quinta-feira, julho 07, 2005

MAC

Dizem que em nenhum outro lugar faz o clima de São Paulo... Talvez em Londres, mas acho que não ou então alguém já teria dito isso, talvez no inferno... Hora garoa e esfria, hora chove e esfria, hora simplesmente esfria. Enfim, está um frio dos diabos. Estão dizendo que hoje irá fazer 3 graus de madrugada e quando era 15:00 eu já estava na rua congelando. Precisei ir até a faculdade buscar um documento, feliz da vida por atravessar a cidade com esse frio todo. Não reclamo por ter de sair de casa, foi bom. Já estou cansado dessa vida de tartaruga de aquário. E foi tão bom que eu até aproveitei para corrigir uma falha de quatro anos de idade. Fui ao MAC ver a exposição do acervo. Da minha parte posso dizer que me diverti muito, da parte da minha companhia... que companhia? Os guardas do museu também se divertiram bastante. Com a exceção de meia dúzia de pessoas sentadas em um canto conversando, de um senhor estrangeiro em uma cadeira de rodas e de uma garota tímida e lindamente vestida com uma jaqueta vermelha de veludo, uma saia um pouco abaixo do joelho e uma sandália combinando, tudo em um estilo meio anos 60, eles não devem ter visto mais ninguém o dia todo. Deve até ter sido o dia de sorte de um deles, tivemos uma conversa de uns 10 minutos que eu devo dizer foi a mais agradável conversa que eu tive nos últimos dias. Nunca vi um segurança tão animado, caloroso e simpático. Fazia muito tempo que eu queria ir a uma exposição, pena que o MAC seja um dos poucos museus que não se paga para entrar.

quinta-feira, junho 30, 2005

Análise político-sintática

Eu gostaria que isso não parecesse um conto, até porque eu sei que em pouco tempo é o que vai parecer. Mas creio que não há muito que eu possa fazer à respeito. Peço que todos os atores, autores, teatrólogos e afins me perdoem, mas quando assisto uma notícia sobre política no jornal tenho a verdadeira impressão de estar no teatro. Eu sei que é injusto dizer isso, o teatro realmente não merece a comparação com algo tão vil quanto à política, mas é que de novela o povo gosta e talvez, por isso, de política também. Talvez seja pela onipotência da trama, dos personagens... Eu realmente não entendo, mas também não me preocupo, sei que o povo está bem representado no parlamento! Temos lá deputados que passam fome, senadores que moram em favelas, legisladores que vivem de salário mínimo e cujos filhos menores trabalham em carvoarias no cerrado, temos também larápios e mentirosos. Quem não mente não é mesmo? E para os casos explicitamente destoantes não há nada que uma renúncia não corrija... Enfim, deixemos de lado as ovações quanto há ocupação tão nobre e vamos ao conto! Digo ao caso!

Estava eu tranqüilamente almoçando e assistindo ao jornal, um dia desses na semana passada e veio a estarrecedora notícia: O site do partido do presidente (que todos sabemos trata-se de uma organização pública e governamental) acusava a oposição de golpista. Estava armado o escândalo, a mídia logo começou a apurar aos fatos e a entrevistar alarmados representantes dos partidos de oposição no planalto. O primeiro representante logo disse: “É sabido que nosso partido nunca participou do golpe neste país, para tanto, basta apenas observar a história. Sempre fomos contra o golpe!”. O representante do segundo partido logo esbravejou: “Não sabemos de golpe nenhum, se o governo afirma que somos golpistas o governo deve mostrar as provas!”. O representante do terceiro partido pronunciou-se com toda a autoridade: “Golpe? Queremos saber a qual golpe que o governo se refere! O governo precisa dizer de qual golpe está falando”.
Sabe, na qualidade de estudante de língua portuguesa me reservo o direito de continuar odiando sintaxe, mas eu ainda adoro a parte sobre as ambigüidades!

sábado, junho 25, 2005

Vermelha

Vermelha.
Perfeitamente vermelha escura.
Deslizara pelo branco aveludado, lentamente, ora atrasada pelos pequenos pelos, ora correndo mais de pressa até a borda onde se debruçara com um brilho vivo, intenso, furtivo, balançara, pulsara, pendera e caíra. Viajando por centenas de longos instantes pelo ar, perdida, redonda e vermelha.
O tempo parara. Algumas vezes pestanejava, caía em um sono longo, etéreo e instantâneo, visitava pradarias, bosques, montanhas e ia muito além. O cheiro de madeira invadia as narinas, as extremidades do corpo reclamavam frias, as mãos ásperas falhavam, vacilava... E o sono perseverava mais forte que tudo, disputava, tentava acordar, piscava forte contra o sono dos justos. Às vezes um raio de luz refletido no copo de vidro que ia e voltava saltando os frisos do assoalho de madeira alcançava a gigantesca pupila dilatada que não precisava mais esconder-se atrás da pálpebra para sonhar. Alçara vôo sobre dois mundos. De súbito todas as cores ganharam um brilho forte, sobrenatural, como se a tinta do quadro borrasse em milhares de tons impressionistas. Não havia mais extremidades e cada cor era feita de milhares de outras, estava dentro de um quadro. Em um átimo de segundo sentiu-se finalmente livre, o corpo parou de lutar, os músculos cederam, a consciência deu lugar à inconsciência.
Acordara bruscamente com o estardalhaço. Eram milhares de gotas vermelhas a surgir da derradeira que despedaçara-se ao encontrar com a água, multiplicando o impacto e o efeito do vermelho vivo diluindo e desaparecendo no líquido transparente. O estrago já havia sido feito. O vermelho escorria sobre o cavalete e o chão misturando o seu forte odor ao do vinho. A tela branca possuía agora manchas produzidas por um efeito errático. Rorschach.

segunda-feira, junho 20, 2005

Conhecendo gente pela net

Hoje notei uma coisa a meu respeito com a curiosidade de um pássaro que nota que as folhas das árvores são verdes. Eu sou um desses raros casos de pessoas que não conheceram ninguém pela net. Pois é, sou obrigado a confessar com a impressão de que deve ser essa a mesma sensação de um pescador que nunca viu o mar:
_O que? Azul? Azul e grande?? Azul, grande e até o lugar onde o horizonte alcança o céu???
E eu:
_Assim? Completamente estranho, alheio e desconhecido???
Nunca. Nem ao vivo, nem a cores, nem por e-mail e nem por pulso telefônico, quem dera por carta registrada. Não houve MSN, Orkut ou afim que realizasse tal tarefa hercúlea com êxito, nunca deu certo. Aliás, isso é mais que estranho já que tenho amigos realmente bons nisso, alguns beirando o profissionalismo, atravessando barreiras alfandegárias, fusos, meridianos, quiçá planetas.
As Minhas melhores tentativas (diga-se de passagem, já bem caducas) foram em alguns Chats. Algo quase que pré-internético. Lembro como se fosse ontem daqueles dias da aurora da net, eu passava as noites na casa de alguns amigos e olhávamos espantados pela janela do apartamento um dos vizinhos atravessar a noite debruçado no teclado, provavelmente em algum Chat. Algumas vezes disputávamos o computador, tudo por essa chance dourada de encontrar alguém. Parecia algo milagroso como se equilibrar vendado num monociclo com um pedaço de bambu sobre uma linha telefônica de um lado a outro da rua guiado pela voz de outra pessoa (na verdade nem a voz) ou como mandar uma mensagem numa garrafa e obter uma resposta. Tentei uma dúzia de vezes quando me senti sozinho em casa chegando perto de manter algum contato regular com alguém umas três ou quatro vezes. No fim aquelas que não frustraram frente a alguma ideologia fundamentalista dos candidatos caíram por terra junto à conexão telefônica. Depois disso desisti por um tempo e nunca mais cheguei a tentar com tanta seriedade.
Agora ando tentando novamente com a disposição de um radioamador transmitindo em CW (Morse), às vezes tenho a impressão de que sou demasiadamente estranho para que isso dê certo, às vezes me pergunto quem não o é... Talvez seja só falta de sorte, ou talvez meu estilo seja apenas old fashioned... Hoje conversei pela primeira vez com uma garota simpática que acabei de conhecer no Orkut, até comentei sobre essa minha característica. Ela me disse que conhecera a maioria de seus amigos pela Internet, foi um momento engraçado, como se o último Neanderthal encontrasse o primeiro Homo Sapiens. Quem sabe amanhã ou depois não conversaremos de novo?

domingo, junho 12, 2005

Inconsistência

Hoje, por alguns momentos logo que me levantei, quase não me lembrei ser o dia dos namorados. Dia dos namorados... hunf... Acho que absorvi as idéias de uma velha amiga minha contra esse dia. Foram alguns poucos instantes de felicidade até me lembrar do dia de hoje e exercer o meu humor tipicamente canceriano.
Não é um dia muito bom esse, me faz lembrar de outras dessas datas que se restringem a fatos, como aniversários de namoro. Um dia eu gostei muito de aniversários de namoro, não por pieguice, apenas por que me divertia com isso. Hoje adquiri um certo pavor da idéia, não gosto nem de pensar no assunto porque algumas pessoas vêem essas ocasiões como doença, vislumbre... e porque não dizer como gnomos? Sim, gnomos, frutos de uma imaginação fértil em busca de uma manifestação encantada da realidade... essas coisas que satisfazem perguntas sobre quem somos e de onde viemos e sobre as quais as pessoas tem uma obsessão. Pessoalmente prefiro não dizer o que penso sobre gnomos, já tive minha cota deles na vida, nada contra, apenas prefiro pensar em ações físicas e mais ordinárias para resolver os meus problemas. Acho que isso me matou o gosto por essas ocasiões, essa capacidade humana de enxergar “o mal” em tudo que existe, que mesmo quando ignoradamente manifesta sempre se vê um fundinho lá no canto dos olhos (e da qual, infelizmente, eu também não sou isento).
Quando eu penso no dia dos namorados não consigo um bom motivo para comemorá-lo, embora eu não adore a cultura estadunidense, penso que o Valentine’s day é melhor nisso, pois ao comemorar também as amizades acaba sendo uma comemoração do afeto humano. De qualquer forma não estamos nos EUA, eu só devo ver os meus melhores amigos daqui a uns quinze dias e as minhas tentativas de aumentar o meu número de amizades tem sido no mínimo frustrantes. E pensando diretamente no assunto, eu sou impossível de se namorar, as pessoas consideram meus gostos estranhos, minhas idéias chocantes, meus atos provocantes. Lembro até de uma garota que me disse que eu sou melhor amante do que namorado. Acho que ela esta certa, sou melhor diversão para uma noite do que para um inverno. Moral da história o dia fica assim, com essa cara estranha, uma espécie de lembrança ridícula da quantidade de relacionamentos malfadados que tive (aos quais somam-se numerosas amizades) e da minha inconsistência como objeto de namoro. Eu nem sei porque ainda fico me lembrando disso já que vai ser só mais um dia trancado em casa no computador, o que acontece todos os dias...

quinta-feira, junho 02, 2005

Mea culpa

Olho para o lado e vejo no mural um recado que anotei com uma letra tão alegre e falsa que não consigo crer na minha hipocrisia, um convite para um lugar aonde eu não quero ir, encontrar pessoas que um dia foram muito importantes para mim e hoje não passam de nomes em uma agenda. Mas dei minha palavra que irei, e a minha palavra continua sendo algo muito importante para mim. Acho que isso deve alegrar um rosto ou dois, mas quando penso nas minhas razões para estar lá não consigo conceber nenhum motivo realmente decente.
Chame de rancor, chame de decepção, chame de abandono, chame do que quiser, não me importo. Já me importei muito e por um tempo longo demais, naquela época ninguém se importava. Hoje eu não quero mais, me tornei outra pessoa, embora o que eu sinto e estou preste a escrever nunca tenha mudado.
Chamem-me de cão raivoso. Chamem-me porque ladro, não consigo aceitar o abandono, nem negar o ódio que sinto por permitir que aqueles que amo tenham um dia me machucado.
Chamem-me de teimoso porque eu não consigo dar novas chances para aqueles que me abandonaram um dia. Porque não consigo dar outro nome a isso senão traição. Embora machucados aconteçam, mesmo sem querer, há feridas que não cicatrizam, como a traição de um amigo.
Sinto-me pequeno por tudo isso e culpado porque, apesar do crime não ser meu, não sei se posso perdoá-los; embora eu acredite ser capaz, não consigo dar uma nova chance para ser apunhalado. E seria isso perdoar? Confiar desconfiando? Ou seria estupidez esperar encontrar a redenção onde ela pode não existir?
Minha estupidez me envergonha, assim como a minha falta de confiança em que eu possa ser forte e sábio para passar por tudo isso sem cometer o erro de atribuir as pessoas valor outro que não o seu real.

segunda-feira, maio 30, 2005

Passagem rápida

Pega a moto, põe o capacete, dirige alguns minutos vê alguns amigos...
Passa algumas horas, termina sem demora, sente o gosto e a saudade...
Termina, sente falta, acaba, volta, acorda, enrola, pisca, passa a hora...
Sai a chuva, raia o dia, olha lá fora o frio que se enrosca aos artelhos...
Passa a manhã, tarde, noite, passa dias, vontade, fúria, paixão, vazio...
Vazio, vazio, vazio...
Passa triste, a sós, baixinho, devagar, devagarinho, só naquele instante...
Naquele ocasional instante que alguém convencionou chamar de vida.

quarta-feira, maio 25, 2005

Seria tudo isso apenas brincar com demônios?

A água corria por entre as telhas e gotejava no forro velho carregado de cupins. Além do barulho, arrastava o pó de anos e descia escorrendo pelas paredes marcando-as com tons amarelados e marrons. Havia passado das sete horas há não muito tempo e a chuva que durara a noite toda não havia cedido um milímetro sequer. O assoalho trepidava com os ônibus a passar pela rua e o sono já se debatia tentando abandonar o corpo. Como era de praxe, ele mexera-se muito durante a noite e os pés frios tentavam insistentemente encontrar alguma parte do cobertor para esquentarem-se sem chutar de forma estúpida a gata para fora da cama. Poucos dias haviam se passado desde que fora demitido, mas o tempo já havia começado a jogar seus jogos e ele não fazia idéia de que dia era aquele. Tateou o criado mudo acordando irritado com as goteiras que o lembravam das contas para vencer e praguejou algo contra o mundo. Encontrara apenas a caixa vazia do antidepressivo que havia acabado meses atrás quando teve que optar entre as contas que podia pagar. Péssima idéia, pensava ele agora.

sexta-feira, maio 20, 2005

Paisagem

Contemplo o vazio na ausência do som dos carros. Algumas pessoas vão passando devagar, atravessando a paisagem distante, caminhando daqui para ali, pequenas, tal qual formigas. Sentadas, duas moças dividem comigo o extenso tapete verde que a grama forma atrás do prédio da reitoria onde, ocasionalmente, erguem-se algumas árvores em direção ao céu. As cores vão mudando lentamente, as sombras vão tornando-se penumbras e a lua vai subindo para o azimute enquanto a luz mingua. Pouco a pouco o cenário vai mudando e eu tento capturar essa imagem em minha mente com a futilidade de quem constrói um castelo de areia disputando espaço com as ondas na ponta da praia. Enquanto isso, alguns carros trafegam já com as luzes acesas, os alunos vão chegando lentamente para o turno de aulas da noite e alguns pássaros cantam e brincam. O silêncio é arrebatador. Não o simples silêncio que se deita sobre este lugar mais calmo, mas o silêncio da ausência de vozes conhecidas, das gargalhadas esquecidas e das amizades ausentes. O sol de súbito faz um último esforço no final da abóbada celeste para tingir de amarelo o gramado refletindo-se nas nuvens. Não sei, não sei mais se é de amarelo ou laranja, nem sei se é no outono que estamos ou que dia é hoje. Hoje é só mais um dia qualquer, igual a todos os outros dias. Os dias são iguais há muito tempo e se eu não soubesse que estou aqui, já não saberia mais nada. As luzes dos prédios começam a pipocar entre as janelas dispersas e daqui a pouco a luz do dia terá partido completamente me deixando sem ter como escrever mais hoje. As letras irão embasando, ao papel se misturando e pouco a pouco o silêncio se fará completo.

quarta-feira, maio 11, 2005

Ops... parece que é a minha vez...

Antes de soltar o texto uma pequena explanação: hoje foi meu último dia de trabalho no Sub e essa foi a carta que escrevi para me despedir de todos por lá. Nos próximos dias acredito que vocês assistirão a atualizações mais freqüentes, já que uma das coisas que estava dificultando isso era o fato de terem bloqueado o blog no meu antigo trabalho. Assim, deixarei maiores considerações para mais tarde, por hora, divirtam-se com a carta, que eu acho, ficou muito legal. Segue o texto:


Assunto: Ops... parece que é a minha vez...

Olá,

Lembra de quando éramos crianças, no colégio, correndo pulando e brincando? Daquela vez que íamos apresentar aquela peça de teatro e você perdeu a deixa para entrar no palco? Pois é... essa é a minha deixa. É hora de deixar as luzes do palco.

Pouco mais de um ano se passou e foi um ano e tanto. Tantas novidades, tantas amizades, tantas coisas e tão rápido... Mal o luzeiro do céu deitara e se levantara, era ainda ontem, quando eu entrei por aquele portão cheio de guardas, em um terno preto, para a entrevista. E logo após isso veio o primeiro dia, o dia que começou comigo sentado na copa esperando a minha nova chefe chegar e terminou sobre uma mesa vestido com aquela roupa estranha ao som de Conga. Não foi há muito tempo, o primeiro de tantos dias em que sentei eu e a minha pena no meio da passagem no Comercial e escrevi sobre aqueles sonhos que os homens projetam sobre telas. Nesse meio tempo houveram demandas diversas, empreitadas em feiras de anime, houveram dias etiquetando brindes, textos para a loja de bebês e quebra-galhos em e-mails do marketing. Houvera até aquela vez em que me vesti de mergulhador para um certo trabalho de graduação e uma divertida entrevista de onze páginas para o jornal. Mas nem tudo foi trabalho, foram almoços no Seiva, no Wall e no West, pasteis até, teve até petit-gateau! E as barras de chocolate que escondemos do Tuba por muito tempo! Você se lembra?

Espere... você ouviu? É a minha deixa de novo! Já estou atrasado e ainda nem falei nada, não disse sobre tudo o que aprendi e, mais importante, sobre os amigos que ganhei e, espero, levarei comigo para a vida. Sabe como é, não sou bom com essas coisas de despedida, já estou nervoso, trêmulo, erro os toques no teclado. A respiração falta, fica presa lá no fundo do peito e os olhos marejam.... se quer enxergo as letras borradas...

Perdoem-me a emotividade... já não consigo mais escrever...

Deixarei, na minha boca, que o canto das palavras de outro poeta terminem o ato. É chegada a hora... obrigado a todos por tudo e até breve...

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Morais in livro de Sonetos)


Ps.: Escreva-me!

quinta-feira, abril 28, 2005

Nunca subestime a capacidade de um ser humano em ser um filho da put4

Pois bem, creio que há um longo tempo seja de domínio público o fato de eu estar odiando o meu trabalho. Digo estar odiando e não odiar, pois houve um tempo em que eu o amava e que, a despeito de eu não acreditar que isso possa algum dia voltar a ser assim, ainda considero o caráter deste sentimento transitório. Isso tudo se deu por aquele tipo de mudanças que mexem com as pessoas, mudando regras, acordos e rotinas já estabelecidas em prol do lucro. Lógico que essas mudanças terão um impacto positivo sobre os trabalhos da empresa há médio prazo, mas geralmente esse é o tipo de coisa que despreza o bem-estar dos funcionários. E é nessa situação em que me encontro, agora realizo o trabalho que antes era feito por duas pessoas e sendo um estagiário, não realizo o que me era mais caro, aprender algo novo. Em lugar disso, copio as informações das embalagens de diversos produtos para o sistema em uma espécie de linha de produção que poderia usar crianças de 7 anos ou macacos sem qualquer defasagem qualitativa dos trabalhos. Depois de vários dias trabalhando sem o menor gosto consegui fazer algum estrago na cadeia produtiva e por isso acabei ouvindo muito, desesperando algumas pessoas, recebendo uma ou duas ameaças e não mais do que isso. Mas sei que esse tipo de comportamento, além de não me ser agradável, não irá me levar há lugar algum. Então nessa maldita manhã gélida de inverno, que embora seja outono, ninguém consegue me dissuadir do contrário, logo após o final de uma pequena brincadeira de “cabo de guerra” com relação a alguns problemas no trabalho, dei-me conta de algo. E antes de explicar-vos esta primorosa idéia, faz-se necessária uma pequena explicação. Eu não possuo uma religião vigente e os meus escrúpulos devem-se apenas há anos vivendo sob um certo código de honra que me é bastante caro. E embora eu seja uma pessoa direita, estou tão longe de ser um parvo quanto de ser um santo. Acontece que o ser humano é como uma ave Cuco, que espera uma outra ave sair do ninho para devorar-lhe os ovos e, no lugar, deixar os seus para serem criados pelo outro. E é aproveitando-me disso que começarei um plano diabólico. Hoje transformo o meu desgosto no espírito da vingança. Valho-me de uma certa incompetência de nossos parceiros de trabalho para tanto e da natureza caótica do ser humano. Só existe uma coisa pior do que um funcionário ruim, um funcionário bom... e obcecado. Pois um funcionário ruim pode ser demitido, enquanto um funcionário Caxias é perene e intocável... e ambos são bastante incômodos. É assim que irei tornar maldita a existência de meus “colaboradores”, em cada um de seus deslizes eu estarei lá para lhes apontar as falhas, transformarei o meu trabalho na execução do Santo Ofício e dedicarei os meus esforços na perseguição daquela preguiça pública humana até levar-lhes a loucura ou obter a redenção. Já posso vê-los tremer ante a minha presença e desviar seus olhares nos corredores. Posso ouvir seus lamentos a cada e-mail meu recebido e suas suplicas para que eles parem de chegar. Pilhas de requisições malditas e trabalhosas em nome daquilo que alguns chamam “Qualidade” e outros “Transtorno Obsessivo Compulsivo” suceder-se-ão junto ao deleite do estalar do chicote. E a cada noite suas preces objetarão a mim, implorando para que eu vá embora. Que eles me amaldiçoem, me chamem de nomes, que me desejem distante e assim, o que é cômodo tornar-se-á incomodo e mais depressa do que eles me jogaram aqui neste inferno eles hão de me dar o que desejo: A promoção.

quinta-feira, abril 14, 2005

E você? Sabe qual foi o crime do Padre Amaro?

Para ser lido ao som do reclame de Azeite Galo.

Este é uma curta demonstração de indignação frente a um professor com idéias absurdas e uma ode a um almoço muito agradável. Conversar com o Buck sempre é muito bacana, a conversa flui, a criatividade também e eu sempre acabo tendo novas idéias para escrever. Eu estava justamente comentando com ele o absurdo que é o meu professor de Literatura Portuguesa I aplicar provas de controle de leitura. Isso mesmo, aquelas provinhas que os professores davam para a gente no finado primário, conhecido hoje como Fundamental I, com aquelas perguntas do tipo “Qual a profissão de Amaro?” que servem única e exclusivamente para saber se o aluno leu o livro. Bom, por falta de uma ele vai aplicar duas, ou melhor, a primeira foi na semana passada, sobre o bendito do Padre (e eu a perdi), e a segunda, sobre “Os Maias” (não os índios, os portugueses que viraram outra droga de novela) eu não faço idéia de quando será. Como se não bastasse o vexame, se eu não fizer nenhuma das duas ele vai me reprovar direto. Pode uma coisa dessas? Eu, adulto e trabalhador que sou, além de ter que agüentar as atividades de 4 série que me são impostas no meu trabalho, agora tenho um professor que acha que eu tenho 7 anos de idade. Tanta coisa para se investir e o cara quer aplicar em um curso de graduação uma prova dessas! Eu até entendo a boa intenção dele querer forçar os alunos dele a realmente ler os título, é necessário, mas não paga as minhas contas, muito menos a aspirina que isso vai me fazer tomar. Porque ele simplesmente não faz como todos os outros professores que lêem e discutem o texto em aula? Confesso, eu não li “O Crime do Padre Amaro” e não li muitos outros livros que deveria ter lido, mas em um país onde é proibido reprovar o aluno (o que não me desce e nem vai me descer) é isso que vão fazer com o aluno? Qual o próximo passo? Ler Ruth Rocha na Pós?

Esta história é verídica.
Atualmente Buck trabalha para o governo (de verdade!) e alopra professoras de sociologia em faculdades de direita.
Os Maias agonizam no túmulo junto com o Eça, seu criador, tanto os índios, como os portugueses depois de mais uma adaptação “Global”.
O Azeite Galo auxilia a produção de posts subversivos como este, não me pergunte porque, só sei que era o que cantávamos quando saímos do restaurante... “Ó Rama de oliveira...”.
O Crime do Padre Amaro eu não sei, mas eu e o Buck supomos que seja o de sempre, ele comeu alguém! Ou você já ouviu falar de padre formador de quadrilha?
E atualmente o autor deste texto cria estratégias para matar aulas e trabalho para saber mais sobre os coitados dos índios, digo, Os Maias, enquanto espera que este texto possa tornar mais divertido o dia de alguém.

sexta-feira, abril 01, 2005

Além do tempo e do espaço

Eu sempre me perguntava assistindo a todos aqueles desenhos quando jovem, aonde ou o que era a tal bendita 4 dimensão. Sabe, aquele tipo de pergunta que as crianças fazem e que os pais não sabem direito responder e ficam se perguntando: “_Porque Catso esse moleque encanou nisso?”. É, ninguém nunca soube me responder, e eu também não insisti tanto. Pra falar a verdade acho que essa foi uma daquelas perguntas que nunca venceu a gravidade da minha cabeça, não me lembro de ter perguntado isso para alguém. Passou muito tempo até que outro dia, viajando por aí em um hipertexto daqueles que só nerds conseguem ler descobri que um tal de Einstein havia dito que a 4 dimensão, nada mais é do que as três coordenadas espaciais já conhecidas (o tal do x,y,z cartesiano) com uma quarta que é o tempo. Mais o engraçado é pensar que às vezes nossa mente se comporta assim.

“When you are born you're afraid of the darkness
And then you're afraid of the light
But I'm not afraid when I dance with my shadow”

Eu tento digitar meu trabalho no computador, mas como posso se eu não estou aqui? Estou agora perdido em algum lugar entre amanhã e ontem, ouvindo Pear Jam, cantando Aerosmith, olhando o meu trabalho e escrevendo este texto. Se você acha que sou louco, não ache, isso é um fato, você chegou atrasado. Não vem ao caso.
A sala onde estou tem horríveis paredes sujas, pintadas de cinza, azul e amarelo, e é retangular com várias colunas de concreto ladeando as paredes. Uma alcova à minha frente guarda um extintor de incêndio com a classificação inapropriada para o ambiente, inútil caso algo aconteça, ventiladores estão espalhados pelos cantos e no centro diversas mesas juntam-se lado a lado de frente umas para as outras, formando um grande retângulo cheio de computadores, a maioria velhos. Uma planta enorme permanece em cativeiro junto à parede quase atrás de mim, suas folhas parecem começar a amarelar e eu penso que por melhor que seja ter uma planta aqui, é um crime condená-la a luz dos cátodos e a não mais ver o sol, e se isso é cruel com ela imagine conosco. A minha mesa é um pouco curta e bagunçada, nunca encontro nada no mesmo lugar, pois as faxineiras fazem uma zona gigante quando pseudolimpam-na. Porém, nada disso me parece real, e será que é realmente? Eu poderia lhes descrever o que vejo que não é nada disso, paredes de pedra, tatames, mas creio que vocês hão de concordar comigo: não carece...

“Oh yeah she's got that kind of love incense
That lives in her back room
And when it mixes with the funk my friend
It turns into perfume”

No lugar desta realidade torta, mórbida e cansativa que me permeia, minha mente me carrega para paisagens mais agradáveis, arrastada, em verdade, por um certo perfume, uma pele macia, uma doce saliva e uma voz deliciosa. Sinto-me até um pouco tolo, pois, neste instante em que eu não estou aqui, minha mente é mantida prisioneira de bom grado. Ela jaz atada a seu corpo, como uma das contas vermelhas de um colar que mora em seu peito. Mas isso tudo está muito longe de ser uma prisão.

“She a friend of mine
She a concubine
The sweetest wine
I gotta make her mine”

terça-feira, março 29, 2005

Boa noite e boa viagem.

Não é novidade que ando com dificuldade para escrever, os assuntos sumiram, as publicações minguaram, vários textos disputam a minha atenção para serem terminados e eu não consigo achar nenhum digno de nota. Nenhum. Acredito que tenho escrito melhor, mas dada hora eles travam, não descem...
É, já contei algumas vezes que escrevemos sempre para alguém, e acho que eu estou numa dessas épocas em que eu não sei para quem escrevo. Assim decidi escrever este texto para as pessoas que não mais estão aqui. Não, não estou falando de mortos e de cemitérios, mas daquelas pessoas que por um breve instante da eternidade, significaram muito para mim, mas que, por um motivo ou outro, seguiram estradas diferentes.
Tento me segurar, mas o sarcasmo que herdei com o meu sangue não me permite o silêncio: existem aqueles que pegam estradas diferentes e aqueles que deliberadamente as escolhem, mesmo que não queiram acreditar nisso ou simplesmente não o admitam. E é óbvio que este texto fala sobre o segundo tipo de pessoas.
Paro, olho para o teclado, olho em volta e percebo que chegara o momento no qual todos os meus textos parecem estar empacando ultimamente, logo após sua introdução. Mas este é um dos que eu tenho que enfrentar, por mim e por mais ninguém. Não acho que alguma das pessoas em quem estou pensando agora venham a ler este texto algum dia, esta é uma possibilidade remota, então não é isso o que tenta me impedir e sim o apego. A verdade é que eu decidi parar de lutar contra as vontades alheias. Querem ir? Vão... e tenham a minha benção. Sim, estou chateado com isso, sim me sinto ofendido, abandonado talvez. Mas de todas as coisas sobre gostar das pessoas, talvez esta seja a mais certa: embora amor não se meça, as pessoas não se gostam igualmente e muitas vezes você irá gostar mais de alguém do que este alguém de você, bem como muitas pessoas gostaram de você bem mais do que você delas, talvez bem mais do que você ame a si mesmo. Entendam como quiser, esta não é uma carta de alforria, não existem correntes com as quais eu prenda as pessoas, ou qualquer forma de posse que eu estabeleça, e tendo estas pessoas todas partido já há algum tempo isto reforça a minha afirmação. Este é apenas um desejo sincero de uma boa viagem vida à fora.
Gostaria que este texto me fizesse sentir mais leve, que purgasse meus pecados, minhas hereges paixões e que extinguisse as minhas saudades. Infelizmente ele não é capaz disso, então aqui eu o encerro e me entrego para os braços da escuridão de mais uma noite sem estrelas.

segunda-feira, março 21, 2005

terça-feira, março 08, 2005

"8"

A luminária balançava devagar fazendo o fio, tencionado, ranger levemente no ponto onde tocava o teto. Paredes vermelho-cereja delimitavam o aposento onde uma mesa longa, perfeitamente envernizada, era coberta pelo verde de um tecido; um mundo de contrastes em um filme de alta sensibilidade. A meia-luz revelava o colo exposto e o contorno perfeito dos seios da garota que iniciara o seu movimento, estremecendo a ordem do mundo. Do outro lado da sala, saindo da penumbra, ele contornava a mesa com movimentos felinos, um sorriso no canto dos lábios e olhos escuros, atentos e brilhantes. Snap! Uma bola corria para a caçapa enquanto a luz continuava a pendular, e levantando da mesa para ela, lentamente, os olhos, ele pronunciou em meio a um sorriso: “_É sua vez”. A luz focara abruptamente em sua mão, segurada com força, um gesto de cortesia tão tentador como o que balançara a luminária. Ela ria tímida afastando, esbaforida, dos lábios a taça de champagne marcada pelo batom e colocando-a de lado junto a sua timidez. Olhou diretamente dentro de seus olhos, caminhou sensual e decididamente de encontro a ele e inclinou-se levemente sobre a mesa enquanto mordia os lábios olhando de canto. Snap! Outra bola atravessava a mesa. Ela levantara sorrindo com um ar de graça que lembrava as pin-ups de Gil Evergreen e com um movimento sutil soltou o coque que prendia seus longos fios castanhos, quase negros. Não precisavam de palavras, os olhos de ambos falavam por eles, inquietos, libidinosos, famintos, olhos que devoravam uns aos outros euforicamente com as pupilas dilatadas. A respiração intensa trazia ar aos pulmões gerando aquela leve cócega no externo, uma sensação que poucas vezes se sente, mas da qual ninguém nunca se esquece. Noite adentro, as bolas foram desaparecendo da mesa, uma após a outra em um ritmo forte e intenso, noite adentro... até o momento onde restara apenas uma. Seus olhares se cruzaram desejosos. A tensão alcançara o seu ápice, o tempo dilatara e Beth Gibbons cantava para eles, distante no rádio.
“ ‘Cause the child roses like,
Try to reveal what I could feel,
And this loneliness,
It just won't leave me alone, oh no.”
Logo, não havia mais bolas na mesa, não havia mais copos, não havia mais chão. Os faróis dos carros iluminavam a vida longe em movimento, em flashes que não alcançavam as janelas. Havia lábios, olhos, cheiros, êxtase. O tecido amortecia os movimentos e a luminária pendulava novamente.

quarta-feira, março 02, 2005

Dá um tempo.

Eu queria escrever algo, mas está difícil. Rabisco meia dúzia de textos, começo duas, três vezes cada um e nenhum me agrada. Apago tudo e volto para a prancheta. Eu queria escrever, mas tem faltado tempo, tantas coisas no trabalho, na cabeça, tanto o que fazer, resolver, pensar, acaba não saindo nada, fica tudo lá, preso misturado, tudo errado: girafas com trombas, tigres púrpura, rosas de vidro, prédios de taipa, pessoas de chocolate, asfalto com pimenta. Eu queria escrever sobre como está difícil esvaziar a mente e simplesmente relaxar, eu só queria pensar um pouco, mas quando paro as coisas continuam, rodam ao meu redor, não fluem. Não é só comigo, é com todo mundo. Todo mundo tem que trabalhar, pagar as contas, cuidar da namorada ou de arranjar uma, levar o cachorro no veterinário, ir ao médico, fazer isso, aquilo, aquele outro... O tempo passa e não temos tempo para nós mesmos. Há quanto tempo eu não leio um livro inteiro? Quantas vezes eu realmente consegui me divertir esse ano? Quantas vezes eu não tive horário para voltar? Tento encontrar um ou dois amigos, combinar um cinema, um jogo, um churrasco, uma cerveja. Nunca dá, não tenho tempo, não tenho dinheiro, fulano também não, a garota vai viajar, a moto vai para revisão, o namorado está doente, tenho aula, tenho que estudar, minha mina não quer, Tsunami, vacinação das borboletas, greve dos asnos cegos do Himalaia, estiagem no Nepal, blá, blá, blá... Nunca dá, e quando dá é sempre um estresse, todo mundo quer relaxar, as coisas saem um pouco do eixo, não foi como previsto, discussões, brigas, boxe. Há um tempo, um grupo de amigos que havia se quebrado voltou a se encontrar, motivo: Um deles tentara suicídio. Então houve uma comoção e todos os resolveram se unir para que ninguém mais se matasse. Ninguém mais se matar? Legal, quem precisa ver os amigos porque gosta deles não é? Eles entendem... morrem virando vidros de remédio, mas entendem. E assim se formam os grupos na sociedade, objetivos em comum! Suicídio coletivo, esporte, religião, motos, comida... E prioridades? Para que? Só para justificar o próprio livre-arbítrio, mas o outro... que se foda.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Intelegophobos

Enquanto eu não termino o próximo conto que pretendo publicar (o que espero fazer ainda hoje), resolvi publicar uma observação sobre algo que tem se tornado comum. Comecei a reparar que algumas das pessoas com quem eu convivo indiretamente no trabalho começaram a fazer brincadeiras repetitivas e não muito inocentes sobre a minha inteligência. A princípio eu parei para pensar se não estava sendo metido, mas, salvo exceções, eu até evito admitir minha inteligência publicamente. Desde que me lembro, me sinto incomodado assumindo isso e nunca me agradou a possibilidade de estar sendo arrogante. Quer dizer, não é de hoje esse tipo de coisa acontece e não é um caso isolado, não é só aqui e agora ou eu não sentiria a necessidade recorrente de adotar um comportamento defensivo. Como eu sempre fui cuidadoso com isso, descartei a hipótese e depois de uma breve conversa ao telefone com o Hospitalário, cheguei à conclusão de que as pessoas se ofendem com a inteligência alheia. E eu que acreditava, como a Dríade, que só o Colégio era a sucursal do inferno... não estamos assim tão livres do darwinismo social. Eu já estava incorrendo no erro de acreditar que adolescência difícil não era justificativa para absolutamente nada, afinal todo mundo que eu conheço têm. Mas a Lica-chan me lembrou que a vida das pessoas com quem eu ando foi um inferno, porque também existem as pessoas que tornavam um inferno a nossa vida. Eu esqueci que nós fazíamos parte do “grupo dos excluídos”. Quer dizer, pelo visto, ainda fazemos. Tudo isso lembra muito Malcom X e Martin Luther King. E eu me pergunto: Algum dia deixaremos de ser xenófobos?

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Balanço

Se este carnaval teve algo de curioso não foi o próprio feriado, mas algumas reflexões que passaram pela a minha cabeça. Então, na contramão de todo mundo que resolve parar para balanço no ano novo eu decidi parar hoje. Creia-me como quiser, sou brasileiro e como todo bom filho desta pátria tenho o mal habito de começar as coisas depois do carnaval, mas se preferir, entenda isso como uma homenagem ao ano-novo chinês que começou a semana passada.

Depois de muito deliberar, ele concluiu que estava melhor do que há um ou dois anos, mesmo não tendo se tornado a pessoa que gostaria de ser. Acontece que na vida temos que fazer escolhas que nem sempre são felizes e não temos tempo para fazer tudo àquilo que queremos. Algumas destas escolhas fizeram com que ele perdesse parte de seu condicionamento físico. Outras, descobrir pelo 3 ou 4 ano seguido que nem sempre os nossos amigos estão ao nosso lado e nem sempre quem está ao nosso lado é nosso amigo. E outras ainda, o fizeram perceber que algumas vezes deixamos passar ocasiões que nunca se repetirão novamente e que para realmente ser alguém na vida tem que suar muito a camisa.
Que ano... Pensava ele deitado, observando o céu, sem se orgulhar do que havia descoberto. Na verdade nem acreditava ter descoberto algo, apenas havia provado tudo na pele.
Prostrado no gramado com a pele eriçada pelo toque leve do vento que trazia os primeiros sinais do outono vindouro, pensava ele como havia se tornado um homem muito mais cético do que jamais acreditou ser capaz. Indagava a si mesmo se ainda possuía alguma inocência e observava que algumas pessoas outrora tão grandiosas para ele eram nada mais que humanas, nem piores, nem melhores. O tempo em que todos seguiam juntos para o mesmo lado havia acabado. A lei hoje era bem clara: “Cada um por si e Deus contra todos”. Cada um escolhe um lugar que ache melhor para chegar (porque, como disse o poeta, “nesta vida a única certeza é a morte”) e todos seguem para a sua direção, cada um para um lado.
De fato, ele perdera a inocência, a vida para ele era cinza, sem mágica, sem elfos, sem Deuses, sem, sem, sem... Sem graça talvez, mas nem por isso menor do que a vida pode ser, ela só não era incrível. E eu lhes pergunto: faz alguma diferença? O mundo acabará amanhã por causa disso? Você deixará de pagar impostos por isso? O sol deixará de nascer amanhã? A lua e os astros interromperão os seus cursos? Não. Nada irá mudar. Nada. O que fazia lembrar a ele uma das grandes sacadas de ler Sandman em português. Nada, a única pessoa a quem o Sonho ama. E eu, assim como você leitor ocasional de Neil Gaiman, sabemos que esta sacada é uma mera coincidência, nada intencional, porque Nada não é um nome em português e nem um nome traduzido, mas sim uma daquelas felizes coincidências. A vida não é fantástica. Não se engane leitor, isto não é uma pergunta ou uma ironia, é uma afirmação, uma locução tão direta quanto a vinha do diabo.
E talvez aqui comecem as coisas “boas” sobre tudo o que ele aprendera. Lembrava-se olhando o crepúsculo o quão fantásticas podem ser as palavras que uns poucos homens conseguem colocar nas páginas de um livro. Sabia que fantásticos são os dias que gostaríamos de ter, fantásticos são os sonhos. O doce mundo dos sonhos. Ele aprendera a ser mais responsável e todas aquelas coisas chatas dos adultos, e assim, pela primeira vez se considerava: adulto. Logo seria um velho e depois uma lembrança, para só então se tornar esquecimento e neste curto percurso talvez alimentar a essa máquina que cria sonhos para as crianças. Pensava como é fabuloso que existam pessoas que ainda consigam acreditar e fantasiar, porque ele não mais conseguia. Havia se tornado seco, e ironicamente poderiam dizer ser isso obra de algum ser encantado que se alimenta do riso das pessoas, mas se é realmente ninguém sabe. Recordava o dia em que uma bela moça havia lhe dito que suas palavras eram amargas e desgostosas. Verdade. Mas apesar de não se orgulhar disso, também não deixava que isso o diminuísse. Existem pessoas que nascem prontas para voar, esse não era o seu caso. Ele, quando muito com alguma heresia, poderia afirmar que era um dos que nasceram cochos.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Quase Carnaval

Pois é, o Carnaval está aí na porta, dando as caras e eu vou ter um emocionante feriado trabalhando para variar. Não quero ser injusto, quase não tenho trabalhado em feriados desde que comecei a trabalhar como redator e até acho bom ter que trabalhar desta vez. É só que faz tempo que eu não viajo no carnaval ou faço alguma coisa diferente nesta época. Não por nada, eu nem gosto de carnaval, a idéia original era muito interessante, porém, hoje em dia não tem mais nada haver com o que era antigamente. Mas o carnaval já me rendeu ótimas viagens e queira ou não ele tem algo de que gosto bastante: é uma daquelas poucas ocasiões aonde as pessoas relaxam um pouco a guarda (para não descambar de vez e dizer que é praticamente época de acasalamento). Ultimamente situações assim têm feito falta, sair um pouco, conhecer gente, dar uns beijos, pegar uma praia ou mesmo um baile de carnaval. Tudo isso viria bem a calhar. Adoro a idéia dessas ocasiões onde não existem grandes barreiras sociais, quando não faz diferença alguma se o cara ao lado é seu chefe ou seu empregado. Eu acho que falta um pouco disso para as pessoas durante o resto do ano: relaxar, tocar o F0d4-#3. Eu não entendo porque precisa ser carnaval para que aquela garota que faz doce o ano todo desencane e viva durante alguns dias, para que aquele cara chato que nunca quer fazer nada saia e brinque um pouco. E sinceramente, não me importa o porquê. É diferente, deveria ser assim sempre. Se você ficar ponderando demais sobre tudo, o céu e as estrelas, você acaba deixando a vida passar, arruma rugas, gastrite, câncer no fígado ou qualquer outra coisa do gênero. Tem horas que não se ganha sem ariscar, e nem é preciso arriscar tanto, apenas não ficar tão na defensiva, viver um pouco mais seus instintos. Faz parte da natureza humana. Mas para a maioria das pessoas falta um pouco de coragem. Até entendo o porquê, estamos falamos das nossas vidas, aqui não tem save point, não tem como parar e voltar para o início. Ainda assim, as pessoas se entocam de mais e se esquecem de que existe vida lá fora.