha e óleo para cozinhar, porém havia um pequeno detalhe, eles não tinham com o que abri-las. Não gosto nem de imaginar o pobre povo faminto olhando a foto do peixe a devolver o olhar em esgar e as bocas todas salivando.

Pensar tem, de fato, muito a ver com atum, assim como as atividades que cercam o atum, quer dizer, o pensar em geral. Pensar é como cozinhar Atum, você põe o atum na panela, deixa ele lá rolando no vapor, joga um tempero ou outro para acentuar o gosto e mexe de quando em vez para não queimar embaixo. Escrever é como tirar o atum da lata, se você usa um abridor fica fácil, de outro modo você corre o risco de o atum não sair muito aproveitável. Revisar o texto de alguém é como limpar o atum, não é difícil e se parece um pouco com escrever. Tem quem goste mais e tem quem não goste, indiferentemente, a maioria dos autores age como se você estivesse limpando o peixe deles com um abridor de latas quando você sugere uma leve mudança. Atum é assim, você só comenta quando pesca um dos grandes e não quer que ninguém fique criticando o tamanho do seu.

Ando com uma sensação estranha, uma espécie de frio na barriga ou coisa do gênero, como se eu estivesse ouvindo alguns barulhos estranhos, assustadores e pouco reconhecíveis... 13:31, me esqueci de almoçar, será que eu encontro uma lata de atum por aí?

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Desculpem-me

Após passar uma semana revisando textos de livros didáticos em uma escola infantil venho oficialmente por meio dessa pedir perdão a todas as pessoas que forma de alguma forma ou em algum momento foram responsáveis por mim (e também a algumas das que não foram) ou que de algum modo passaram pela tragédia de ter que me aturar quando pivete. E informo também que agora, ainda mais do que antes, não é de minha intenção perpetrar a vilania de estender o legado de nossa espécie e conseqüentemente submeter alguém à barbárie de ter que cuidar de uma criança. E tenho dito.

Ps.: Aproveito também o embalo para registrar o meu repúdio aos líderes mundiais pelo fato de que o Pacto de Versalles não pronuncie palavra alguma sobre um ato tão reprovável.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Frase Red Dragon da Semana

"Já fui bom nisso..."

Se é que ainda existem dragões...
E o mais engraçado é que essa frase pode ser irônicamente aplicada a qualquer coisa.

sexta-feira, novembro 18, 2005

sexta-feira, novembro 04, 2005

Liberta meu pensamento

Para variar um pouco o nada, esta semana eu tenho a impressão de ter acordado de um torpor de anos, não sei o que me deu e nem se já acabou ou se está por aí ainda. Pode ser apenas uma daquelas piscadas que damos durante a noite enquanto dormimos e das quais muito provavelmente ao acordar não nos recordemos. Mas está aqui agora, um lapso de consciência. Um lapso talvez muito produtivo até (assim espero)... Para variar surgiu do nada, mas acho que não foi bem do nada, foi do vazio, daquela dissonância em mim mesmo que eu odeio, aquela que faz eu me sentir transparente, fútil, inútil. Não sei, acho que ontem por algum instante lendo, ainda que apressadamente, uma HQ que nem valia à pena, perdido na tarde enrolado em um edredom sobre o sofá da sala de alguém de quem gosto muito e que agora sinto remorso de ter atrapalhado, ontem, consegui encontrar um pouco da paz que me foi há muito roubada. Não por nada, apenas porque foi um momento de privacidade da minha alma, um momento aonde me senti inócuo, um momento que pôde me mostrar a ausência e determinar a diferença entre a ânsia de ter que fazer tudo e a meditação inconsciente. É isso, um texto provavelmente confuso e mais do que provavelmente vazio de significado para a maioria das pessoas, perdido entre toneladas de terabites de páginas e arquivos, mas que para mim, ao menos agora, parece significar muito. Como já dizia aquele sábio pintor, a arte não está em saber aonde colocar a tinta na tela, mas em saber aonde não colocá-la. Agora torçamos para que este lapso de consciência, que é na verdade um lapso de inconsciência, porque rompeu a não-existência que a minha mente anda cruzando, possa rasgar o véu diáfano da não-existência que enveredou sobre o meu ser ultimamente fazendo de mim apenas uma casca.

terça-feira, novembro 01, 2005

Redshift*

O sonhar está lentamente voltando a ser uma parte lúgubre do inconsciente de onde saiu... e desta vez talvez volte, talvez por um longo tempo, talvez para sempre. Estou cansando de escrever no vento, estou cansado... Foram três anos escrevendo aqui e nas sombras da canção, o que por vezes me fez feliz e por vezes me fez triste, mas nunca me fez tão solitário quanto tem feito agora. Escrever, antes, era um sonho, depois tornou-se uma brincadeira, um elogio a um modo de pensar e a todas as pessoas que partilhavam dos meus pensamentos. Hoje talvez seja a placa de “bem-vindo” encontrada à porta de algum gueto ou a placa de “aberta a temporada de caça” sobre a toca da raposa. Amanhã talvez seja um pesadelo. A colméia, chamada humanidade, não admite sujeitos diferentes e diferente eu sou, intelectuais estão mais uma vez sendo vistos com maus olhos e logo veremos a fogueira arder. Que seja... A verdade? A verdade talvez seja que o meu Ego não suporta os golpes dos últimos dias, maldita mania de querer ser um herói que só me levou a descobrir que o Ego é um ser perigoso. Só sei que nada sei. E que imbecil pretenso eu fui querendo saber o mundo. Talvez seja a hora de ser um pouco mais inteligente e parar enquanto ainda há tempo.


* Redshift - http://www.on.br/glossario/alfabeto/d/d.html#deslocamentoparaovermelho

quarta-feira, outubro 19, 2005

Mais devaneios

Ando me sentindo perdido nos últimos dias. Bombardeado com várias idéias me sinto como o chão da floresta equatorial, cheio de sementes à espera de um raio de sol para me iluminar, aquecer e fazer florir novas idéias. É uma sensação bastante estranha. Fico procurando motivos que a justifiquem enquanto assisto indignado aos reclames do referendo sobre a comercialização de armas, o que me entristece é que as pessoas esqueçam-se de que gatilhos não disparam sem dedos e dedos não se movam à revelia. Assunto chato e cansativo, mas no que me diz respeito, acho que prefiro votar por uma morte rápida embalada pelo cheiro da pólvora que pela agonia de 13 ou 18 facadas. Juro que eu queria ter o argumento final, juro que gostaria de ter uma resposta definitiva para iluminar à todos nós, párias, descamizados e famintos que continuaremos sem ter dinheiro para comprar arroz, quanto mais um trinta e oito. Mas quem sabe um daqueles tios gordinhos que ocupam os assentos do parlamento não tenham uma boa idéia e, tal qual fizeram impedindo a reprovação dos alunos nos colégios, não nos proíbam de morrer? Ninguém mais morreria, os donos de fábricas de armas poderiam continuar vendendo seus produtos e todos seriamos felizes para todo o sempre. Não importa... Já estamos todos mortos. Morremos quando nos fora negado o esclarecimento, morremos a cada dia um pouco quando nos impedem de dar cabo às trevas de nossa ignorância, morremos porque a despeito do que digam a informação é para todos... todos aqueles que possam pagar por ela. Para os outros resta apenas o marketing.

Ah... Cansei-me... Disse que não ia falar sobre isso e acabei dando com a língua nos dentes... Fico feliz apenas porque só consegui escrever quando não tentei fazê-lo. E talvez seja isso, talvez a minha criatividade esteja empedrada por causa disso. Ou talvez não. A única coisa que sei é que no último mês ganhei uma maravilhosa amiga sereia e ontem ela me fez a pergunta derradeira. Disse-me ela:

_O que você perdeu?

E atônito eu respondi que não sabia. Não sabia e continuo não sabendo, mas perdido está... é um fato.

É isso meus amores, agora tenho lição-de-casa para fazer, então me vou. Peço que me desculpem pela ausência prolongada e por não voltar aqui cheio de histórias divertidas sobre as minhas “férias” na Oktoberfest. Mas por hora está difícil e eu ando bastante preocupado com o meu selvagem companheiro Nihil...

sexta-feira, setembro 30, 2005

Perda de Tempo

2:02am, vagam pela casa eu e os espectros da noite. A luz vinda do quarto no final do corredor espalha pelo resto da casa uma tênue iluminação que tinge com tons de amarelo as cores azuladas da visão noturna. Sigo o corredor a passos calmos, alcanço o quarto com os cabelos molhados começando a formar cachos e, numa retrospectiva de falas perdidas por outrem ao longo do dia, penso quanto tempo perdemos ao longo da vida com preocupações fúteis e assuntos menores sem nunca se dar conta disso. Nesse momento roubo uma hora do meu sono já atrasado pela espera de um visitante ausente para redigir essas parcas linhas. Redijo-as para não perder o costume, redijo-as para cumprir uma promessa feita a mim mesmo, redijo como se esta fosse uma carta endereçada ao meu nome. Enfim, escrevo por motivos diversos, mas retornando ao assunto, perdemos tempo com muitas coisas que, de fato, não interessam. É isso, foi só uma constatação, não pretendo perder muito mais sono para explicar o que deve ou não interessar. O fato é que algumas das coisas que quero estão estagnadas a dias por conta das falsas prioridades a que a vida moderna nos impõe.

sábado, setembro 17, 2005

"Home is where your heart lies, they say."

Não sei quem pronunciou essa frase pela primeira vez, nem quem foram os primeiros a propagá-la, mas gosto de pensar, como decerto deve ser, que esta frase surgiu em meio àqueles homens bravios que singraram o azul desde o princípio das coisas. Pode ser apenas ilusão minha, mas essa é parte de minha natureza de pretenso contador de histórias e tecelão de sonhos. Assim, sonhem comigo. Sonhem porque é na ousadia dos homens que seguem em busca do lugar onde o céu toca o mar que mora a verdade. Sonhem porque embora só os sonhos possam ser assim tão belos, não é preciso fechar os olhos para viver pesadelos. Sejam grandes e audazes, mesmo que isso por vezes signifique arriscar o que lhes é mais caro, como tantos homens e mulheres o fizeram antes de nós. "Be bold - and mighty forces will come to your aid" - Basil King. Porque mesmo se estivermos à deriva, mesmo se tudo o mais der errado, o nosso lar continuará sendo o lugar aonde o nosso coração pertence.

terça-feira, setembro 06, 2005

Paradoxos

Tremeu diante do silêncio, pálido como um defunto em frente à tela azulada do computador. Era ali em seu quarto, mas poderia ser em qualquer necrotério aos sons dos pneus distantes atravessando as ruas molhadas pela chuva que passou. Chuva que também poderia ser ali, dentro de casa, dentro do quarto, debaixo de seus olhos e sobre o seu coração. Só compreende a solidão quem dela sofre. Porque só os solitários sabem o que é sentir o coração apertado, enrijecido pelo frio. Um frio que qualquer um poderia calar exceto eles mesmos. Ser só é como morar em uma casa sem paredes e ser açoitado pelo vento que devora as plantas e agride os corpos com pequenos fragmentos de areia. Desejou, ao menos uma vez na vida, compreender o segredo de não precisar de nada nem de ninguém. Por algum tempo talvez até o tenha compreendido, ou assim acreditava. O segredo das crianças com seus amigos imaginários, o segredo dos velhos que falam sozinhos. A noite avançava cada vez mais fria e ele amaldiçoava a expectativa e o sentimento desperto. Se ele transformara seu coração em pedra o que os outros tinham com isso? Não é o princípio de não sentir dor, o de não causá-la? Ao menos a si próprio... Deixem me então esquecer o que é o amor, porque não se sente falta de alguém a quem se desconhece ou de um lugar onde nunca se esteve.

terça-feira, agosto 30, 2005

Siriris

Os siriris dançam lá fora traçando elipses ao redor da lâmpada que ilumina parte do quintal. E eu que não sinto exatamente fascínio pelo frio fico feliz pelo dia quente que passou. Vou contar uma coisa, é que eu adoro verão. Sim eu adoro, mesmo sabendo que o inverno só acaba daqui a uns vinte e poucos dias, mesmo o dia tendo esse ar de artificialidade, mesmo estando tão abafado que eu mal consiga ouvir meus pensamentos tamanha enxaqueca que esse calor me trouxe. Os dias andam bons, repletos de conversas agradáveis com grandes amigos, o que tem me deixado muito feliz. Coisas de cancerianos...

segunda-feira, agosto 29, 2005

Às mais belas flores

Algumas coisas são mais surpreendentes do que deveriam. É estranho não reconhecer a beleza rara de uma flor. A delicadeza plácida e até um pouco vulgar das pétalas, o modo como elas se atam às sépalas, seus pistilos longos e delineados, o sabor intenso do néctar, o aroma exuberante, as cores vibrantes... Nenhuma flor é igual a outra. Não, cada botão é único em sua pequena existência e a cada florada novos botões abundam sem nunca se repetir.

Eu costumava comprar flores... Grandes gérberas alaranjadas e, às vezes, botões de rosas com suas aveludadas pétalas vermelhas. Foi a um longo tempo, se foi. Eu adorava a situação como um todo de ir até uma banca de flores e escolher lentamente o botão perfeito. De sentir a umidade vinda dos vasos e o cheiro das flores no ar, de ver o florista trabalhar acertando o comprimento do caule e limpando-o dos acúleos. De andar pela rua levando o botão solto e fresco e do olhar poético que as pessoas lançavam sobre mim. E quando chegava ao meu destino eu adorava assistir aos risos florescerem, encantadores, sinceros, profundos, inesquecíveis, únicos.

domingo, agosto 21, 2005

Vômito

Então eu tento fechar a minha cabeça para que as idéias não escapem, não fujam ou se misturem com as outras coisas ao meu redor. Como se todas as coisas no meu quarto fossem pintadas em tinta a óleo e a qualquer momento que eu toque ou olhe para qualquer coisa isso possa se misturar as minhas idéias. Não quero, ou melhor, não posso, não agora pelo menos. Tenho algo importante a pensar, a escrever. Digito olhando para o teclado para não ver absolutamente nada ao meu redor que possa me desconcentrar.
Tudo começou ontem à noite. Fui a uma festa de noivado muito legal de uma amiga minha da faculdade, que me arrependo de não ter conhecido antes, assim como a todas as pessoas com quem atualmente eu falo por lá. É como se depois de todos esses anos o curso tivesse separado o joio do trigo e agora eu possa encontrar pessoas que são como eu. Isso é adorável, embora não queira dizer necessariamente algo além disso. São pessoas como eu sou, nem melhores, nem piores do que as outras pessoas. Na vida carecemos ter pessoas diferentes assim como carecemos ter pessoas minimamente parecidas conosco. Mas às vezes o manto da igualdade esconde diferenças estarrecedoras. Enfim, o meu leitor que me perdoe o raciocínio tortuoso, é que quando passamos por um período de estiagem criativa, nós escritores, temos acessos nos quais vomitamos todas as idéias que nos vêm à mente, tudo o que pensamos, tudo o que sentimos; acessos que queremos, desejamos, precisamos grafar de qualquer modo. Para mim, hoje é um desses dias.
Como eu ia dizendo, ontem fui a essa festa em uma tradicional balada rock n’ roll paulistana. E sob a sensação hospitaleira da fraternidade não consegui evitar me sentir um pouco deslocado por estar entre várias pessoas que conheço a pouco tempo. O que mais uma vez me obriga a interromper para pedir desculpas, pois o fato de serem novos amigos não os diminui de modo algum. A admiração mútua, o tratamento afável que se estabelece entre todos nós é de todo respeitoso e sincero, o que me comove bastante a despeito do fel. O fel é apenas um desconforto fútil que sinto, semelhante a começar um livro pelo seu último capítulo. Como assistir ao final de uma peça identificando-se a um Hamlet cuja paixão se desconhece. É o grito agonizante de alguma sinapse esquizóide em meu cérebro.
Não sei se vocês compreendem o que tento falar, entendo que as sucessivas interrupções narrativas a que eu vos submeto evidênciam o tão pernicioso assunto. Eu falo sobre o medo. Maldito medo que me persegue noites a fio, sombra longilínea que se estende a partir dos meus pés. Queria entender quem me infundiu todo esse medo. Quem... Eu mesmo talvez, tendo me submetido a meia dúzia de relações espúrias que me fizeram apenas mal. Agora eu medro toda vez que recebo um olhar afetuoso, esperando um golpe de chave inglesa por cada sorriso. Não compreendo a mim mesmo. Tenho, às vezes alguns delírios de entendimento, pálidas idéias que não conseguem refletir a realidade. Realidade... E o que é a realidade senão um status mórbido criado por cada um de nós para convenientemente simular o meio e justificar aos nossos atos, a nós e aos nossos imensos umbigos.

terça-feira, agosto 16, 2005

Tum-tum

Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Os latidos dos cães ecoam noite adentro pela vizinhança.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Sem sono... de novo. Fico deitado observando as fotos antigas no mural do outro lado do quarto.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Faz tempo que não o organizo ou a qualquer outra coisa dentro do meu quarto. É como se ele houvesse parado no tempo há um ano, um ano e meio.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Viro para o outro lado e olho a parede. O sono não vem.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Fico olhando a textura da parede, não consigo dormir. Meu coração bate muito alto.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
A minha mente passa por um milhão de coisas sem se fixar em nenhuma, eu fico ouvindo o meu coração bater e bater e bater e me pergunto o que está errado.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Um pernilongo tenta se aproveitar da minha distração, eu logo ligo o veneno no quarto.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Fico com sede, levanto, vou até a cozinha, tomo um copo d’água e na volta vejo o relógio. Faz quase uma hora desde que me deitei e até agora nada, nem mesmo uma boa idéia para escrever. Acho que o tempo que eu tenho passado sozinho está começando a me afetar. Olho admirado para as últimas linhas e me surpreendo como um simples copo d’água faz as linhas correrem mais depressa.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Um gato de rua começa a miar no quintal e o meu cachorro acorda, os latidos deixam de ser apenas ecos; o pernilongo continua vivo em algum lugar.
Sinto que não consigo ter nas pessoas a mesma confiança de antes, não sei por que. Muitas coisas, a falta de escrúpulos da grande maioria que acha que você não nota, pessoas de quem gosto desaparecendo subitamente, opiniões duvidosas.
Silêncio.
Os carros pararam de passar, o gato se foi, meu cão voltou a dormir e os ecos quase cessaram. O meu coração? Parece estar batendo mais rápido e quieto, saudades de alguém que partiu há muito tempo.
As pontas dos meus dedos adormeceram, faltam seis minutos para as 3:00 e parece que a noite vai ser realmente longa.

terça-feira, agosto 09, 2005

Explosão criativa

Os canos secos desde muito tempo não viam água outra senão a da extensa umidade da parede. Um dia foram canos de sistema anti-incêndio outro dia cultivo de ferrugem. O teto baixo e o ar viciado não tornavam o lugar agradável, um lugar perdido, esquecido pelo tempo entre paredes de uma megalópole, abaixo de um prédio qualquer em uma rua qualquer em lugar nenhum. Poças d’água cobriam o chão de concreto criando um espelho perfeito do teto e das paredes cheias de brechas, refletindo um pouco da luz do céu e de uma grande nuvem branca perdida pelo lugar. Mais acima, o edifício abandonado tecia a sua viagem através das décadas, um bloco de cimento com paredes podres, tinta descamando, toneladas de umidade e mofo incrustado na cidade. Ele poderia estar absolutamente sozinho por todo esse tempo, mas ainda assim estava vivo. Comunidades de insetos, fungos, uma samambaia que morava em um buraco nos tijolos, onde um dia esteve fixada a calha, e agora, mais recentemente um homem que acabara de entrar. Ele fechou a porta atrás de si deixando a rua presa do lado de fora e começou a procurar o registro. Verificou se tudo estava em ordem. Removeu o pastoso calhamaço de papel formado pela correspondência velha enfiada por baixo da porta e começou a subir a escada até o andar de cima. Subiu, subiu, subiu os degraus gastos por centenas de pés que ali passaram parando apenas por um instante quando a nuvem cruzou com o sol a luz diminuiu por um instante. Voltou a subir pisando em duas traças que dialogavam amistosamente na curva de outra escada que contornava o prédio por dentro, atravessou uma cozinha vazia e deu com a porta que levava para a varanda exterior inchada pela ação da chuva. Forçou-a e abriu com alguma dificuldade. No exterior havia ainda mais uma escada íngreme que escalava o topo da construção, levando até uma sala extensa e desabitada. O tempo já havia virado, começava a garoar e as gotículas d’água dançavam pelo ar. Parou à porta já do lado de dentro da sala e observou o mundaréu de telhados e antenas de televisores. Ouviu o barulho dos carros que ainda conseguia chegar até ali, embora um pouco abafado, e fechou a porta como se houvesse uma nevasca do lado de fora. Na sala o chão de cimento liso adquiria tons róseos da luz de um filtro vermelho envelhecido preso à janela. Caminhou pela sala funcionalmente amorfa e tentou usar uma pia perdida por ali. Houve primeiro um som agudo e estertorante vindo da torneira, um pouco de vento, um silêncio e a reverberação de dezenas de canos de chumbo balançando, vibrando, agonizando e gritando com um silvo longo do vazio de anos. Era como ser atingido por uma extenuante dor de cabeça em um momento de gozo. E lá embaixo já vazando água pelas juntas o cano arrebentara...

quarta-feira, julho 27, 2005

He Wishes For The Cloths Of Heaven

He Wishes For The Cloths Of Heaven - William Butler Yeats (1865-1939)


Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet ;
Tread softly because you tread on my dreams.


O poema que eu mais amo no mundo...

segunda-feira, julho 25, 2005

E um novo dia virá...

O casarão legitimamente português quase do começo do século continuava a sua trajetória através do tempo. O sol brilhava, a tinta de suas paredes externas descascava e, gradualmente, perdia a cor. Era um dia bem quente para um inverno paulistano e nenhuma nuvem cobria o céu que era surpreendentemente azul de ponta a ponta. Todas as coisas estavam cobertas por aquele brilho bem claro da luz da manhã. A casa quente estava toda aberta como dos derradeiros dias de verão. Eram 9:00 horas.
Ele havia acabado de acordar. A luz invadia o quarto pelos frisos da janela fechada. Ele esfregava os pés um no outro por debaixo do lençol e com um leve sorriso no rosto pensava em um café bem ao estilo dos comerciais de margarina. Não precisava de paredes e roupas brancas ou da família toda reunida na mesa, só queria um pão na chapa bem quente e cheio de manteiga, sim, manteiga de verdade, nada de gorduras vegetais e aditivos químicos bizarros, apenas as coisas como elas deveriam ser naturalmente, sem complicações adicionais. A vida pura e simples como ela pode ser... Um pulo do beliche, alguns instantes procurando por uma camiseta no armário e um dia novo pela frente. Atravessou um corredor e a sala vazia parando apenas para ligar o rádio e constatar que estava sozinho. O som alto ecoou pela casa e o rock clássico dos anos 80 realçou seu entusiasmo fazendo-o lembrar das antigas fitas K-7 que suas irmãs levavam para viajar quando criança. Por um instante o sol brilhou mais forte e uma brisa iniciou um farfalhar de folhas, o céu reverberou mais azul e o verde das folhas tornou-se infinitamente mais verde. Alguns instantes em frente ao fogão, um copo de leite e estava pronto o seu café alto-astral. Juntou os pães sobre um prato, pegou todos os utensílios de que precisaria e com as mãos cheias atravessou o corredor de volta à sala onde o lilás de uma orquídea sobre a mesa em seu centro invadiu os seus sentidos. Naquele breve instante em que ele se fez confuso, mãos delicadas cobriram-lhe os olhos e o cheiro dela preencheu seus pulmões. Seu coração disparou e a surpresa se fez completa.

segunda-feira, julho 18, 2005

Registro Geral número...

Estou com algumas idéias bem legais para escrever, mas descobri que às vezes inspiração não é o bastante. Não sei, ando me estranhando. Ando triste, preocupado com zilhões de coisas que talvez não sejam nada, mas o que acho estranho é estar curiosamente sereno. Não o tempo todo, mas quando necessário ao menos. É verdade, estou até espantado, de repente é como se não fosse mais eu... Tem horas que você deixa de tentar ser para ser simplesmente ou ser apenas. O segundo é o meu caso. Será que a serenidade vem da falta de expectativas? Será que isso é bom? Será que não? Odeio quando os dias passam a ser apenas uma seqüência de tempo vazia, sem significado.

segunda-feira, julho 11, 2005

Pesadelo

Pare e esvazie sua mente.
Feixe a porta que separa a sua consciência do mundo exterior deixando todos os sons do lado de fora.
Respire devagar e profundamente por três vezes.
E só então leia.

Imagine o terror de acordar de um pesadelo que te assombrou a noite toda. Uma noite azul, escura, quase negra e fria... Absolutamente fria. A respiração ofegante, o suor frio a escorrer salgado sobre a face depositando-se em suas sobrancelhas a ponto de fazê-las pesar mais que o mundo. Um pesadelo que te fizeste correr o céu durante a noite toda, dilacerando teus pés descalços em um chão metálico de pontas de agulhas partidas, molhadas e frias raspando teus ossos. Uma corrida interminável e tão agitada quando o desespero dos últimos grãos de areia de uma ampulheta tentando não cair pelo buraco. Imagine o cansaço queimando os pulmões como se eles estivessem repletos de ácido invadir o teu corpo, aquele mesmo cansaço que surge diante da exaustão, que salga a boca por baixo da língua e que traz à tona a vertigem. Imagine o céu girando em falso sob os teus pés e deixando-te imóvel na estratosfera enquanto chega a aurora. Os primeiros raios de sol despontando no horizonte revelando a silhueta distante daquilo que tu persegues, raios que irão queimar-te antes que o alcance. Raios estes a mostrar que tu passaste a noite toda correndo senão atrás de você mesmo como o cão corre bobo atrás do próprio rabo. Imagine acordar, sentar na cama gelado enquanto alguém se aproxima a passos lentos, assistir inerte e cansado a esse alguém se declinar aos teus pés e ser flagrado por um tênue facho de luz no instante em que se abaixa revelando que é você. E que seja o que for, pesadelo ou realidade, ainda não acabou.

sexta-feira, julho 08, 2005

Animaniacs

Tá, os meus textos andam péssimos comparados com os de novembro/desembro de 2004. Eu preciso sentar e escrever com calma, mas enquanto isso não acontece olha só o que a gente encontra depois de uma inocente busca por fotos dos "Animaniacs" no google:

http://www.gandalf23.com/LoAPictures1.html

O destaque, é lógico, é para a foto intitulada Animaniacs... mas a dos Scuds também é ótima.

Divirtam-se!

quinta-feira, julho 07, 2005

MAC

Dizem que em nenhum outro lugar faz o clima de São Paulo... Talvez em Londres, mas acho que não ou então alguém já teria dito isso, talvez no inferno... Hora garoa e esfria, hora chove e esfria, hora simplesmente esfria. Enfim, está um frio dos diabos. Estão dizendo que hoje irá fazer 3 graus de madrugada e quando era 15:00 eu já estava na rua congelando. Precisei ir até a faculdade buscar um documento, feliz da vida por atravessar a cidade com esse frio todo. Não reclamo por ter de sair de casa, foi bom. Já estou cansado dessa vida de tartaruga de aquário. E foi tão bom que eu até aproveitei para corrigir uma falha de quatro anos de idade. Fui ao MAC ver a exposição do acervo. Da minha parte posso dizer que me diverti muito, da parte da minha companhia... que companhia? Os guardas do museu também se divertiram bastante. Com a exceção de meia dúzia de pessoas sentadas em um canto conversando, de um senhor estrangeiro em uma cadeira de rodas e de uma garota tímida e lindamente vestida com uma jaqueta vermelha de veludo, uma saia um pouco abaixo do joelho e uma sandália combinando, tudo em um estilo meio anos 60, eles não devem ter visto mais ninguém o dia todo. Deve até ter sido o dia de sorte de um deles, tivemos uma conversa de uns 10 minutos que eu devo dizer foi a mais agradável conversa que eu tive nos últimos dias. Nunca vi um segurança tão animado, caloroso e simpático. Fazia muito tempo que eu queria ir a uma exposição, pena que o MAC seja um dos poucos museus que não se paga para entrar.

quinta-feira, junho 30, 2005

Análise político-sintática

Eu gostaria que isso não parecesse um conto, até porque eu sei que em pouco tempo é o que vai parecer. Mas creio que não há muito que eu possa fazer à respeito. Peço que todos os atores, autores, teatrólogos e afins me perdoem, mas quando assisto uma notícia sobre política no jornal tenho a verdadeira impressão de estar no teatro. Eu sei que é injusto dizer isso, o teatro realmente não merece a comparação com algo tão vil quanto à política, mas é que de novela o povo gosta e talvez, por isso, de política também. Talvez seja pela onipotência da trama, dos personagens... Eu realmente não entendo, mas também não me preocupo, sei que o povo está bem representado no parlamento! Temos lá deputados que passam fome, senadores que moram em favelas, legisladores que vivem de salário mínimo e cujos filhos menores trabalham em carvoarias no cerrado, temos também larápios e mentirosos. Quem não mente não é mesmo? E para os casos explicitamente destoantes não há nada que uma renúncia não corrija... Enfim, deixemos de lado as ovações quanto há ocupação tão nobre e vamos ao conto! Digo ao caso!

Estava eu tranqüilamente almoçando e assistindo ao jornal, um dia desses na semana passada e veio a estarrecedora notícia: O site do partido do presidente (que todos sabemos trata-se de uma organização pública e governamental) acusava a oposição de golpista. Estava armado o escândalo, a mídia logo começou a apurar aos fatos e a entrevistar alarmados representantes dos partidos de oposição no planalto. O primeiro representante logo disse: “É sabido que nosso partido nunca participou do golpe neste país, para tanto, basta apenas observar a história. Sempre fomos contra o golpe!”. O representante do segundo partido logo esbravejou: “Não sabemos de golpe nenhum, se o governo afirma que somos golpistas o governo deve mostrar as provas!”. O representante do terceiro partido pronunciou-se com toda a autoridade: “Golpe? Queremos saber a qual golpe que o governo se refere! O governo precisa dizer de qual golpe está falando”.
Sabe, na qualidade de estudante de língua portuguesa me reservo o direito de continuar odiando sintaxe, mas eu ainda adoro a parte sobre as ambigüidades!

sábado, junho 25, 2005

Vermelha

Vermelha.
Perfeitamente vermelha escura.
Deslizara pelo branco aveludado, lentamente, ora atrasada pelos pequenos pelos, ora correndo mais de pressa até a borda onde se debruçara com um brilho vivo, intenso, furtivo, balançara, pulsara, pendera e caíra. Viajando por centenas de longos instantes pelo ar, perdida, redonda e vermelha.
O tempo parara. Algumas vezes pestanejava, caía em um sono longo, etéreo e instantâneo, visitava pradarias, bosques, montanhas e ia muito além. O cheiro de madeira invadia as narinas, as extremidades do corpo reclamavam frias, as mãos ásperas falhavam, vacilava... E o sono perseverava mais forte que tudo, disputava, tentava acordar, piscava forte contra o sono dos justos. Às vezes um raio de luz refletido no copo de vidro que ia e voltava saltando os frisos do assoalho de madeira alcançava a gigantesca pupila dilatada que não precisava mais esconder-se atrás da pálpebra para sonhar. Alçara vôo sobre dois mundos. De súbito todas as cores ganharam um brilho forte, sobrenatural, como se a tinta do quadro borrasse em milhares de tons impressionistas. Não havia mais extremidades e cada cor era feita de milhares de outras, estava dentro de um quadro. Em um átimo de segundo sentiu-se finalmente livre, o corpo parou de lutar, os músculos cederam, a consciência deu lugar à inconsciência.
Acordara bruscamente com o estardalhaço. Eram milhares de gotas vermelhas a surgir da derradeira que despedaçara-se ao encontrar com a água, multiplicando o impacto e o efeito do vermelho vivo diluindo e desaparecendo no líquido transparente. O estrago já havia sido feito. O vermelho escorria sobre o cavalete e o chão misturando o seu forte odor ao do vinho. A tela branca possuía agora manchas produzidas por um efeito errático. Rorschach.

segunda-feira, junho 20, 2005

Conhecendo gente pela net

Hoje notei uma coisa a meu respeito com a curiosidade de um pássaro que nota que as folhas das árvores são verdes. Eu sou um desses raros casos de pessoas que não conheceram ninguém pela net. Pois é, sou obrigado a confessar com a impressão de que deve ser essa a mesma sensação de um pescador que nunca viu o mar:
_O que? Azul? Azul e grande?? Azul, grande e até o lugar onde o horizonte alcança o céu???
E eu:
_Assim? Completamente estranho, alheio e desconhecido???
Nunca. Nem ao vivo, nem a cores, nem por e-mail e nem por pulso telefônico, quem dera por carta registrada. Não houve MSN, Orkut ou afim que realizasse tal tarefa hercúlea com êxito, nunca deu certo. Aliás, isso é mais que estranho já que tenho amigos realmente bons nisso, alguns beirando o profissionalismo, atravessando barreiras alfandegárias, fusos, meridianos, quiçá planetas.
As Minhas melhores tentativas (diga-se de passagem, já bem caducas) foram em alguns Chats. Algo quase que pré-internético. Lembro como se fosse ontem daqueles dias da aurora da net, eu passava as noites na casa de alguns amigos e olhávamos espantados pela janela do apartamento um dos vizinhos atravessar a noite debruçado no teclado, provavelmente em algum Chat. Algumas vezes disputávamos o computador, tudo por essa chance dourada de encontrar alguém. Parecia algo milagroso como se equilibrar vendado num monociclo com um pedaço de bambu sobre uma linha telefônica de um lado a outro da rua guiado pela voz de outra pessoa (na verdade nem a voz) ou como mandar uma mensagem numa garrafa e obter uma resposta. Tentei uma dúzia de vezes quando me senti sozinho em casa chegando perto de manter algum contato regular com alguém umas três ou quatro vezes. No fim aquelas que não frustraram frente a alguma ideologia fundamentalista dos candidatos caíram por terra junto à conexão telefônica. Depois disso desisti por um tempo e nunca mais cheguei a tentar com tanta seriedade.
Agora ando tentando novamente com a disposição de um radioamador transmitindo em CW (Morse), às vezes tenho a impressão de que sou demasiadamente estranho para que isso dê certo, às vezes me pergunto quem não o é... Talvez seja só falta de sorte, ou talvez meu estilo seja apenas old fashioned... Hoje conversei pela primeira vez com uma garota simpática que acabei de conhecer no Orkut, até comentei sobre essa minha característica. Ela me disse que conhecera a maioria de seus amigos pela Internet, foi um momento engraçado, como se o último Neanderthal encontrasse o primeiro Homo Sapiens. Quem sabe amanhã ou depois não conversaremos de novo?

domingo, junho 12, 2005

Inconsistência

Hoje, por alguns momentos logo que me levantei, quase não me lembrei ser o dia dos namorados. Dia dos namorados... hunf... Acho que absorvi as idéias de uma velha amiga minha contra esse dia. Foram alguns poucos instantes de felicidade até me lembrar do dia de hoje e exercer o meu humor tipicamente canceriano.
Não é um dia muito bom esse, me faz lembrar de outras dessas datas que se restringem a fatos, como aniversários de namoro. Um dia eu gostei muito de aniversários de namoro, não por pieguice, apenas por que me divertia com isso. Hoje adquiri um certo pavor da idéia, não gosto nem de pensar no assunto porque algumas pessoas vêem essas ocasiões como doença, vislumbre... e porque não dizer como gnomos? Sim, gnomos, frutos de uma imaginação fértil em busca de uma manifestação encantada da realidade... essas coisas que satisfazem perguntas sobre quem somos e de onde viemos e sobre as quais as pessoas tem uma obsessão. Pessoalmente prefiro não dizer o que penso sobre gnomos, já tive minha cota deles na vida, nada contra, apenas prefiro pensar em ações físicas e mais ordinárias para resolver os meus problemas. Acho que isso me matou o gosto por essas ocasiões, essa capacidade humana de enxergar “o mal” em tudo que existe, que mesmo quando ignoradamente manifesta sempre se vê um fundinho lá no canto dos olhos (e da qual, infelizmente, eu também não sou isento).
Quando eu penso no dia dos namorados não consigo um bom motivo para comemorá-lo, embora eu não adore a cultura estadunidense, penso que o Valentine’s day é melhor nisso, pois ao comemorar também as amizades acaba sendo uma comemoração do afeto humano. De qualquer forma não estamos nos EUA, eu só devo ver os meus melhores amigos daqui a uns quinze dias e as minhas tentativas de aumentar o meu número de amizades tem sido no mínimo frustrantes. E pensando diretamente no assunto, eu sou impossível de se namorar, as pessoas consideram meus gostos estranhos, minhas idéias chocantes, meus atos provocantes. Lembro até de uma garota que me disse que eu sou melhor amante do que namorado. Acho que ela esta certa, sou melhor diversão para uma noite do que para um inverno. Moral da história o dia fica assim, com essa cara estranha, uma espécie de lembrança ridícula da quantidade de relacionamentos malfadados que tive (aos quais somam-se numerosas amizades) e da minha inconsistência como objeto de namoro. Eu nem sei porque ainda fico me lembrando disso já que vai ser só mais um dia trancado em casa no computador, o que acontece todos os dias...

quinta-feira, junho 02, 2005

Mea culpa

Olho para o lado e vejo no mural um recado que anotei com uma letra tão alegre e falsa que não consigo crer na minha hipocrisia, um convite para um lugar aonde eu não quero ir, encontrar pessoas que um dia foram muito importantes para mim e hoje não passam de nomes em uma agenda. Mas dei minha palavra que irei, e a minha palavra continua sendo algo muito importante para mim. Acho que isso deve alegrar um rosto ou dois, mas quando penso nas minhas razões para estar lá não consigo conceber nenhum motivo realmente decente.
Chame de rancor, chame de decepção, chame de abandono, chame do que quiser, não me importo. Já me importei muito e por um tempo longo demais, naquela época ninguém se importava. Hoje eu não quero mais, me tornei outra pessoa, embora o que eu sinto e estou preste a escrever nunca tenha mudado.
Chamem-me de cão raivoso. Chamem-me porque ladro, não consigo aceitar o abandono, nem negar o ódio que sinto por permitir que aqueles que amo tenham um dia me machucado.
Chamem-me de teimoso porque eu não consigo dar novas chances para aqueles que me abandonaram um dia. Porque não consigo dar outro nome a isso senão traição. Embora machucados aconteçam, mesmo sem querer, há feridas que não cicatrizam, como a traição de um amigo.
Sinto-me pequeno por tudo isso e culpado porque, apesar do crime não ser meu, não sei se posso perdoá-los; embora eu acredite ser capaz, não consigo dar uma nova chance para ser apunhalado. E seria isso perdoar? Confiar desconfiando? Ou seria estupidez esperar encontrar a redenção onde ela pode não existir?
Minha estupidez me envergonha, assim como a minha falta de confiança em que eu possa ser forte e sábio para passar por tudo isso sem cometer o erro de atribuir as pessoas valor outro que não o seu real.

segunda-feira, maio 30, 2005

Passagem rápida

Pega a moto, põe o capacete, dirige alguns minutos vê alguns amigos...
Passa algumas horas, termina sem demora, sente o gosto e a saudade...
Termina, sente falta, acaba, volta, acorda, enrola, pisca, passa a hora...
Sai a chuva, raia o dia, olha lá fora o frio que se enrosca aos artelhos...
Passa a manhã, tarde, noite, passa dias, vontade, fúria, paixão, vazio...
Vazio, vazio, vazio...
Passa triste, a sós, baixinho, devagar, devagarinho, só naquele instante...
Naquele ocasional instante que alguém convencionou chamar de vida.

quarta-feira, maio 25, 2005

Seria tudo isso apenas brincar com demônios?

A água corria por entre as telhas e gotejava no forro velho carregado de cupins. Além do barulho, arrastava o pó de anos e descia escorrendo pelas paredes marcando-as com tons amarelados e marrons. Havia passado das sete horas há não muito tempo e a chuva que durara a noite toda não havia cedido um milímetro sequer. O assoalho trepidava com os ônibus a passar pela rua e o sono já se debatia tentando abandonar o corpo. Como era de praxe, ele mexera-se muito durante a noite e os pés frios tentavam insistentemente encontrar alguma parte do cobertor para esquentarem-se sem chutar de forma estúpida a gata para fora da cama. Poucos dias haviam se passado desde que fora demitido, mas o tempo já havia começado a jogar seus jogos e ele não fazia idéia de que dia era aquele. Tateou o criado mudo acordando irritado com as goteiras que o lembravam das contas para vencer e praguejou algo contra o mundo. Encontrara apenas a caixa vazia do antidepressivo que havia acabado meses atrás quando teve que optar entre as contas que podia pagar. Péssima idéia, pensava ele agora.

sexta-feira, maio 20, 2005

Paisagem

Contemplo o vazio na ausência do som dos carros. Algumas pessoas vão passando devagar, atravessando a paisagem distante, caminhando daqui para ali, pequenas, tal qual formigas. Sentadas, duas moças dividem comigo o extenso tapete verde que a grama forma atrás do prédio da reitoria onde, ocasionalmente, erguem-se algumas árvores em direção ao céu. As cores vão mudando lentamente, as sombras vão tornando-se penumbras e a lua vai subindo para o azimute enquanto a luz mingua. Pouco a pouco o cenário vai mudando e eu tento capturar essa imagem em minha mente com a futilidade de quem constrói um castelo de areia disputando espaço com as ondas na ponta da praia. Enquanto isso, alguns carros trafegam já com as luzes acesas, os alunos vão chegando lentamente para o turno de aulas da noite e alguns pássaros cantam e brincam. O silêncio é arrebatador. Não o simples silêncio que se deita sobre este lugar mais calmo, mas o silêncio da ausência de vozes conhecidas, das gargalhadas esquecidas e das amizades ausentes. O sol de súbito faz um último esforço no final da abóbada celeste para tingir de amarelo o gramado refletindo-se nas nuvens. Não sei, não sei mais se é de amarelo ou laranja, nem sei se é no outono que estamos ou que dia é hoje. Hoje é só mais um dia qualquer, igual a todos os outros dias. Os dias são iguais há muito tempo e se eu não soubesse que estou aqui, já não saberia mais nada. As luzes dos prédios começam a pipocar entre as janelas dispersas e daqui a pouco a luz do dia terá partido completamente me deixando sem ter como escrever mais hoje. As letras irão embasando, ao papel se misturando e pouco a pouco o silêncio se fará completo.

quarta-feira, maio 11, 2005

Ops... parece que é a minha vez...

Antes de soltar o texto uma pequena explanação: hoje foi meu último dia de trabalho no Sub e essa foi a carta que escrevi para me despedir de todos por lá. Nos próximos dias acredito que vocês assistirão a atualizações mais freqüentes, já que uma das coisas que estava dificultando isso era o fato de terem bloqueado o blog no meu antigo trabalho. Assim, deixarei maiores considerações para mais tarde, por hora, divirtam-se com a carta, que eu acho, ficou muito legal. Segue o texto:


Assunto: Ops... parece que é a minha vez...

Olá,

Lembra de quando éramos crianças, no colégio, correndo pulando e brincando? Daquela vez que íamos apresentar aquela peça de teatro e você perdeu a deixa para entrar no palco? Pois é... essa é a minha deixa. É hora de deixar as luzes do palco.

Pouco mais de um ano se passou e foi um ano e tanto. Tantas novidades, tantas amizades, tantas coisas e tão rápido... Mal o luzeiro do céu deitara e se levantara, era ainda ontem, quando eu entrei por aquele portão cheio de guardas, em um terno preto, para a entrevista. E logo após isso veio o primeiro dia, o dia que começou comigo sentado na copa esperando a minha nova chefe chegar e terminou sobre uma mesa vestido com aquela roupa estranha ao som de Conga. Não foi há muito tempo, o primeiro de tantos dias em que sentei eu e a minha pena no meio da passagem no Comercial e escrevi sobre aqueles sonhos que os homens projetam sobre telas. Nesse meio tempo houveram demandas diversas, empreitadas em feiras de anime, houveram dias etiquetando brindes, textos para a loja de bebês e quebra-galhos em e-mails do marketing. Houvera até aquela vez em que me vesti de mergulhador para um certo trabalho de graduação e uma divertida entrevista de onze páginas para o jornal. Mas nem tudo foi trabalho, foram almoços no Seiva, no Wall e no West, pasteis até, teve até petit-gateau! E as barras de chocolate que escondemos do Tuba por muito tempo! Você se lembra?

Espere... você ouviu? É a minha deixa de novo! Já estou atrasado e ainda nem falei nada, não disse sobre tudo o que aprendi e, mais importante, sobre os amigos que ganhei e, espero, levarei comigo para a vida. Sabe como é, não sou bom com essas coisas de despedida, já estou nervoso, trêmulo, erro os toques no teclado. A respiração falta, fica presa lá no fundo do peito e os olhos marejam.... se quer enxergo as letras borradas...

Perdoem-me a emotividade... já não consigo mais escrever...

Deixarei, na minha boca, que o canto das palavras de outro poeta terminem o ato. É chegada a hora... obrigado a todos por tudo e até breve...

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Morais in livro de Sonetos)


Ps.: Escreva-me!

quinta-feira, abril 28, 2005

Nunca subestime a capacidade de um ser humano em ser um filho da put4

Pois bem, creio que há um longo tempo seja de domínio público o fato de eu estar odiando o meu trabalho. Digo estar odiando e não odiar, pois houve um tempo em que eu o amava e que, a despeito de eu não acreditar que isso possa algum dia voltar a ser assim, ainda considero o caráter deste sentimento transitório. Isso tudo se deu por aquele tipo de mudanças que mexem com as pessoas, mudando regras, acordos e rotinas já estabelecidas em prol do lucro. Lógico que essas mudanças terão um impacto positivo sobre os trabalhos da empresa há médio prazo, mas geralmente esse é o tipo de coisa que despreza o bem-estar dos funcionários. E é nessa situação em que me encontro, agora realizo o trabalho que antes era feito por duas pessoas e sendo um estagiário, não realizo o que me era mais caro, aprender algo novo. Em lugar disso, copio as informações das embalagens de diversos produtos para o sistema em uma espécie de linha de produção que poderia usar crianças de 7 anos ou macacos sem qualquer defasagem qualitativa dos trabalhos. Depois de vários dias trabalhando sem o menor gosto consegui fazer algum estrago na cadeia produtiva e por isso acabei ouvindo muito, desesperando algumas pessoas, recebendo uma ou duas ameaças e não mais do que isso. Mas sei que esse tipo de comportamento, além de não me ser agradável, não irá me levar há lugar algum. Então nessa maldita manhã gélida de inverno, que embora seja outono, ninguém consegue me dissuadir do contrário, logo após o final de uma pequena brincadeira de “cabo de guerra” com relação a alguns problemas no trabalho, dei-me conta de algo. E antes de explicar-vos esta primorosa idéia, faz-se necessária uma pequena explicação. Eu não possuo uma religião vigente e os meus escrúpulos devem-se apenas há anos vivendo sob um certo código de honra que me é bastante caro. E embora eu seja uma pessoa direita, estou tão longe de ser um parvo quanto de ser um santo. Acontece que o ser humano é como uma ave Cuco, que espera uma outra ave sair do ninho para devorar-lhe os ovos e, no lugar, deixar os seus para serem criados pelo outro. E é aproveitando-me disso que começarei um plano diabólico. Hoje transformo o meu desgosto no espírito da vingança. Valho-me de uma certa incompetência de nossos parceiros de trabalho para tanto e da natureza caótica do ser humano. Só existe uma coisa pior do que um funcionário ruim, um funcionário bom... e obcecado. Pois um funcionário ruim pode ser demitido, enquanto um funcionário Caxias é perene e intocável... e ambos são bastante incômodos. É assim que irei tornar maldita a existência de meus “colaboradores”, em cada um de seus deslizes eu estarei lá para lhes apontar as falhas, transformarei o meu trabalho na execução do Santo Ofício e dedicarei os meus esforços na perseguição daquela preguiça pública humana até levar-lhes a loucura ou obter a redenção. Já posso vê-los tremer ante a minha presença e desviar seus olhares nos corredores. Posso ouvir seus lamentos a cada e-mail meu recebido e suas suplicas para que eles parem de chegar. Pilhas de requisições malditas e trabalhosas em nome daquilo que alguns chamam “Qualidade” e outros “Transtorno Obsessivo Compulsivo” suceder-se-ão junto ao deleite do estalar do chicote. E a cada noite suas preces objetarão a mim, implorando para que eu vá embora. Que eles me amaldiçoem, me chamem de nomes, que me desejem distante e assim, o que é cômodo tornar-se-á incomodo e mais depressa do que eles me jogaram aqui neste inferno eles hão de me dar o que desejo: A promoção.

quinta-feira, abril 14, 2005

E você? Sabe qual foi o crime do Padre Amaro?

Para ser lido ao som do reclame de Azeite Galo.

Este é uma curta demonstração de indignação frente a um professor com idéias absurdas e uma ode a um almoço muito agradável. Conversar com o Buck sempre é muito bacana, a conversa flui, a criatividade também e eu sempre acabo tendo novas idéias para escrever. Eu estava justamente comentando com ele o absurdo que é o meu professor de Literatura Portuguesa I aplicar provas de controle de leitura. Isso mesmo, aquelas provinhas que os professores davam para a gente no finado primário, conhecido hoje como Fundamental I, com aquelas perguntas do tipo “Qual a profissão de Amaro?” que servem única e exclusivamente para saber se o aluno leu o livro. Bom, por falta de uma ele vai aplicar duas, ou melhor, a primeira foi na semana passada, sobre o bendito do Padre (e eu a perdi), e a segunda, sobre “Os Maias” (não os índios, os portugueses que viraram outra droga de novela) eu não faço idéia de quando será. Como se não bastasse o vexame, se eu não fizer nenhuma das duas ele vai me reprovar direto. Pode uma coisa dessas? Eu, adulto e trabalhador que sou, além de ter que agüentar as atividades de 4 série que me são impostas no meu trabalho, agora tenho um professor que acha que eu tenho 7 anos de idade. Tanta coisa para se investir e o cara quer aplicar em um curso de graduação uma prova dessas! Eu até entendo a boa intenção dele querer forçar os alunos dele a realmente ler os título, é necessário, mas não paga as minhas contas, muito menos a aspirina que isso vai me fazer tomar. Porque ele simplesmente não faz como todos os outros professores que lêem e discutem o texto em aula? Confesso, eu não li “O Crime do Padre Amaro” e não li muitos outros livros que deveria ter lido, mas em um país onde é proibido reprovar o aluno (o que não me desce e nem vai me descer) é isso que vão fazer com o aluno? Qual o próximo passo? Ler Ruth Rocha na Pós?

Esta história é verídica.
Atualmente Buck trabalha para o governo (de verdade!) e alopra professoras de sociologia em faculdades de direita.
Os Maias agonizam no túmulo junto com o Eça, seu criador, tanto os índios, como os portugueses depois de mais uma adaptação “Global”.
O Azeite Galo auxilia a produção de posts subversivos como este, não me pergunte porque, só sei que era o que cantávamos quando saímos do restaurante... “Ó Rama de oliveira...”.
O Crime do Padre Amaro eu não sei, mas eu e o Buck supomos que seja o de sempre, ele comeu alguém! Ou você já ouviu falar de padre formador de quadrilha?
E atualmente o autor deste texto cria estratégias para matar aulas e trabalho para saber mais sobre os coitados dos índios, digo, Os Maias, enquanto espera que este texto possa tornar mais divertido o dia de alguém.

sexta-feira, abril 01, 2005

Além do tempo e do espaço

Eu sempre me perguntava assistindo a todos aqueles desenhos quando jovem, aonde ou o que era a tal bendita 4 dimensão. Sabe, aquele tipo de pergunta que as crianças fazem e que os pais não sabem direito responder e ficam se perguntando: “_Porque Catso esse moleque encanou nisso?”. É, ninguém nunca soube me responder, e eu também não insisti tanto. Pra falar a verdade acho que essa foi uma daquelas perguntas que nunca venceu a gravidade da minha cabeça, não me lembro de ter perguntado isso para alguém. Passou muito tempo até que outro dia, viajando por aí em um hipertexto daqueles que só nerds conseguem ler descobri que um tal de Einstein havia dito que a 4 dimensão, nada mais é do que as três coordenadas espaciais já conhecidas (o tal do x,y,z cartesiano) com uma quarta que é o tempo. Mais o engraçado é pensar que às vezes nossa mente se comporta assim.

“When you are born you're afraid of the darkness
And then you're afraid of the light
But I'm not afraid when I dance with my shadow”

Eu tento digitar meu trabalho no computador, mas como posso se eu não estou aqui? Estou agora perdido em algum lugar entre amanhã e ontem, ouvindo Pear Jam, cantando Aerosmith, olhando o meu trabalho e escrevendo este texto. Se você acha que sou louco, não ache, isso é um fato, você chegou atrasado. Não vem ao caso.
A sala onde estou tem horríveis paredes sujas, pintadas de cinza, azul e amarelo, e é retangular com várias colunas de concreto ladeando as paredes. Uma alcova à minha frente guarda um extintor de incêndio com a classificação inapropriada para o ambiente, inútil caso algo aconteça, ventiladores estão espalhados pelos cantos e no centro diversas mesas juntam-se lado a lado de frente umas para as outras, formando um grande retângulo cheio de computadores, a maioria velhos. Uma planta enorme permanece em cativeiro junto à parede quase atrás de mim, suas folhas parecem começar a amarelar e eu penso que por melhor que seja ter uma planta aqui, é um crime condená-la a luz dos cátodos e a não mais ver o sol, e se isso é cruel com ela imagine conosco. A minha mesa é um pouco curta e bagunçada, nunca encontro nada no mesmo lugar, pois as faxineiras fazem uma zona gigante quando pseudolimpam-na. Porém, nada disso me parece real, e será que é realmente? Eu poderia lhes descrever o que vejo que não é nada disso, paredes de pedra, tatames, mas creio que vocês hão de concordar comigo: não carece...

“Oh yeah she's got that kind of love incense
That lives in her back room
And when it mixes with the funk my friend
It turns into perfume”

No lugar desta realidade torta, mórbida e cansativa que me permeia, minha mente me carrega para paisagens mais agradáveis, arrastada, em verdade, por um certo perfume, uma pele macia, uma doce saliva e uma voz deliciosa. Sinto-me até um pouco tolo, pois, neste instante em que eu não estou aqui, minha mente é mantida prisioneira de bom grado. Ela jaz atada a seu corpo, como uma das contas vermelhas de um colar que mora em seu peito. Mas isso tudo está muito longe de ser uma prisão.

“She a friend of mine
She a concubine
The sweetest wine
I gotta make her mine”