terça-feira, dezembro 21, 2004

Meninos não choram.

Meninos não choram. Não sei bem porque, mas meninos não choram. Não cai bem. Coisa de frouxo diriam uns e outros, coisa de mulher... meninos não choram. Não importa, mesmo que estejam sozinhos, meninos não choram. Mesmo que se sintam magoados, meninos não choram. Mesmo quando desenganados, meninos não choram.
Não há motivo que justifique o choro. Devem ser duros, ásperos, não devem ter lágrimas. Lágrimas molham, amolecem. Lágrimas são piegas, tem sentimentos demais. Meninos não devem sentir nem amolecer, meninos devem ser duros como pedra. E pedras? Pedras não choram. Pedras são brutas, sedutoras, eternas, pontiagudas, mas pedras... não choram. Que confiança há em quem chora? Quem chora precisa ser acalentado, protegido, quem chora precisa de colo. Meninos não, meninos devem ser bravos e varonis o tempo todo, ou então, simplesmente não são. E não ser... é pior que não chorar.
Mesmo que percam um amigo dito valoroso, meninos não choram, a eles não é permitido este tipo de amizade, devem sim ser camaradas, mas a intimidade carrega sempre uma mácula, retira sempre um pouco do brio. A amizade é sempre maldita como a de Arthur e Galahard. Mesmo que percam alguém de quem gostem muito, meninos não choram, pois não são eles quem perdem, meninos sim são perdidos. Mesmo que se percam pela vida, meninos não choram, meninos não se perdem, figuram à proa do navio apontando o caminho tal qual o astrolábio.
Meninos devem ser algozes, alentejos, carnífices, severos. Meninos devem estar prontos para o sacrifício, mesmo que seja por alguém que não queira, mesmo que seja por alguém que não mereça, e não devem de maneira alguma demonstrar seu interior ou velam como o filme fotográfico, tornam-se inúteis, perdem o valor.
Meninos não choram, mesmo que percam seu maior companheiro de muitos e muitos anos, seu fiel amigo de 18 anos, em uma manhã fria e chuvosa no primeiro dia de um verão. Aquele que sempre lhe saudara e sempre lhe acolhera sem nunca se importar se meninos devem ou não chorar. Ah amigo, como lhe dizer adeus depois de tantos e tantos anos? Tantas corridas e tantas caminhadas? Tantos afagos e tantos carinhos? Pago lhe hoje meu último favor, não um favor, pois é antes meu dever. Pago-lhe hoje as moedas para o Caronte e desejo um dia lhe reencontrar junto aos Deuses. Boa viagem em sua derradeira caminhada.
Adeus amigo, adeus.

Semi-existência

Escrito ontem pela manhã.

Batidas descompassadas, coração acelerado, falta fôlego, água, frio, incômodo. Estou na cama. Viro de um lado para outro, quase me debato, não encontro posição confortável. Ora um calor insuportável, ora um frio desagradável e ninguém a meu lado. Meu corpo dói. Meu cérebro pulsa, resiste a acordar, não quer voltar a dormir. Permaneço prostrado, cansado, vazio, desalentado e com um sono insuportável. Levanto de súbito, me visto tão rápido que não entendo como. Silêncio. Todos foram embora. Que estou fazendo eu sozinho? Não me lembro do meu nome, olho no espelho e não me reconheço. Na mesa permanece o desjejum, frio já há algum tempo. Bebo leite. Olho em volta, uma brisa gelada constante arrepia a pele. Saio à rua e os olhos passam por mim sem me notar, olhos vazios, esbranquiçados, olhos de mortos. Vez que outra um olhar parece me acompanhar, parece me reconhecer, depois desiste, ignora-me. Não sei, parece que sou outro, torto, não valho a pena, e meus olhos talvez sejam de um morto, ou estejam se tornando. Desisto, vou trabalhar. O sono me devora, não consigo acompanhar as letras no monitor, para onde elas foram? Fugiram, correram pela sala. Fico perseguindo as letras, os olhos, o sono. Numa sala vazia, sempre vazia, onde os anos passam e eu envelheço mais e mais sozinho. Mas nunca morro. Talvez já esteja morto a algum tempo e por isso não viva. Aparentemente voltei a acordar, olho ao redor desconfiado, um mosquito disputa a minha atenção com o monitor. Parece que ele consegue me ver, desvia dos meus movimentos. Fico imaginando se o mesmo acontece com as pessoas, se não vou passar através delas e sentir muito frio. É impossível explicar, é ilógico, é tortuoso. Começo a falar e percebo que converso sozinho, do outro lado do tabuleiro de xadrez não há ninguém. Chá para dois, três, seis, mas uma xícara só se esvazia em quanto as outras esfriam. Meu coração dói e eu não consigo saber por que, não há o que eu faça, não há o que eu fale nem o que escreva nem o que grite. Os dias vão perdendo as cores e as rosas secam no armário.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Entre a sobrancelha e o olho

Deitado na varanda à sombra dos arbustos repousava em uma rede um homem admoestado pelo sono insistente. O tempo quente das tardes de verão deixava tudo vagaroso. A brisa às vezes acariciava o corpo, refrescava e balançava a rede. O cheiro de frutas invadia a casa vindo do pomar, os gatos dormiam sob o sol, tudo compunha um quadro. Do seu lado esquerdo, em uma pequena mesa redonda, branca, repousava um copo de limonada com gelo e um livro, “A queda que as mulheres têm para os tolos”, uma excelente tradução de um autor francês desconhecido feita pelo senhor Machado de Assis. Uma cigarra chiava ao longe fazendo lembrar o cheiro de mato dos dias de infância e o riso dos primos. O sol escapava por minúsculos espaços entre as folhas das árvores para furar a sombra, lamber-lhe o colo e iluminar a pequena pinta que residia só entre a sobrancelha e o olho. Espreguiçou-se e virou de lado expondo o torso nu, o sono vinha gostoso e os sonhos, doces como néctar, regados num desejo de ouvir Djavan. Ah... vontade de poesia que rola no corpo, na sensação de toque leve na pele e no cheiro de calêndula. Dentes de Leão voando pelo ar, escalando o céu claro até as nuvens brancas que dançam no cerúleo refletidas na íris e na pupila dilatada, pegadia, perdida.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Não Leia.

Às vezes quando estou só algumas idéias vem me visitar em asas de mariposas e se queimam na lâmpada inúmeras vezes até caírem mortas no chão. Outras vivem escavando o solo e devorando a terra fazendo cócegas na minha mente. Algumas vêm e outras vão depois de um tempo. Às vezes estas idéias ficam, esperando maturação, às vezes elas morrem sem terem conhecido a luz do dia. Outras surgem devorando a estas idéias como surgem os vermes que devoram cadáveres. Hoje apenas não há como falar. É falar sobre o nada, tentar relacionar ecos, ametistas, vinagre e vestidos vermelhos, como relacionar olhares, madeira e desespero. É imiscuir água em óleo, derreter areia com gelo. Às vezes não há como falar. Aqui sou senhor do absoluto, monarca supremo do meu reino. Aqui minha palavra é a ordem e estabelece a história, mas hoje, hoje não há histórias para serem contadas. No princípio era o verbo, e depois, o silêncio. Como poderia deixar-me seduzir pelo silêncio e fazê-lo abater-se sobre todas as coisas? Delírios apoteóticos de uma mente lúgubre, insana e insalubre. O dia de hoje simplesmente não aconteceu. E no sétimo dia? Ele não descansou? Não. Estava farto por demais, enrolou, chorou, padeceu, riu e visitou a loucura.
Blasfêmia, eu disse: "Não leia." e a propósito, não quer ler, não venha.

terça-feira, novembro 30, 2004

É engano...

Existe algo mais deprimente do que uma ligação enganada no celular? Você atende e o cara do outro lado pergunta quem está falando, como se ele não soubesse para quem ele ligou. Tudo bem, até entendo, de repente a pessoa deixou o celular dele na bolsa da namorada, ou estava longe e alguém atendeu por que ele pediu (ou não... vai saber), mas de modo geral as pessoas costumam atender a seus próprios telefones. Então você pergunta para o cara com quem ele quer falar, geralmente essa é a pior parte, chovem nomes esdrúxulos, títulos bizarros, dicções tortas e insistências estúpidas. “Queria falar como o Ministro Caetano”, “O Evérclaidísson está?” (como se as pessoas pregassem seus celulares na parede, o que me lembra da história da empresa que mandou fixar os lap-tops dos executivos às mesas porque não queriam que eles levassem os respectivos em viagens ou algo do gênero).
_ aáà luidiisjns esk?
_Eim?
_ ``AÀ`´a luidiisjns!
_Eim?
_LUIDIISJNS!
Você para, pensa, não consegue se decidir se desliga na cara ou manda tirar o p... da boca. Desliga porque é educado. A pessoa liga de novo e ainda acha que pode ficar puta porque você está enganando ela! Mas acreditar realmente que deram a ela o numero errado... isso não, nunca. O processo se repete pela próxima hora e, a partir do dia seguinte, em dias alternados. Afinal, todo mundo sabe que os celulares saem à noite para cantar no muro do quintal e se reproduzir (de onde você imaginou que vinham os celulares? Não vai me dizer que também acredita em cegonha...) e nesse processo às vezes voltam para a casa errada, mas um dia eles voltam. Isso tudo quando a pessoa não começa a perguntar de onde fala, ou quando acha que você é o(a) amante da esposa(o) e começa a te perturbar a vida. Maldita baixa estima...
Mas passando os constrangimentos sociais diretos, você sempre tem os sociais indiretos e os psicológicos. Os sociais indiretos geralmente são relativos à oportunidade, isso sempre costuma ocorrer nas horas mais constrangedoras possíveis. No dia em que você esqueceu de desligar o celular no motel, quando você está chegando atrasado no serviço (mais precisamente no exato momento em que você está passando discretamente pela sala do seu chefe), no banheiro, no cinema, quando você finalmente conseguiu dormir depois de vários dias, ou pior, quando a sua namorada com uma cólica desgraçada e aquela TPM insuportável conseguiu. Mas ainda acho que os piores efeitos de todos são os psicológicos: Quando se está esperando resposta a uma entrevista de emprego, quando se está esperando uma ligação daquela pessoa especial, ou quando você brigou com o seu melhor amigo ou com a namorada. É horrível. E se é tão horrível hoje, imagine quando as pessoas usavam pombos correio...

quinta-feira, novembro 25, 2004

Lazward

Depois de alguns dias de chuva, acordei com a pele levemente arrepiada pelo frio das últimas horas da manhã, olhei para o céu e percebi, um tanto incrédulo, que o tempo abrira. O céu estava tão profundo que eu não me lembrava que ele era desta cor.
Alguma vez já disse o quanto gosto dela? Naquele dia algumas nuvens passeavam pelo cerúleo, adornando a abobada celeste, contrastando com o fundo da tela de algum Deus, tela essa que invejo absolutamente todas as vezes que percebo quão profundos e belos são os tons de seus pigmentos. Tento me lembrar de quantas vezes me roubou os pensamentos, como quando mergulhei entre as pedras e os cardumes de Ilha Bela, como quando estava à beira do mar das praias do sul, dos céus que me roubaram a paz, dos olhos de safira que me roubaram à fala... dos poucos olhos que me invadiram violentamente a alma. “Acho que são olhos de mar na ressaca... Aquele mar que vem e me arrasta e me puxa para dentro de você”. Lembro-me igualmente dos tons ultramarinos que tingiram as coisas na calada da noite quando a luz a muito se fôra e da cor daquela manhã em especial. Há quanto tempo foi? Já não me lembro mais ou minto muito bem para mim mesmo. Foi a melhor de todas as noites em meio àqueles dias turbulentos, a calmaria no olho da tempestade. Era quase como se eu pudesse ouvir o som das ondas que me levavam entre o mar e a praia. Era o sonho de Ícaro.

Azul, do persa Lazward. Adj. 1. Da cor do céu sem nuvens com o Sol alto; da cor do mar fundo em dia claro; da cor da safira. S.m. 2. A cor azul em todas as suas gradações. 3. O céu, os ares, o firmamento: Voam pássaros pelo azul em fora.

segunda-feira, novembro 22, 2004

Problemas com seus empregados?

Seus trabalhadores são muito onerosos? Cansado de enfrentar greves? Você não agüenta mais receber aquele barbudo devorador de charutos do sindicato?
Um novo trabalhador-conceito irá mudar para sempre a rotina de sua empresa! Desenvolvidos sob condições extremas em laboratórios subterrâneos no Laos, trazemos para vocês os Fabulosos Estagiários Anões TM, Chuin!!!! (Som de Brilho de Robô Gigante de Seriado Japonês). Os únicos estagiários de alto desempenho, performance dinâmica e baixo custo que ocupam menos de um metro cúbico! Ensinados, os Fabulosos Estagiários Anões TM, Chuin!!!! possuem habilidades inigualáveis e são capazes de realizar tarefas únicas como piking, paking, textos, petit gateau e muito mais! São capazes de amarrar os próprios cadarços, precisam de pouca luz, pouca comida, pouca água e pouco carinho, mas são capazes de trabalhar por extensos períodos em qualquer condição físico-geológico-psico-climato-sociológicas! Mas espere, não peça os seus Fabulosos Estagiários Anões TM, Chuin!!!! ainda porque nas compras acima de cinco unidades você ainda leva uma prática caixinha de areia que irá manter os seus Fabulosos Estagiários Anões TM, Chuin!!!! limpos e asseados.

terça-feira, novembro 09, 2004

Chove lá fora

Como estou em época de provas e até as tampas de trabalho decidi publicar um ensaio já um pouco antigo para vocês se divertirem, não o havia publicado até hoje porque queria aumentar um pouco o tamanho, divirtam-se:

A meia luz banhava o quarto escondendo segredos entre as sombras dos móveis. Uma vela acesa em um canto bruxuleava levemente. Os movimentos eram sutis. Um mundo em tons alaranjados expunha corpos que eram calmamente despidos de suas vergonhas. Um sorriso de pin-up, uma boca carmim, lindas pintas e grandes olhos ocupavam meus pensamentos. A leveza de um toque e a voluptuosa vontade estabeleciam a excitação entre dois amantes a disputar um jogo. Sedução. Do latim seductione, substantivo feminino 1. Ato ou efeito de seduzir ou ser seduzido. 2. Qualidade de sedutor. 3 . Atração, encanto, fascínio. A alça de sua blusa caiu expondo sua pele clara, um dos ombros e a saboneteira. Os movimentos da chama aumentavam e em algum lugar raios choviam na terra. O fôlego faltava. A chama aumentava. O calor crescia. Um instante de resistência fazia os corações acelerarem dilatando suas pupilas ao máximo, arrepiando suas peles até o encontro de seus toques. Um clarão iluminou o mundo e a chuva caia forte em tons azulados lá fora.

sexta-feira, novembro 05, 2004

Sexta-feira, mais um dia de posts extranhos...

Tá, as crônicas não tem surtido muitos comentários nem visitas, isso me desanimou um pouco com relação à minha produção para o Projeto Nascente, mas tudo bem. Acho que poderia ter trabalhado um pouco melhor o último texto, tinha várias idéias legais, mas faltou tempo para variar. Então por hoje vou me ater aos comentários da semana.

Mulheres, mulheres, mulheres.
Ainda vou ficar louco, o tempo melhora e as garotas aqui do trabalho desfilam com cada vestido que me deixam insano... Não sei se já falei alguma vez sobre o quão sexy eu acho uma mulher de vestido, saia, mini-saia... Pernas, ahh... posso dizer com algum orgulho que compartilho de uma das opiniões do Drummond... rs. E existe algo mais sensual do que uma garota inteligente e bonita com um vestido leve, cabelos soltos, mostrando de leve os ombros e as pernas claras, inebriando os sentidos com o seu cheiro e um sorriso lindo nos lábios? A tradição clama por mim, dezenas de poetas que sob esse céu estariam tomando sua cerveja a beira do mar, escrevendo, discutindo e observando a essas beldades. Mas só observando... São todas livre, muitas comprometidas e eu aqui passo só vontade, tenho tanto com o que me preocupar, tanto a estudar, e montanhas de trabalho... O jeito é ligar o meu disc-man e ouvir novamente “Love in a Elevator” do Aerosmith.

Cores.
Hoje o escritório está despido do cinza habitual, centenas de bexigas coloridas enfeitam cada monitor da sala em comemoração ao aniversário da empresa. O efeito é delicioso, somado ao fato da semana estar chegando ao fim, todos trabalham um pouco mais felizes. Muitos preferiam que a comida do refeitório fosse boa só por hoje. Eu particularmente olho para as minhas bexigas laranjas e penso que de tão belas provavelmente devam ter um gosto melhor do que o arroz cru, o pirão azedo e o peixe de que tentei fugir inutilmente ontem. Acho que estou emagrecendo, depois da viagem não tenho mais dinheiro para comer comida de verdade. Minhas refeições matinais sempre foram parcas, meu almoço agora tem sido repetidamente folhas amarelas e pedaços de beterraba e o jantar, que já estava restrito a um ou dois salgados na faculdade, agora já não existe mais. Estou pensando em arrumar um fogareiro à álcool e trazer marmita, ou cozinhar aqui, mas para um não tenho espaço na mochila e para o outro não acho que o RH vá gostar. Mas é bom olhar ao redor e ver alguma cor diferente, já que não tenho uma janela para olhar o céu lá fora e ainda não pintei a minha paisagem para colar aqui dentro. Se eu não tivesse uma prova na segunda, talvez a pintasse hoje, ou durante o final de semana. O engraçado é ler o texto enviado pelo diretor da empresa que diz que a força e o valor da empresa reside aqui em seus funcionários e saber que existe uma comissão de corte de custos do refeitório que já não serve comida. É nisso que dá um canceriano sarcástico escrevendo com fome antes do almoço...

quinta-feira, novembro 04, 2004

O dia dos mortos

Ao se levantar, logo pela manhã, seus olhos teimavam em ficar fechados. O corpo jazia semi-inerte enrolado nos lençóis e virava-se vez ou outra procurando um pouco de calor e uma posição confortável. Mas sua consciência não tardou a falar mais alto e mesmo amarrado as necessidades fisiológicas que seu corpo exigia de forma pungente e turbulenta, levantou-se cambaleante e arrastou-se pelo quarto tateando em busca de uma calça. Ontem havia sido o dia de Finados, o dia onde se cultuam os mortos, e ele havia permanecido confinado a sua casa como um defunto em sua cripta. Não foi a falta de opção, nem a falta de vontade, pelo menos não a princípio. Quando pequeno, seus pais costumavam levá-lo até o tumulo dos avós, em uma outra cidade. Avós que não conheceu, mas os visitava habitualmente, se é que os mortos realmente se importam com visitas; certo dia isso lhe fez pensar: _Coisa curiosa. A morte. Vindo de uma família grande e nascido uma geração mais tarde, conheceu vários de seus anciões e teve a oportunidade de voltar à mansão dos mortos diversas vezes. Hoje, lembrava-se daqueles tempos, da necrópole escaldante, do cheiro de crisântemos, das beatas nas vielas e das pontuais chuvas torrenciais no fim de tarde. Sempre chovia. Sempre. Por vezes os velhos lhe contavam histórias e velhas superstições. Neste mesmo instante lembrava-se de uma: diziam que ao olhar para o cemitério a meia noite do dia de finados, você seria capaz de ver a procissão dos mortos saindo de suas covas em direção às casas para visitar os vivos. Pensou pelo dia à fora, sem encontrar a resposta a equação que se impunha lasciva a sua mente. Quem estava de fato morto? Seus avós, que hoje não passavam de um punhado de pó, cabelos e ossos ou ele, que lutava contra os próprios impulsos e necessidades da vida para enfrentar um novo dia de trabalho? De olhos vidrados em frente ao monitor o sono tentava usurpar sua atenção, este há dias o desafiava, mas também negava a ele o descanso. Com o descaso a fome lhe tratava e mesmo as iguarias que mais apreciava não pareciam provocar-lhe o estímulo necessário. Gastou com alguma besteira que comera apenas pelo impulso. Se quer possuía fome. A volúpia parecia jogar o mesmo jogo, mostrando-se em horas impróprias para desvanecer nos momentos onde seria ela oportuna. Durante todo o tempo em que permanecia acordado tinha impressão de ter suas vontades trocadas, queria dormir quando precisava ficar acordado, trabalhar quando devia dormir, rir e conversar quando deveria fazer sexo... Desenhar, ler, estudar, brincar, beijar, deitar na grama, nadar na praia, tudo se misturava em um sincretismo maldito, ameaçador, brincalhão. Espíritos Zombeteiros... Parecia-lhe agora que havia passado para outro lado da vida, parecia agora pertencer ao Senhor dos Esquecimentos. Este vinha se aproximando vagarosamente em uma marcha inexorável. Primeiro se apropriara de suas memórias, depois de seus gostos e agora parecia cobrar sua vida, sentado sobre o computador, estalando os dedos e balançando os pés sobre o monitor, o que produzia um estalido baixo e cadenciado do contato entre o coturno que vestia e o vidro do monitor. Talvez seja isso, talvez seja uma forma de ignorar quem está vivo e quem está morto. Talvez um modo de cultuar a nós mesmos. Jogo perigoso esse, quando pequenos seres se aproximam cobrando coisas grandiosas.

sexta-feira, outubro 29, 2004

O que não deve ser nomeado.

_O que mais lhe assusta? – perguntou o homem no outro canto da sala.
Imersa em sombras e fumaça de cigarro apenas o mostrador do rádio relógio rasgava em verde os tons marrons escuros que cobriam a sala como uma mortalha. Um silêncio mórbido percorreu o ambiente causando a mesma sensação estranha que a friagem causa em nossa pele instantes antes do tempo mudar avassaladoramente. Por vezes, seus pelos arrepiavam-se e todo o ambiente parecia compor um quadro em sua mente, com cores da fase holandesa de Van Gogh. Imagens corriam sua mente e vultos freqüentavam a extensa sala. Uma imagem se formava.
_Certas coisas não devem ser nomeadas. – respondeu o rapaz em voz baixa, esquivo e inquieto.
Uma crença comum é a de que nomes têm poder, saber o nome real de uma coisa pode ser bastante perigoso. O rapaz tentou explicar entre palavras vacilantes. Falou ao homem sobre uma certa crença Haitiana, rituais de morte e os pesquisadores que tentaram estudá-la, falou também sobre o poder de se acreditar em algo. Logo suas palavras sumiram em meio a fumaça.
_Por que me perguntou isso? – o temor começara a se transformar em raiva.
O homem não soube responder, por mais preparado que estivesse a força nas palavras do rapaz lhe açoitaram o peito, o ar faltara e suas próprias palavras não conseguiam romper o som do silêncio. O homem percebeu que acordara demônios que permaneciam há muito adormecidos, demônios que não deveriam ser acordados sob hipótese alguma. Na verdade, o que ele não sabia é que este demônio voltara a rondar pouco tempo antes e possuía sim um nome.
A sensação de estar com o abdômen preso por faixas sujas, levemente ensangüentadas, encurtando-lhe a respiração, em um quarto semi-destruido, imerso na sombra, ao súbito e esperado zunido de um letreiro de néon vermelho refletindo nos respingos que a chuva colocara na janela; somada a impressão de uma mão em forma de garra, feita de acúleos de rosas, com seu caule já há muito seco, espremendo o seu coração a cada batida, como que fazendo-o bombear o mesmo sangue que escorre por entre os longos dedos desta mesma mão sob o odor característico de madeira podre. Pavor é o nome.
O homem afrouxou a gravata e soltou o primeiro botão da camisa, uma atitude nada convencional, pouco profissional em sua própria opinião. Tentou disfarçada e inutilmente enxugar as gotas de suor que passaram a brotar em sua face na mesma velocidade de seu pensamento. Era tarde demais, seu nervosismo já era aparente.
Em sua frente com as faces ruborizadas, inclinado para frente, ofegante, dentro da única coisa clara em todo aquele ambiente, florescia agora a impressão de ar brotando de dentro para fora, inundando os seus pulmões, um calor conhecido e um ímpeto destemido, desavisado, imprudente gritando em sua mente. A raiva agora fluía livremente. Abruptamente parara o som do letreiro de néon. Tudo isso por causa de um nome, um nome de mulher. Ela voltou.

quinta-feira, outubro 28, 2004

Como outro dia qualquer

“Hoje acho que estou a fim de pegar um cinema sozinho, como nos bons tempos”. Foi assim que começou. Olhou os bolsos onde jaziam duas moedas de dez centavos, a carteira onde um surrado trevo de quatro folhas dividia, plastificado, o pequeno espaço com cinqüenta Iene e mais vinte centavos de Real e terminou com uma breve visita ao site do banco, onde números vermelhos exterminavam sonhos. Respirou fundo, olhou o trabalho empilhado sobre a mesa junto ao computador e uma xícara fria de chá. Ainda dá para tomar, pensou num surto de polianisses. Fez algumas contas. Hoje é quinta, amanhã recebo e começo bem o final de semana, cobrindo o limite da minha conta corrente até segunda feira quando, então, faltará apenas quinze dias para que o ritual se repita. Sentiu-se ridículo, riu de si, reclinou a cadeira e continuou digitando. Um breve olhar ao redor revelava pessoas ocupadas, preocupadas e desesperadas pelo excesso de trabalho. Na mesa em frente, um administrador mauricinho abria uma embalagem de plástico e se debruçava, voraz, sobre o pedaço de bolo de chocolate. No disc-man um led indicava a bateria chegando ao seu fim enquanto Lenny Kravitz tocava apenas para ele.
Procurou rapidamente algo em seu e-mail e encontrou apenas algumas propagandas, dois vírus e algum vazio. Pensou: “Existirá vida inteligente lá fora?”. Era quase hora do almoço, hora em que, diariamente, ele fugia desesperado do refeitório da empresa em busca de alguma comida real e alguma discussão estimulante. Infelizmente as garotas mais inteligentes do escritório por vezes insistiam em retornar a assuntos rotineiros e por demais cotidianos. Casamentos, crianças, o maldito trabalho de conclusão de curso. Assuntos que se repetiam religiosamente da mesma forma, com os mesmos comentários e tópicos em uma ordem inabalável. Memens. Ao menos elas não falam sobre novela... Os rapazes, bom, meu salário não ajuda muito a convivência. O almoço passou por ele como previsto, não conseguiu empurrar o lixo que alguém insistia em chamar de comida, feijão sem gosto, farofa mole e pedaços crus de frango e lingüiça. Comeu apenas alguns pedaços de beterraba, algo que nunca lhe agradara, e tomates extremamente vermelhos. Lembrou-se do exército e em seguida tentou retirar uns cheques no caixa do banco para comprar qualquer coisa que lhe enganasse o estômago. Quando retornou a sua mesa a voz do administrador em frente o irritava penetrando levianamente em sua mente, este, passara toda a última hora no telefone, entretido em uma conversa fútil onde se gabava por enganar com sucesso a própria namorada. Ligou novamente o disc-man numa tentativa frustrada de ignorar o administrador e exterminou grande parte do trabalho enquanto isso. Pôs-se então a examinar as resenhas dos clientes. Continuou curioso sobre a existência de vida inteligente.

segunda-feira, outubro 25, 2004

Alma

Escrito originalmente domingo pela manhã durante algum tempo psicológico.

Cheiro da “Radical. Uma peculiar mistura de móveis velhos, tinta de impressão serigráfica, papel couche e revistas. Quando entrei na sala, preenchera-me os pulmões, agora, por um instante, quase o perdi. Limpo a mesa do outro lado da sala e arrasto-a para perto do sofá. Coloco o aparelho de som em uma extremidade e sento-me na outra com os meus livros. Levanto, procuro a tomada e coloco um CD no aparelho de som. Música clássica, ou quase... A trilha sonora de “O Senhor dos Anéis”. Não pude resistir a vontade de escrever. O som, os cheiros, a arte. Essa mesma sala já foi o meu estúdio inúmeras vezes. Assistiu a vários “estados” e mudanças de espírito meus. Essa sala conheceu de mim um lado que poucos conhecem, talvez ninguém. Agora ela está tomada de coisas da Radical, firma do meu pai. Humm... vejo aqui, de repente, tantas coisas sobre o que escrever. Simples prazeres... A música evolui forte ecoando pela sala, violenta, sóbria. Lembro-me dos aromas das mulheres que tive. Como um cheiro pode seduzir um homem? Domá-lo? Tocá-lo? Posso lembrar-me dos aromas de cada uma delas, o que às vezes me faz arrepiar. Estes dias todos tenho pensado: que tipo de homem eu sou? Sobre tudo um tipo raro. Creio que tenho aquele tipo de característica provocadora, acompanhada por uma profundidade assustadoramente perigosa. Algo em mim atrai e amedronta. Tenho uma segurança sobre coisas que assustam as pessoas comuns, sempre gostei do desafio, da audácia, do perigo. Mas confesso que muitas vezes não sei lidar com coisas simples como um Beijo. Touche. Às vezes penso demais, ponho tudo à perder. Um troféu enfeita o tampo superior do piano de minha mãe, nesta mesma sala. Foi um dos melhores dias da minha vida, quando domei um cavalo e venci uma prova hípica de salto. Faz tanto tempo... seis longos anos. Esta sala também me faz recordar alguns dos beijos apaixonados que já dei. A alma de um homem é algo que poucas vezes se revela.


quinta-feira, outubro 21, 2004

Frase Red Dragon da semana:

“O estado de degradação de um homem é diretamente proporcional à quantidade de Cup Nodles que ele toma no café da manhã.”

quarta-feira, outubro 20, 2004

Top 5 - Filmes Trash e infames

Acho que foi Charles Chaplin que disse que você precisava ser bom para fazer chorar, mas precisava ser um gênio para fazer rir. Assim decidi utilizar essa coisa acinzentada que possuo entre as orelhas (não, eu lavo os ouvidos diariamente) para escrever algo diferente hoje. Sem pretensões à genialidade, (embora o humor seja reconhecidamente um sinal de vida inteligente) quero apenas tentar arrancar um sorriso ou dois das pessoas por hoje falando um pouco de bobagem. Vamos ao tema, vou aproveitar um pouco do meu serviço para falar sobre os filmes mais bizarros que eu já vi e seus nomes curiosos. Que comece o top cinco!

Em ultimo lugar...
Curiosamente, os filmes de artes marciais parecem ter uma grande propensão ao mundo bizarro. Quando comecei a escrever este post, o primeiro nome que me veio à mente foi “Rajada de Fogo”, um filme super batido que já passou zilhões de vezes naquela coisa lobotomizante com que as pessoas continuam insistindo em perder o seu tempo, a chamada televisão aberta (não que a paga seja muito melhor). Confesso que tive a sorte de nunca tê-lo assistido. Porque então foi o primeiro nome de que lembrei? Uma velha piada de colégio sobre que tipo de filme tem o nome “Rajada de Fogo”. A mente dos garotos aos 15 anos é uma fonte surpreendente de bobagens...

No penúltimo lugar...
O segundo nome que lembrei foi o famosíssimo “Reno, Desarmado e Perigoso”. Charles Bronson realmente é o cara, eu juro que queria ter a metade da habilidade dele em interpretar o maior papel de sua carreira (o papel dele mesmo), convencer os estúdios a filmarem a interminável série “Desejo de Matar” (onde ele se divertiu atirando com uma .45 e dando vários roles de Cherokee) e ainda conseguir que a Jeep permitisse que ele queimasse totalmente o filme da marca usando uma Grand Cherokee em todos os seus filmes. Esse cara realmente tem talento, sabe como se divertir e ganhar dinheiro! Pena que ele se pareça com o diretor da escola onde fiz o colegial...

Em terceiro lugar...
Agora, ao pensar no terceiro filme eu comecei a ficar preocupado. Misteriosamente todos os filmes muito ruins de que estou me lembrando parecem fazer parte da minha adolescência. O terceiro colocado (mnemonicamente falando é claro), foi uma disputa interessante entre “Freeklândia – O parque dos horrores” e “A Fantástica Fábrica de Chocolates”. Esse foi páreo duro, Freeklândia era um filme que costumava passa no SBT freqüentemente e era tão freek, tão trash, que conseguia me arrancar muitas risadas. É o típico filme B ao estilo um-Nerd-e-uma-câmera, o que me faz ter muita saudades da extinta “Gorda Flácida Produções”, a mega produtora de filmes B que foi muito ativa entre 1997 e 2001 aproximadamente. Ela produziu, entre outros, os clássicos thrillers “Cereal Killer I eII”, o cult “A Minhoca Assassina”, o épico moderno “Os Guerreiros de GranVille” que acidentalmente foi gravado sobre o final do primeiro “Cereal Killer” e um outro filme que nunca descobri o nome mas que foi inteiramente produzido, dirigido, estrelado, editado e divulgado pelo meu amigo Espírito da Noite. Bons tempos aqueles... quem assistiu que o diga. Um dia quem sabe ressuscitemos a coitada (ela merecia um post inteiro só para ela). Assim para o terceiro lugar elegi aquele que nunca assisti: “A Fantástica Fábrica de Chocolates”. Chocolate satisfaz mesmo quando amolece, mas um filme tosco com esse nome ninguém merece, tem que ser muuuuuuuuuuuito ruim.

Em segundo lugar...
Isto era para ser um top cinco, mas como alguém nesse país tem que trabalhar (entenda-se: minha chefe vai sair da reunião daqui à pouco e há uma enorme pilha de DVDs cobrindo a minha escrivaninha cinza claro) vou terminar com o segundo lugar. Filme: “Copycat III - ???” (o subtítulo era tão ruim que eu nem me lembro). Esse filme é sensacional, não vou nem comentar sobre o elenco multirracial que faz com que um russo e uma japonesa loira tenham um filho negro. Vou direto à primeira cena do filme, onde uma chinesa (japonesa, tailandesa ou coisa que o valha) vestindo um uniforme preto em uma mesa de cirurgia e leva uma injeção no meio da testa. Esse é o ápice... depois disso não tenho coragem de comentar mais nada...

Eu sei que as grandes restrições saco-orçamentárias me impedem de ter um campo de comentários decente que permita mais de 5 comentários, mas seja você também, mais um juiz a votar no pior filme trash de toda a sua adolescência! Deixe um comentário!

terça-feira, outubro 19, 2004

Tédio

Ontem eu passei o dia inteiro entediado, depois de um final de semana legal fiquei surpreso em saber que mesmo com bolinhas ainda consigo ficar de mau humor. Não sei bem porque. O ápice do meu tédio foi sonhar que eu jogava Magic: The Gathering com três amigos de colégio (ou deveria dizer com dois amigos e mais alguém) em uma noite chuvosa. É possível isso? Ter um sonho entediante? Para mim é novidade, não me lembro de ter passado por isso antes. Devo dizer que não há nada mais desafiador à criatividade de um sujeito do que o tédio. Nas últimas semanas o numero de posts que tenho publicado andou minguando, fiquei fazendo hora extra por vários dias e não tive tempo para publicar nada. Então vem essa misteriosa onda de tédio, aproxima-se como uma taturana avançando em movimentos circulares, coroada por esse tempo chuvoso, mundos de coisas para estudar, algumas traduções “malas” para fazer no trabalho, centenas de resenhas de clientes para revisar e subitamente rouba as minhas idéias... Devo dizer que o rombo orçamentário na minha conta também não ajuda muito o meu humor... rs. Afinal, não há tédio que resista a um bom rodízio de comida japonesa regado a um bom sake. Uma bela companhia também seria ótima, imagino-a trajando um vestido chinês vermelho com uma flor enfeitando seu cabelo e horas de conversas agradáveis. Ahh... sonhos... o que eu não daria agora por uma travessa com dezenas de sashimis, temakis, guiozas, hot rolls... Ou então uma visita à Curry House... Pelo menos acordado ainda consigo sonhar. Apenas sonhar, porque os números vermelhos do site do banco insistem em agredir meus sonhos na tela do computador.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Alô Blumenau! Bom dia Brasil! São 17 dias de folia...

Para ouvir enquanto lê: Don't stop me now – Queen (pensaram que eu tinha perdido o hábito né? rs).

Eu já havia me esquecido como é bom viajar, principalmente depois de árduos meses de trabalho e faculdade. O feriado fôra as minhas merecidas férias longe de tudo e de todos os problemas, pela primeira vez sem preocupações quanto a estar desempregado. Foi épico, muito divertido, descansei, conheci pessoas novas, lugares diferentes, senti saudades, ri bastante e de conheci o lado “selvagem” da vida... rs (desculpem pela piada interna, não pude evitar). O sul é um lugar incrível, eu estou até pensando em fazer uma daquelas promessas de me mudar para lá se eu não casar até os 35 (não que hoje em dia eu pretenda casar... rs, o que é ironicamente engraçado). Pensei até em tentar arrumar um estágio por lá quando eu terminar o bacharelado e transferir a licenciatura para a Federal de Santa Catarina ou coisa que o valha, só pela diversão.
Pretendia escrever um épico sobre a viagem, mas meus esforços foram frustrados, até agora ainda estou com sono, mesmo tendo dormido bem de ontem para hoje. Tentei escrever de lá e atualizar meu blog, mas tudo o que consegui foi enviar uns três recados via orkut, a lan house de lá possuía um teclado ABNT qualquer coisa e eu não encontrava um acento se quer. Meu plano de escrever um diário da viagem também acabou indo por água abaixo, esqueci o caderno e acabei não comprando um. Já as fotos clicadas acabaram se restringindo a um filme iso 400 do Nihil – “o Homem selvagem”, que tentamos acabar às pressas para brincar com um segundo filme de iso 800 que acabou por ficar esquecido no hotel durante a melhor de todas as noites. Mas mesmo depois uma viagem incrível e divertida, mas meu espírito cômico ficou na estrada junto com o meu cérebro, quase 11 horas de viagem na volta, ninguém merece. Então, por hoje ficam os agradecimentos ao Nihil e ao Tex Murph, meus companheiros na Savage Fellowship, que dividiram comigo essa viagem, chocolate e cerveja! E também, a Tezinha (futura candidata a Red Dragon), a Gabi (com quem acabei não conseguindo conversar muito, mas é fofa e gente boa demais), a Keka (pelas risadas e momentos de descontração) e a todas as amigas do Nihil que conheci e de quem não esquecerei. Agora volto a programação normal e a minha escrivaninha cinza claro, lotada de trabalho...

Don't stop me now - Queen

Tonight I'm gonna have myself a real good time
I feel alive and the world I'll turn it inside out - yeah
And floating around in ecstasy
So don't stop me now don't stop me
'Cause I'm having a good time having a good time

I'm a shooting star leaping through the sky
Like a tiger defying the laws of gravity
I'm a racing car passing by like Lady Godiva
I'm gonna go go go
There's no stopping me

I'm burnin' through the sky yeah
Two hundred degrees
That's why they call me Mister Fahrenheit
I'm trav'ling at the speed of light
I wanna make a supersonic man out of you

Don't stop me now I'm having such a good time
I'm having a ball
Don't stop me now
If you wanna have a good time just give me a call
Don't stop me now ('Cause I'm having a good time)
Don't stop me now (Yes I'm havin' a good time)
I don't want to stop at all

Yeah, I'm a rocket ship on my way to Mars
On a collision course
I am a satellite I'm out of control
I am a sex machine ready to reload
Like an atom bomb about to
Oh oh oh oh oh explode

I'm burnin' through the sky yeah
Two hundred degrees
That's why they call me Mister Fahrenheit
I'm trav'ling at the speed of light
I wanna make a supersonic woman of you

Don't stop me don't stop me
Don't stop me hey hey hey
Don't stop me don't stop me
Ooh ooh ooh, I like it
Don't stop me don't stop me
Have a good time good time
Don't stop me don't stop me ah
Oh yeah
Alright

Oh, I'm burnin' through the sky yeah
Two hundred degrees
That's why they call me Mister Fahrenheit
I'm trav'ling at the speed of light
I wanna make a supersonic man out of you

Don't stop me now I'm having such a good time
I'm having a ball
Don't stop me now
If you wanna have a good time (wooh)
Just give me a call (alright)
Don't stop me now ('Cause I'm having a good time - yeah yeah)
Don't stop me now (Yes I'm havin' a good time)
I don't want to stop at all
La da da da daah
Da da da haa
Ha da da ha ha haaa
Ha da daa ha da da aaa
Ooh ooh ooh

terça-feira, outubro 05, 2004

Carta a um velho amigo: Sobre ideologia e vinho

Hahahaha.Ah, caro amigo, soubesse você o tanto que o tempo me trouxe... Quantas mudanças, quanta maturidade...Acho que o melhor que posso dizer a meu respeito nesse sentido é parecido com o meu gosto para a bebida:Aprendi que não se bebe para encher a cara, mas para degustar uma boa bebida. Em fato beber e comer carne são coisa que faço por gosto e até por um posicionamento ideológico que vai contra a radicalização das idéias e contra os fundamentalismos. Eu poderia parar de beber ou de comer carne a qualquer momento se e somente se eu quisesse, se achasse que isso tem algum valor e quando falo em valor digo-o para mim, não tento aqui postular sobre o que todos devem ou não achar e fazer. Existem motivos muito bons para cada ato.
De um certo modo eu poderia dizer que não deixei de acreditar na "revolução", mas que, como tudo, tem de ser feito com consciência, ao contrario do que muitos pensam (aqueles que buscam a iluminação através dos atos e não das palavras). Embora as pessoas de modo geral não tenham gostado das continuações de matrix, eu devo dizer que, apesar delas não possuírem a genialidade do primeiro, as pessoas optaram por criticar o lado comercial e esquecer as discussões filosóficas. O segundo filme deixa bem claro aquilo que estou tentando dizer. O importante não é o ato em si, mas a compreensão sobre o que deve ser feito. Acho que isso expressa uma base muito grande onde se fundamentam vários dos meus comportamentos e das minhas ideologias hoje.
Yuppie de terninho? Rs... Meu gosto musical mudou bastante nesses anos todos, creio que para melhor, como disse a única coisa que tenho achado absolutamente agradável na idade é que um vinho de uma safra antiga tem um sabor melhor. Fui metaleiro, quase from hell, hoje estou muito próximo da ecleticidade. A pura ecleticidade em si não tem para mim muito valor, acho que ela deriva de uma ausência de aptidão crítica sobre uma das maiores formas de expressão, a arte. A arte é um dos filhos incompreendidos da humanidade. Hoje ela sobrevive de forma muito triste transformada em mercadoria como tudo aquilo que o homem é capaz de criar. Fácil é ouvir música, difícil e compreendê-la. Fácil é parar diante de um quadro, difícil é decifrá-lo. Fácil é ler um texto, difícil é compreendê-lo. O segredo para o gosto está no que Saussure chamou de significante e significado (o que mais uma vez me remete a uma das conversas mais agradáveis que já tive na vida e da qual sinto muita falta). Se eu mostrar um kanji, yama, por exemplo, a uma pessoa qualquer na rua, para ela isto nada irá significar. Serão apenas três traços verticais, que alguém poderia dizer simples traços, alguém poderia dizer um borrão e alguém poderia dizer que é um buraco feito pelas garras do Wolverine. O significante neste caso não teria significado certo para essas pessoas. Mas se eu mostrasse o mesmo kanji a você que estudou japonês por 8 anos, independentemente de não se lembrar quase nada, você pode até não lembrar do nome, mas sabe que yama é o kanji para montanha. O significante para você tem um significado. Partindo deste ponto sabemos que você pode discutir a respeito deste kanji e atribuir a ele um valor. Assim como poderia falar com propriedade sobre The Doors, uma banda que você sempre gostou, mas talvez não possa falar sobre música folclórica Neozelandesa.
Sobre o modo de vestir, acho que não sigo exatamente um modo, tenho sim um modo próprio, uma amiga minha disse que eu sou meio esporte... rs Creio que um hábito que adquiri depois do exército. Prefiro roupas que não me restrinjam os movimentos e que não sejam absolutamente largas podendo enroscar em qualquer coisa. Gosto de bolsos vários, fundos e ajustados ao corpo de modo que não pressionem o que eu carrego contra o meu corpo, mas que também não fiquem sacolejando. Atualmente eu tenho investido mais em um visual motociclista, devido à necessidade de ter roupas que protejam mais em caso de queda.
E para terminar de responder a sua carta, falemos sobre o vício da internet. A internet é uma ferramenta. Assim como uma chave de fenda ela por si só não é boa ou má, conceitos meramente humanos. Bom ou mau é o uso que damos a ela. Acho uma ferramenta formidável, só espero que sua esposa não tenha que disputar pela sua atenção com o computador, isso sim é um hábito desagradável. Um amigo que temos em comum, tem o péssimo hábito de deixar suas visitas esperando enquanto passa horas ao telefone. Isso é extremamente desagradável e desrespeitoso, reduzir uma pessoa a um objeto, que fica sobre sua estante até que você deseje utilizá-lo ou não e que, como qualquer criança descuidada e deslumbrada ou um animal como um gato, irá largar de qualquer jeito em qualquer lugar quando alguma outra coisa qualquer lhe chamar a atenção. O vício pode ser sobre qualquer coisa, pode ser sobre cocaína ou basquete, mescalina ou computação, álcool ou limpeza. O que caracteriza o vício é o abuso de algo em detrimento a uma obrigação ou ao convívio social.
Espero que me desculpe pelo tom absolutamente filosófico e um tanto frio que impregnei nesta carta, mas não escrevo no meu blog há alguns dias e achei nesta um prazer e um tema propício para um bom post. Lá, você a encontrará dentro em poucos momentos...

[]’sJuca

quinta-feira, setembro 30, 2004

Procuro enfermeira: pago em espécie.

Como é ruim ficar doente. Não falo isso por todos os motivos óbvios. Claro que todos os motivos diretos são muito chatos, as febres, as dores, as limitações... sem falar no prejuízo, mas cada vez que fico doente tenho a impressão de que atropelei um cigano. Observem o meu caso: Há algum tempo em um passado longínquo eu fiz um curso de massagem onde fui instruído e agraciado com a dádiva de ajudar as pessoas. Mas havia nesse mesmo curso uma senhora meio estranha que sentava na frente da sala e que me atirava olhares horripilantes cada vez que eu ganhava um elogio dos meus professores. Eu me empenhava bastante e como era o aluno mais jovem, era inevitavelmente notado em meio a uma sala de aula composta por senhoras em média 30 anos mais velhas que eu. Entre outras coisas, isso fazia com que eu ganhasse massagens dos meus professores a cada vez que eles necessitavam de um modelo. À margem de minha apreciável condição, esta estranha figura que usava um par de meias vertiginosamente listradas, carregava sempre um baralho só com cartas de copas, um fole e um cesto de maçãs, rogou-me uma praga. Desde então, sempre que preciso de massagem passo maus bocados até a conjunção astral mais próxima se realize (Depois da palestra que assisti essa semana sobre os calendários lunar e solar na cultura japonesa tenho a impressão de que tem alguma coisa haver com isso também).
Mas vamos aos fatos recentes. No final de semana eu fui inocentemente ajudar a minha irmã mais velha que havia tirado a coluna do lugar, uma das pessoas que eventualmente consegue escapar a regra e me fazer massagem. Coloquei no lugar, tudo muito naturalmente, e na segunda feira à noite comecei a me sentir mal. Minha terça feira foi desprezível, desmerecendo qualquer comentário... Quarta feira logo cedo decidi dar fim ao meu estado miserável e ir a um hospital. Lá chegando fui atendido por uma médica absurdamente mal-humorada que fez pouco caso de eu ter passado a terça toda com febre e ainda quis me fazer sentir culpado por existir. Não obstante, ganhei ainda duas injeções na nádega esquerda, que hoje eu tenho a impressão que vai se destacar do meu corpo e cair dura no chão, e um “vai trabalhar vagabundo”. Para não dizerem que eu sou machista vou citar o comentário de uma das minhas amigas do trabalho sobre esta parte da história: “_ Desencana, o namorado dela dever ter dormido de calça jeans ontem”.
Moral da história, hoje estou melhor, mas não tenho um puto para comprar os remédios que ela mandou e a injeção de ontem está perdendo o efeito, o que significa que vou voltar a piorar até amanhã, ainda mais com esse tempo tosco que está fazendo aqui em Sampa. Com essa história toda estudei muito menos do que eu queria essa semana e estou me sentindo o último Dodô. A carência de estar doente sozinho é algo absolutamente insuportável. Odeio a sensação de vulnerabilidade e dependência, queria sumir da face da Terra.

sábado, setembro 25, 2004

Chega de ser o bonzinho.

Não, não estou puto da vida, não levei mais um fora que me fez rolar por três meses, não aconteceu nada de mal, nada de ruim. Em fato nunca estive tão lúcido. Vou contar uma historinha, ela começa com um garoto frágil e sensível, que só queria agradar de todas as formas às mulheres. Não posso dizer que ele tenha aprendido tudo o que havia para ser aprendido, estava bem longe disso, mas ele aprendeu bastante, digamos que ele tenha aprendido quase o suficiente. Incrivelmente este garoto nunca deu muita sorte no quesito relacionamentos, engraçado não? Pois é, creio que o mais engraçado é que as pessoas que se aproximavam sempre o faziam seduzidas por duas imagens que na verdade não existiam, o anjo e o demônio. Mas o anjo era bonzinho demais, e como tudo o que é muito doce, ele causava satisfação e enjôo para não falar no medo de se estragar algo belo. O demônio, bem esse era bem visível, mas sempre ficara lá dentro e raramente saia para dar umas voltas. Entretanto, as pessoas que viam o demônio corriam para ele extasiadas com sua presença.
O irônico era isso o garoto ser as duas coisas e não ser nenhuma. Engraçado terem sempre o visto como o amante perfeito, mas um péssimo namorado, engraçado olharem para ele e verem nele aquele ar de cafajeste que ele sabia ter no sangue, mas queria a todo custo negar. O garoto era muito bom com uma coisa, sabia ler as pessoas de trás para frente, ele sabia olhar nos olhos de uma mulher saber exatamente o que ela queria ou não, mas pecava em uma coisa, nunca quis machucar ninguém, morria de medo disso. Pois que o tempo passou e pensando em todas as oportunidades perdidas e na vida que havia pela frente o garoto percebeu o seguinte: “Não arriscar nada é arriscar tudo”. Chega de medos, chega de proteções infindáveis que no fundo só lhe roubam a agilidade, chega de porquês e mas. Chega. A verdade é que a vida é uma só e se ficamos cheios de dedos para fazer as coisas, acabamos sem fazer nada. Isso não significa tocar o f0d4-s3 e machucar todo mundo, mas dar às pessoas a opção de viverem suas vidas e arriscarem o quanto estão dispostas. Não se trata de enganar ninguém, muito pelo contrário, trata-se da verdade mais absoluta, aquela que o garoto negou por todo esse tempo, mas que nunca seria feliz se não tentasse libertá-la. No fundo, somos o que somos, nada mais e nada menos.