terça-feira, março 29, 2005

Boa noite e boa viagem.

Não é novidade que ando com dificuldade para escrever, os assuntos sumiram, as publicações minguaram, vários textos disputam a minha atenção para serem terminados e eu não consigo achar nenhum digno de nota. Nenhum. Acredito que tenho escrito melhor, mas dada hora eles travam, não descem...
É, já contei algumas vezes que escrevemos sempre para alguém, e acho que eu estou numa dessas épocas em que eu não sei para quem escrevo. Assim decidi escrever este texto para as pessoas que não mais estão aqui. Não, não estou falando de mortos e de cemitérios, mas daquelas pessoas que por um breve instante da eternidade, significaram muito para mim, mas que, por um motivo ou outro, seguiram estradas diferentes.
Tento me segurar, mas o sarcasmo que herdei com o meu sangue não me permite o silêncio: existem aqueles que pegam estradas diferentes e aqueles que deliberadamente as escolhem, mesmo que não queiram acreditar nisso ou simplesmente não o admitam. E é óbvio que este texto fala sobre o segundo tipo de pessoas.
Paro, olho para o teclado, olho em volta e percebo que chegara o momento no qual todos os meus textos parecem estar empacando ultimamente, logo após sua introdução. Mas este é um dos que eu tenho que enfrentar, por mim e por mais ninguém. Não acho que alguma das pessoas em quem estou pensando agora venham a ler este texto algum dia, esta é uma possibilidade remota, então não é isso o que tenta me impedir e sim o apego. A verdade é que eu decidi parar de lutar contra as vontades alheias. Querem ir? Vão... e tenham a minha benção. Sim, estou chateado com isso, sim me sinto ofendido, abandonado talvez. Mas de todas as coisas sobre gostar das pessoas, talvez esta seja a mais certa: embora amor não se meça, as pessoas não se gostam igualmente e muitas vezes você irá gostar mais de alguém do que este alguém de você, bem como muitas pessoas gostaram de você bem mais do que você delas, talvez bem mais do que você ame a si mesmo. Entendam como quiser, esta não é uma carta de alforria, não existem correntes com as quais eu prenda as pessoas, ou qualquer forma de posse que eu estabeleça, e tendo estas pessoas todas partido já há algum tempo isto reforça a minha afirmação. Este é apenas um desejo sincero de uma boa viagem vida à fora.
Gostaria que este texto me fizesse sentir mais leve, que purgasse meus pecados, minhas hereges paixões e que extinguisse as minhas saudades. Infelizmente ele não é capaz disso, então aqui eu o encerro e me entrego para os braços da escuridão de mais uma noite sem estrelas.

segunda-feira, março 21, 2005

terça-feira, março 08, 2005

"8"

A luminária balançava devagar fazendo o fio, tencionado, ranger levemente no ponto onde tocava o teto. Paredes vermelho-cereja delimitavam o aposento onde uma mesa longa, perfeitamente envernizada, era coberta pelo verde de um tecido; um mundo de contrastes em um filme de alta sensibilidade. A meia-luz revelava o colo exposto e o contorno perfeito dos seios da garota que iniciara o seu movimento, estremecendo a ordem do mundo. Do outro lado da sala, saindo da penumbra, ele contornava a mesa com movimentos felinos, um sorriso no canto dos lábios e olhos escuros, atentos e brilhantes. Snap! Uma bola corria para a caçapa enquanto a luz continuava a pendular, e levantando da mesa para ela, lentamente, os olhos, ele pronunciou em meio a um sorriso: “_É sua vez”. A luz focara abruptamente em sua mão, segurada com força, um gesto de cortesia tão tentador como o que balançara a luminária. Ela ria tímida afastando, esbaforida, dos lábios a taça de champagne marcada pelo batom e colocando-a de lado junto a sua timidez. Olhou diretamente dentro de seus olhos, caminhou sensual e decididamente de encontro a ele e inclinou-se levemente sobre a mesa enquanto mordia os lábios olhando de canto. Snap! Outra bola atravessava a mesa. Ela levantara sorrindo com um ar de graça que lembrava as pin-ups de Gil Evergreen e com um movimento sutil soltou o coque que prendia seus longos fios castanhos, quase negros. Não precisavam de palavras, os olhos de ambos falavam por eles, inquietos, libidinosos, famintos, olhos que devoravam uns aos outros euforicamente com as pupilas dilatadas. A respiração intensa trazia ar aos pulmões gerando aquela leve cócega no externo, uma sensação que poucas vezes se sente, mas da qual ninguém nunca se esquece. Noite adentro, as bolas foram desaparecendo da mesa, uma após a outra em um ritmo forte e intenso, noite adentro... até o momento onde restara apenas uma. Seus olhares se cruzaram desejosos. A tensão alcançara o seu ápice, o tempo dilatara e Beth Gibbons cantava para eles, distante no rádio.
“ ‘Cause the child roses like,
Try to reveal what I could feel,
And this loneliness,
It just won't leave me alone, oh no.”
Logo, não havia mais bolas na mesa, não havia mais copos, não havia mais chão. Os faróis dos carros iluminavam a vida longe em movimento, em flashes que não alcançavam as janelas. Havia lábios, olhos, cheiros, êxtase. O tecido amortecia os movimentos e a luminária pendulava novamente.

quarta-feira, março 02, 2005

Dá um tempo.

Eu queria escrever algo, mas está difícil. Rabisco meia dúzia de textos, começo duas, três vezes cada um e nenhum me agrada. Apago tudo e volto para a prancheta. Eu queria escrever, mas tem faltado tempo, tantas coisas no trabalho, na cabeça, tanto o que fazer, resolver, pensar, acaba não saindo nada, fica tudo lá, preso misturado, tudo errado: girafas com trombas, tigres púrpura, rosas de vidro, prédios de taipa, pessoas de chocolate, asfalto com pimenta. Eu queria escrever sobre como está difícil esvaziar a mente e simplesmente relaxar, eu só queria pensar um pouco, mas quando paro as coisas continuam, rodam ao meu redor, não fluem. Não é só comigo, é com todo mundo. Todo mundo tem que trabalhar, pagar as contas, cuidar da namorada ou de arranjar uma, levar o cachorro no veterinário, ir ao médico, fazer isso, aquilo, aquele outro... O tempo passa e não temos tempo para nós mesmos. Há quanto tempo eu não leio um livro inteiro? Quantas vezes eu realmente consegui me divertir esse ano? Quantas vezes eu não tive horário para voltar? Tento encontrar um ou dois amigos, combinar um cinema, um jogo, um churrasco, uma cerveja. Nunca dá, não tenho tempo, não tenho dinheiro, fulano também não, a garota vai viajar, a moto vai para revisão, o namorado está doente, tenho aula, tenho que estudar, minha mina não quer, Tsunami, vacinação das borboletas, greve dos asnos cegos do Himalaia, estiagem no Nepal, blá, blá, blá... Nunca dá, e quando dá é sempre um estresse, todo mundo quer relaxar, as coisas saem um pouco do eixo, não foi como previsto, discussões, brigas, boxe. Há um tempo, um grupo de amigos que havia se quebrado voltou a se encontrar, motivo: Um deles tentara suicídio. Então houve uma comoção e todos os resolveram se unir para que ninguém mais se matasse. Ninguém mais se matar? Legal, quem precisa ver os amigos porque gosta deles não é? Eles entendem... morrem virando vidros de remédio, mas entendem. E assim se formam os grupos na sociedade, objetivos em comum! Suicídio coletivo, esporte, religião, motos, comida... E prioridades? Para que? Só para justificar o próprio livre-arbítrio, mas o outro... que se foda.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Intelegophobos

Enquanto eu não termino o próximo conto que pretendo publicar (o que espero fazer ainda hoje), resolvi publicar uma observação sobre algo que tem se tornado comum. Comecei a reparar que algumas das pessoas com quem eu convivo indiretamente no trabalho começaram a fazer brincadeiras repetitivas e não muito inocentes sobre a minha inteligência. A princípio eu parei para pensar se não estava sendo metido, mas, salvo exceções, eu até evito admitir minha inteligência publicamente. Desde que me lembro, me sinto incomodado assumindo isso e nunca me agradou a possibilidade de estar sendo arrogante. Quer dizer, não é de hoje esse tipo de coisa acontece e não é um caso isolado, não é só aqui e agora ou eu não sentiria a necessidade recorrente de adotar um comportamento defensivo. Como eu sempre fui cuidadoso com isso, descartei a hipótese e depois de uma breve conversa ao telefone com o Hospitalário, cheguei à conclusão de que as pessoas se ofendem com a inteligência alheia. E eu que acreditava, como a Dríade, que só o Colégio era a sucursal do inferno... não estamos assim tão livres do darwinismo social. Eu já estava incorrendo no erro de acreditar que adolescência difícil não era justificativa para absolutamente nada, afinal todo mundo que eu conheço têm. Mas a Lica-chan me lembrou que a vida das pessoas com quem eu ando foi um inferno, porque também existem as pessoas que tornavam um inferno a nossa vida. Eu esqueci que nós fazíamos parte do “grupo dos excluídos”. Quer dizer, pelo visto, ainda fazemos. Tudo isso lembra muito Malcom X e Martin Luther King. E eu me pergunto: Algum dia deixaremos de ser xenófobos?

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Balanço

Se este carnaval teve algo de curioso não foi o próprio feriado, mas algumas reflexões que passaram pela a minha cabeça. Então, na contramão de todo mundo que resolve parar para balanço no ano novo eu decidi parar hoje. Creia-me como quiser, sou brasileiro e como todo bom filho desta pátria tenho o mal habito de começar as coisas depois do carnaval, mas se preferir, entenda isso como uma homenagem ao ano-novo chinês que começou a semana passada.

Depois de muito deliberar, ele concluiu que estava melhor do que há um ou dois anos, mesmo não tendo se tornado a pessoa que gostaria de ser. Acontece que na vida temos que fazer escolhas que nem sempre são felizes e não temos tempo para fazer tudo àquilo que queremos. Algumas destas escolhas fizeram com que ele perdesse parte de seu condicionamento físico. Outras, descobrir pelo 3 ou 4 ano seguido que nem sempre os nossos amigos estão ao nosso lado e nem sempre quem está ao nosso lado é nosso amigo. E outras ainda, o fizeram perceber que algumas vezes deixamos passar ocasiões que nunca se repetirão novamente e que para realmente ser alguém na vida tem que suar muito a camisa.
Que ano... Pensava ele deitado, observando o céu, sem se orgulhar do que havia descoberto. Na verdade nem acreditava ter descoberto algo, apenas havia provado tudo na pele.
Prostrado no gramado com a pele eriçada pelo toque leve do vento que trazia os primeiros sinais do outono vindouro, pensava ele como havia se tornado um homem muito mais cético do que jamais acreditou ser capaz. Indagava a si mesmo se ainda possuía alguma inocência e observava que algumas pessoas outrora tão grandiosas para ele eram nada mais que humanas, nem piores, nem melhores. O tempo em que todos seguiam juntos para o mesmo lado havia acabado. A lei hoje era bem clara: “Cada um por si e Deus contra todos”. Cada um escolhe um lugar que ache melhor para chegar (porque, como disse o poeta, “nesta vida a única certeza é a morte”) e todos seguem para a sua direção, cada um para um lado.
De fato, ele perdera a inocência, a vida para ele era cinza, sem mágica, sem elfos, sem Deuses, sem, sem, sem... Sem graça talvez, mas nem por isso menor do que a vida pode ser, ela só não era incrível. E eu lhes pergunto: faz alguma diferença? O mundo acabará amanhã por causa disso? Você deixará de pagar impostos por isso? O sol deixará de nascer amanhã? A lua e os astros interromperão os seus cursos? Não. Nada irá mudar. Nada. O que fazia lembrar a ele uma das grandes sacadas de ler Sandman em português. Nada, a única pessoa a quem o Sonho ama. E eu, assim como você leitor ocasional de Neil Gaiman, sabemos que esta sacada é uma mera coincidência, nada intencional, porque Nada não é um nome em português e nem um nome traduzido, mas sim uma daquelas felizes coincidências. A vida não é fantástica. Não se engane leitor, isto não é uma pergunta ou uma ironia, é uma afirmação, uma locução tão direta quanto a vinha do diabo.
E talvez aqui comecem as coisas “boas” sobre tudo o que ele aprendera. Lembrava-se olhando o crepúsculo o quão fantásticas podem ser as palavras que uns poucos homens conseguem colocar nas páginas de um livro. Sabia que fantásticos são os dias que gostaríamos de ter, fantásticos são os sonhos. O doce mundo dos sonhos. Ele aprendera a ser mais responsável e todas aquelas coisas chatas dos adultos, e assim, pela primeira vez se considerava: adulto. Logo seria um velho e depois uma lembrança, para só então se tornar esquecimento e neste curto percurso talvez alimentar a essa máquina que cria sonhos para as crianças. Pensava como é fabuloso que existam pessoas que ainda consigam acreditar e fantasiar, porque ele não mais conseguia. Havia se tornado seco, e ironicamente poderiam dizer ser isso obra de algum ser encantado que se alimenta do riso das pessoas, mas se é realmente ninguém sabe. Recordava o dia em que uma bela moça havia lhe dito que suas palavras eram amargas e desgostosas. Verdade. Mas apesar de não se orgulhar disso, também não deixava que isso o diminuísse. Existem pessoas que nascem prontas para voar, esse não era o seu caso. Ele, quando muito com alguma heresia, poderia afirmar que era um dos que nasceram cochos.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Quase Carnaval

Pois é, o Carnaval está aí na porta, dando as caras e eu vou ter um emocionante feriado trabalhando para variar. Não quero ser injusto, quase não tenho trabalhado em feriados desde que comecei a trabalhar como redator e até acho bom ter que trabalhar desta vez. É só que faz tempo que eu não viajo no carnaval ou faço alguma coisa diferente nesta época. Não por nada, eu nem gosto de carnaval, a idéia original era muito interessante, porém, hoje em dia não tem mais nada haver com o que era antigamente. Mas o carnaval já me rendeu ótimas viagens e queira ou não ele tem algo de que gosto bastante: é uma daquelas poucas ocasiões aonde as pessoas relaxam um pouco a guarda (para não descambar de vez e dizer que é praticamente época de acasalamento). Ultimamente situações assim têm feito falta, sair um pouco, conhecer gente, dar uns beijos, pegar uma praia ou mesmo um baile de carnaval. Tudo isso viria bem a calhar. Adoro a idéia dessas ocasiões onde não existem grandes barreiras sociais, quando não faz diferença alguma se o cara ao lado é seu chefe ou seu empregado. Eu acho que falta um pouco disso para as pessoas durante o resto do ano: relaxar, tocar o F0d4-#3. Eu não entendo porque precisa ser carnaval para que aquela garota que faz doce o ano todo desencane e viva durante alguns dias, para que aquele cara chato que nunca quer fazer nada saia e brinque um pouco. E sinceramente, não me importa o porquê. É diferente, deveria ser assim sempre. Se você ficar ponderando demais sobre tudo, o céu e as estrelas, você acaba deixando a vida passar, arruma rugas, gastrite, câncer no fígado ou qualquer outra coisa do gênero. Tem horas que não se ganha sem ariscar, e nem é preciso arriscar tanto, apenas não ficar tão na defensiva, viver um pouco mais seus instintos. Faz parte da natureza humana. Mas para a maioria das pessoas falta um pouco de coragem. Até entendo o porquê, estamos falamos das nossas vidas, aqui não tem save point, não tem como parar e voltar para o início. Ainda assim, as pessoas se entocam de mais e se esquecem de que existe vida lá fora.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Dias como estes

Às vezes você acorda pela manhã com uma sensação de bem estar. Tem a impressão de que é invencível, que pode fazer absolutamente qualquer coisa e que é capaz de conquistar o mundo. Sente-se alegre, capaz e bem-disposto, manobra resolvendo seus problemas da melhor forma possível, desempenhando suas tarefas com desenvoltura, força, agilidade e elegância. Tem dias que você é capaz de tudo. Você segue firme dia adentro, inabalável, confiante, uma fortaleza, nada pode pará-lo, nem um problema.
Ah... seria tão bom se o nosso bem dependesse única e exclusivamente de nós mesmos! O dia passa e damos o nosso melhor, mas nem sempre é o bastante, nem tudo depende de nós. Um dia a bateria tem que acabar, o elo tem que partir e os relógios atrasarem. Tem dias que o outro funcionário vai faltar, você vai ficar doente, seu bicho de estimação vai morrer. Paciência. Nem tudo depende de nós. Nem sempre as coisas têm que funcionar, nem sempre aquela garota incrível vai gostar de você, nem sempre o seu amigo vai querer, nem sempre o funcionário da repartição pública vai estar de bom humor. Acontece. Nem todos os dias são para ser coloridos, alegres e felizes e mesmo que você não saia da cama vai rolar uma dor nas costas, uma insônia. Às vezes o mundo lá fora tem que dar errado, talvez para nos ensinar humildade. No fim, o melhor que você pode fazer você fez e o que fazer mais? Talvez tomar um banho quente no final do dia, esquentar água para fazer um chá ou tomar um cálice daquele vinho especial que é só para você, respirar bem fundo... Porque os dias passam, mesmo quando eles se repetem bastante.

*Observações sobre o último texto.

Talvez eu não tenha me expressado muito bem no texto passado. A questão não é sobre as pessoas que passam pela nossa vida e vão embora ou sobre o isolamento que, por vezes, temos necessidade. É sobre quando ninguém mais agüenta andar enquanto você está a pleno fôlego. Quando você é capaz de ir além e não há quem possa ir contigo. É sobre escolher entre seguir sozinho ou deixar para trás os seus sonhos. Talvez seja sobre algo mais, talvez seja sobre ter nascido diferente e a sensação de solidão que resta de não encontrar ninguém parecido (e que nem por isso vai querer seguir com você). Às vezes temos sonhos muito simples, mas somos por demais complicados. É isso, ninguém prometeu que tínhamos que ser felizes vindo para cá, ninguém se quer perguntou se você queria. Mas a vida é a vida, ela não tem que ser justa.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Uma nova tentativa de vencer o nó na garganta

Já faz algum tempo que a minha produção de textos diminuiu e ela tem minguado cada vez mais. Tenho muitas coisas para dizer, mas todas elas parecem não vencer o nó na minha garganta e vir a conhecer a luz do dia.
Não estou bem, de fato, nunca estive, nasci assim, uma daquelas pessoas inconformadas com o mundo. Em uma conversa com um bom professor a minha guarda foi aberta por apenas três perguntas que me mostraram o quanto somos parecidos. Fiquei feliz e triste por isso, feliz por saber que eu não sou o único a tentar atravessar a correnteza a nado, ele tem feito em um certo aspecto, e isso foi o que me deixou triste. Mostrei a ele o inconformado que sou e ele me perguntou se eu achava isso ruim. Eu respondi que não, existe algo muito bom em ser inconformado, a constante busca pelo aperfeiçoamento. Mas também há algo muito complicado a respeito, esta é uma busca sem fim e as pessoas se cansam disso.
Na verdade tudo se trata sobre isso, pessoas. Quando eu canso, fico meio deprimido, mas continuo seguindo por essa estrada, eu sou assim e para mim não existe outra escolha, outra forma de ser. Porém as pessoas cansam, as outras pessoas. É difícil para as pessoas lidarem umas com as outras quando alguns de seus limites vão muito além dos limites alheios. Talvez seja essa uma das coisas que eu tanto gosto em Batman e talvez seja isso o que eu tenha amado ao assistir Alexandre.
Eu tenho um bom amigo muito semelhante a mim, dentre as nossas poucas diferenças figuram apenas que ele é muito mais inteligente do que eu e que ele já chegou bem mais perto da sua “massa crítica”. Além disso, a nossa maior diferença está na forma como encaramos esta questão, na forma como escolhemos viver (e também meu professor). A maior questão sobre essa natureza é o isolamento. Uma hora você vê que as pessoas não estarão ali para sempre, que elas talvez não cheguem ao próximo verão. Você vê que as pessoas com que você conta um dia, no outro vão embora, passam a te odiar, mudam completamente. E a culpa é de quem? Sua por ter uma personalidade forte e limites muito amplos? Das pessoas por serem limitadas e não saberem simplesmente dizer não? Dos dois talvez. Mas uma hora você se dá conta o quanto as pessoas são voláteis e o quanto elas podem ser insípidas. E então você tem que escolher entre ignorar as suas asas ou esquecer as pessoas. Não dá para levar as duas coisas juntas, uma hora alguém sempre se machuca. Então o que você faz? Passa a viver só mesmo sabendo que uma hora isso acabará com você porque ninguém consegue viver absolutamente sozinho? Porque isso envenena, enlouquece. Ou vai contra você mesmo, adota uma vida medíocre (segundo os seus parâmetros) e ignora a si mesmo?
Não sei o que fazer. É uma “escolha de Sofia” e no final você sabe nem um dos caminhos irá trazer felicidade.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Momentos de histeria!

Depois de muitos e muitos anos tentando lembrar quais foram os dois primeiros animes que assisti na minha vida (e que provavelmente geraram toda a minha identificação com a cultura japonesa, junto a meu antigo sensei de judô com ares de Pai Mei). Hoje, ao entrar no www.omelete.com.br encontrei uma matéria gigante sobre um deles (e graças ao hipertexto sobre o outro também)! Fiquei surpreso ao notar como um deles era tosco (ei! Eu tinha só 5 anos ta! Tinha o direito!) e feliz de relembrar os meus divertidos finais de tarde após a escola. Um deles (por acaso o tosco...rs) foi na época o que me levou a ter a minha primeira namoradinha... Acho que vem daí a minha inclinação para mulheres inteligentes, desde pequeno eu começava os meus namoros por afinidades intelectuais. Eram dias felizes aqueles... Então, espero fazer a felicidade de outros que como eu passavam as tardes loucos por mais um episódio e que a nostalgia possa dar um sorriso a vocês também. Seguem os links para as matérias:

Patrulha estelar, (originalmente Encouraçado Espacial Yamato - Uchuu Senkan Yamato):
http://www.omelete.com.br/tv/artigos/base_para_artigos.asp?artigo=2409
Pirata do Espaço
http://www.omelete.com.br/tv/artigos/base_para_news.asp?artigo=1559

Outras conclusões:

Sabe, pensando em Deus como o grande roteirista universal, não deixo de achar tudo isso um recurso melodramático. Muito simples, depois de perder um ano de faculdade corri atrás do tempo perdido no ano passado, mas as circunstâncias não foram propícias, faltou tempo para estudar (e ainda falta). Consegui resolver grande parte dos problemas em relação a minha habilitação em língua portuguesa, mas não posso dizer o mesmo da minha segunda habilitação, língua japonesa. Estou em vias de fazer a prova de recuperação de Língua Japonesa 2 com poucas expectativas de sucesso e conseqüentemente estou preste a trancar a minha segunda habilitação. Muito triste, mas praticamente inevitável. Mesmo que eu passe para o próximo semestre, não terei condições de acompanhar o curso e não dá para admitir que isso atrapalhe a minha outra habilitação. Como pretendo investir na carreira acadêmica em literatura brasileira, o japonês ficou meio supérfluo. É claro que estou aborrecido com isso, gosto de desafios e esse foi um que não consegui levar. Mas não é de todo mal, vou poder concentrar os meus estudos e terminar a faculdade antes, o que não me impede de estudar japonês por conta. Tenho pelo menos dois anos de faculdade ainda pela frente já que estou um ano atrasado e, mais certo do que isso, sei que esta com certeza não será a minha única faculdade.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Kill Bill - Volume 1

Resenha singela mas de cunho próprio... O DVD sai em pré-venda amanhã.

O quarto filme de Quentin Tarantino chega arrasando como um dos marcos do cinema contemporâneo. Kill Bill presta uma grande homenagem aos filmes de Kung-fu das décadas de 60 e 70, seus atores e estilos. Dirigido com exímia presteza, a obra foi delicadamente produzida o que dá ao expectador um deleite frente às diversas mudanças de sensibilidade do filme, cenas em preto e branco, seqüências, sombras, ângulos de câmera e intertextualidade com outras mídias como o trecho do filme feito em anime e a sensacional trilha sonora que se tornou um dos deliciosos hábitos viciantes dos filmes de Tarantino. O primeiro volume do filme narra o início da vingança da ex-assassina Black Mamba (cujo nome real só nos é revelado ao final do segundo filme). Ao acordar do coma, Black Mamba percebe que foi a única sobrevivente do extermínio ocorrido no dia de seu casamento e que levara as vidas de todos a quem amava, inclusive do filho que levava no ventre. Ela começa então uma caçada impiedosa aos assassinos, seus ex-companheiros do esquadrão de assassinato Deadly Viper. Mas Kill Bill não é apenas um filme sobre sangue e assassinato, ao final do primeiro volume ficamos desesperados para assistir sua continuação e obter a resposta para sua maior pergunta: Até onde somos capazes de ir quando o amor se transforma em raiva?

segunda-feira, janeiro 10, 2005

O fantasma do ano novo

É um hábito comum passar o natal sempre com a família, mas o ano novo... Ah... O ano novo sempre reserva diversas possibilidades novas: viagens, baladas, amigos e diversão. O final daquele ano em particular não prometia muito. Juliana iria para a casa de algumas pessoas que julgava conhecer muito bem, apesar da verdade ser exatamente o contrário, e acreditava realmente que iria se divertir muito. Ledo engano. Ao chegar sentiu-se imediatamente incomodada frente a todas aquelas pessoas estranhas com seus hábitos desagradáveis acomodadas pelos cantos da casa suja e empoeirada. Alguns bêbados, outros drogados e outros ainda com um cheiro nauseante. Poucos rostos lhe eram familiares, o de seu namorado, Alan, o da dona da casa, Joana, e o de mais duas ou três outras pessoas. Sentia-se muito sozinha, principalmente porque queria passar algum tempo a sós com o seu namorado. Enquanto ele conversava e se divertia do lado de fora da casa ela conversava no quarto mais limpo que encontrou com as poucas pessoas que a agradaram, uma delas era Leandro, um divertido ruivo que estava de cama e que a fazia rir. Mas não foi o bastante, a solidão continuava a devorá-la por dentro e as decepções acabaram por deixá-la cada vez mais triste. Foi então que oportunamente seu celular tocou. Agora, enquanto recordava, um desejo auto-destrutivo dizia a ela que talvez devesse ter ficado lá se enganando, mesmo sabendo que faria a escolha mais sensata para aquele momento. Era Flavia, uma tímida amiga sua a quem não via há um longo tempo convidando-a para cear em sua casa. Em dúvida chamou Alan e depois de uma discussão de poucos minutos acreditava não estar trocando o certo pelo duvidoso. Despediu-se de todos dizendo que voltaria no dia seguinte, arrumou suas coisas e seguiu para casa de Flavia junto à lua nascente, deixando até mesmo Alan para trás. Na casa de Flávia, o jantar transcorrera com tranqüilidade. Estavam apenas Flávia, seu marido Renan, a namorada do irmão de Renan, Julia, e um amigo do casal, Marcelo. Pouco tempo depois da ceia Flavia e Renan decidiram parar de brigar contra o sono e resolveram ir dormir deixando Juliana, Marcelo e Julia conversando na sala. Juliana se sentia atraída por Marcelo, ele era muito bonito, inteligente e tinha um sorriso encantador. Ficaram lá os três conversando e só então Juliana notou como Julia se parecia com ela, no formato do rosto, no corte de cabelo e no jeito de falar. Falavam sobre os filmes que gostavam e os cinemas que costumavam ir. Julia falava sobre quando ia ao cinema com seu namorado, sobre o quanto o amava e sobre a saudade dele que estava viajando. As horas passavam e Juliana ficava mais e mais intrigada. No começo os três conversavam falando igualmente, mas enquanto a lua atravessava o céu Juliana ia ficando cada vez mais impressionada e silente. A conversa seguiu noite à dentro entre livros e peças de teatro e muitas vezes Julia interrompia Juliana para dizer algo a Marcelo. Eram as palavras de Juliana e até seus pensamentos vindo à luz na boca de Julia. Eram muito parecidas. Há até quem pudesse dizer que eram irmãs, tamanha a semelhança que a conversa salientava como a água do rio a carregar do leito a terra e expor o cascalho. A lua figurava com um brilho sinistro no céu e Juliana começara a se questionar se deveria ter vindo. Julia falava a Marcelo com paixão deixando Juliana estarrecida. Elas eram parecidas em tudo das roupas e pensamentos aos desejos e sentimentos mais íntimos. Certa hora, enquanto Julia ajeitava o cabelo Juliana notou que possuíam até as mesmas duas pintas do lado esquerdo do peito. Julia era Juliana. E Juliana, terrificada, era um espelho da mulher que flertava com Marcelo a sua frente como se fosse ela mesma; nada era capaz de provar o contrário. As luzes forma se tornando quentes e a escuridão tomou conta de tudo. Juliana tomara consciência da pergunta ribombando em seu cérebro. Se Julia era Juliana... quem era ela? Apenas ela ouviu o baque surdo do corpo indo de encontro ao chão e o estalo ardente do beijo entre o casal na sala.

O Medo – Coletânea de idéias dispersas, realidades fictícias e afins.

Só o medo pode explicar o que acontece, observe, digo explicar e não justificar. Uma amiga minha diz que tenho o habito de encontrar justificativas para tudo, principalmente para as mancadas que os outros dão para comigo. Não importa, certas coisas não passam de um reflexo de nós mesmos, o que nos torna não tão inocentes assim, o respeito é uma delas. Pois bem, eu falava do medo, e o que é o medo na verdade senão uma tentativa de simplificar as coisas. Sentimentos absolutos dificilmente são contestados e quando contestados trazem mudanças e marcas. Mas façamos de conta por hoje... Façamos como a nossa psique e acreditemos ingenuamente no “espaço angelical” e na simplicidade das coisas, além disso, brinquemos um pouco de Hitchcock.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Conto de Natal

18:20, eu havia saído da casa dela, um pouco constrangido e um pouco consternado. Não é todo dia que você entrega um presente de aniversário, ainda que atrasado, e fica com a impressão de que a pessoa olhava através de você. Sei lá, ela deveria ter seus motivos, os quais não cabem a este ensaio. O fato é que faltavam quase seis horas para a ceia de natal e eu não estava nem um pouco a fim de voltar para casa. A idéia que vinha crescendo há algumas horas na minha mente agora tomava forma. Um bate-e-volta em Santos. Praticidades de quem tem uma moto, não paga pedágio e gasta uns R$12,00 em combustível para ir e voltar. Lá fui eu seguindo estrada adentro com o sol já baixo. Com sorte, ainda conseguiria assistir ao sol se pondo no mar.Sempre venta muito na descida da serra, mas, no dia, até que estava tranqüilo. Poucos veículos, nenhum caminhão, apenas eu, Valentyne e o asfalto, ocasionalmente acompanhados por meia-dúzia de carros. No começo da “Nova Imigrantes” o sol resolveu esconder-se atrás das nuvens e uma neblina espessa tomou conta da estrada. Neblina de verdade e muita, eu enxergava apenas as luzes de freio do carro à frente perdidas no meio do branco e o chão imediatamente abaixo da roda dianteira até 3 ou 4 metros à frente. Alguns pensamentos bizarros surgiram “literalmente” do nada: “é só seguir em direção às luzes, as duas vermelhas quadradinhas, não a branca gigantesca à direita no final do túnel”. A neblina causa uma sensação estranha, como se Deus passasse uma borracha no mundo, mas essa impressão durou pouco, pois logo eu entrei no túnel (o da estrada, não o da luz) ignorando a existência de neblina ou vento e rapidamente alcançando a Baixada Santista. Uma vez em Santos, demorei apenas para alcançar a praia, chegando lá no exato momento em que o sol entrega-se para morrer nos braços do mar, numa diversidade de tons que apenas o oceano é capaz de pintar de encontro ao firmamento. Minha empreitada não poderia ter sido melhor, voar pela estrada livre para caçar um pôr do sol. Regozijado pelo momento único, aproveitei para visitar alguns parentes, o que fez com que partisse de lá apenas 23:20. Apesar da hospitalidade, não resisti, voltei àquela hora mesmo, pois havia combinado de encontrar com meus poucos amigos próximos após a ceia e abrir um bom Cabernet Sauvignon. Mas nem imaginava que o meu intento seria frustrado e que não encontraria ninguém quando chegasse em São Paulo. Enfim, foi então, durante a volta, que aconteceu o extraordinário. A estrada estava deserta, como era de se esperar, estendendo seu veludo negro sob meus pés, um silêncio tranqüilo e um céu estrelado. Eu deslizava noite adentro praticamente só e meus pensamentos pareciam falar em voz muito alta. No final da planície litorânea a única estrada disponível para a volta era a Anchieta, eu nunca havia subido a serra por ela que é mais tortuosa e utilizada para transporte de cargas, mas a estrada estava tranqüila e não havia outra opção. Eu já disse que a estrada estava tranqüila? Pois é, estava tranqüila... tranqüila até demais e foi em meio a toda essa tranqüilidade que avistei meia dúzia de carros subindo juntos atrás de uma viatura com as luzes apagadas, provavelmente um carro da polícia ou da empresa concessionária da estrada, estavam a uma velocidade razoável e pareciam conhecer bem a estrada. Decidi me embrenhar junto a eles e fui subindo com calma, em segurança na estrada vazia com uma certa paz de espírito. Foi bem melhor do que enfrentar aquele breu absoluto, já que as lanternas dos carros aumentavam a luminosidade da estrada e espantavam aquela escuridão quase sobrenatural. Chegando na divisa de município com São Bernardo, no ponto onde a Anchieta retorna a Imigrantes depois da serra, todos os carros haviam me ultrapassado e enfileirado a minha direita, sendo que o último da fila começou a sinalizar com a seta e com o braço para que eu ultrapassasse. Achando tudo muito estranho vim para a pista da esquerda e acelerei ultrapassando a fila toda, inclusive a viatura... do serviço funerário municipal.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Meninos não choram.

Meninos não choram. Não sei bem porque, mas meninos não choram. Não cai bem. Coisa de frouxo diriam uns e outros, coisa de mulher... meninos não choram. Não importa, mesmo que estejam sozinhos, meninos não choram. Mesmo que se sintam magoados, meninos não choram. Mesmo quando desenganados, meninos não choram.
Não há motivo que justifique o choro. Devem ser duros, ásperos, não devem ter lágrimas. Lágrimas molham, amolecem. Lágrimas são piegas, tem sentimentos demais. Meninos não devem sentir nem amolecer, meninos devem ser duros como pedra. E pedras? Pedras não choram. Pedras são brutas, sedutoras, eternas, pontiagudas, mas pedras... não choram. Que confiança há em quem chora? Quem chora precisa ser acalentado, protegido, quem chora precisa de colo. Meninos não, meninos devem ser bravos e varonis o tempo todo, ou então, simplesmente não são. E não ser... é pior que não chorar.
Mesmo que percam um amigo dito valoroso, meninos não choram, a eles não é permitido este tipo de amizade, devem sim ser camaradas, mas a intimidade carrega sempre uma mácula, retira sempre um pouco do brio. A amizade é sempre maldita como a de Arthur e Galahard. Mesmo que percam alguém de quem gostem muito, meninos não choram, pois não são eles quem perdem, meninos sim são perdidos. Mesmo que se percam pela vida, meninos não choram, meninos não se perdem, figuram à proa do navio apontando o caminho tal qual o astrolábio.
Meninos devem ser algozes, alentejos, carnífices, severos. Meninos devem estar prontos para o sacrifício, mesmo que seja por alguém que não queira, mesmo que seja por alguém que não mereça, e não devem de maneira alguma demonstrar seu interior ou velam como o filme fotográfico, tornam-se inúteis, perdem o valor.
Meninos não choram, mesmo que percam seu maior companheiro de muitos e muitos anos, seu fiel amigo de 18 anos, em uma manhã fria e chuvosa no primeiro dia de um verão. Aquele que sempre lhe saudara e sempre lhe acolhera sem nunca se importar se meninos devem ou não chorar. Ah amigo, como lhe dizer adeus depois de tantos e tantos anos? Tantas corridas e tantas caminhadas? Tantos afagos e tantos carinhos? Pago lhe hoje meu último favor, não um favor, pois é antes meu dever. Pago-lhe hoje as moedas para o Caronte e desejo um dia lhe reencontrar junto aos Deuses. Boa viagem em sua derradeira caminhada.
Adeus amigo, adeus.

Semi-existência

Escrito ontem pela manhã.

Batidas descompassadas, coração acelerado, falta fôlego, água, frio, incômodo. Estou na cama. Viro de um lado para outro, quase me debato, não encontro posição confortável. Ora um calor insuportável, ora um frio desagradável e ninguém a meu lado. Meu corpo dói. Meu cérebro pulsa, resiste a acordar, não quer voltar a dormir. Permaneço prostrado, cansado, vazio, desalentado e com um sono insuportável. Levanto de súbito, me visto tão rápido que não entendo como. Silêncio. Todos foram embora. Que estou fazendo eu sozinho? Não me lembro do meu nome, olho no espelho e não me reconheço. Na mesa permanece o desjejum, frio já há algum tempo. Bebo leite. Olho em volta, uma brisa gelada constante arrepia a pele. Saio à rua e os olhos passam por mim sem me notar, olhos vazios, esbranquiçados, olhos de mortos. Vez que outra um olhar parece me acompanhar, parece me reconhecer, depois desiste, ignora-me. Não sei, parece que sou outro, torto, não valho a pena, e meus olhos talvez sejam de um morto, ou estejam se tornando. Desisto, vou trabalhar. O sono me devora, não consigo acompanhar as letras no monitor, para onde elas foram? Fugiram, correram pela sala. Fico perseguindo as letras, os olhos, o sono. Numa sala vazia, sempre vazia, onde os anos passam e eu envelheço mais e mais sozinho. Mas nunca morro. Talvez já esteja morto a algum tempo e por isso não viva. Aparentemente voltei a acordar, olho ao redor desconfiado, um mosquito disputa a minha atenção com o monitor. Parece que ele consegue me ver, desvia dos meus movimentos. Fico imaginando se o mesmo acontece com as pessoas, se não vou passar através delas e sentir muito frio. É impossível explicar, é ilógico, é tortuoso. Começo a falar e percebo que converso sozinho, do outro lado do tabuleiro de xadrez não há ninguém. Chá para dois, três, seis, mas uma xícara só se esvazia em quanto as outras esfriam. Meu coração dói e eu não consigo saber por que, não há o que eu faça, não há o que eu fale nem o que escreva nem o que grite. Os dias vão perdendo as cores e as rosas secam no armário.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Entre a sobrancelha e o olho

Deitado na varanda à sombra dos arbustos repousava em uma rede um homem admoestado pelo sono insistente. O tempo quente das tardes de verão deixava tudo vagaroso. A brisa às vezes acariciava o corpo, refrescava e balançava a rede. O cheiro de frutas invadia a casa vindo do pomar, os gatos dormiam sob o sol, tudo compunha um quadro. Do seu lado esquerdo, em uma pequena mesa redonda, branca, repousava um copo de limonada com gelo e um livro, “A queda que as mulheres têm para os tolos”, uma excelente tradução de um autor francês desconhecido feita pelo senhor Machado de Assis. Uma cigarra chiava ao longe fazendo lembrar o cheiro de mato dos dias de infância e o riso dos primos. O sol escapava por minúsculos espaços entre as folhas das árvores para furar a sombra, lamber-lhe o colo e iluminar a pequena pinta que residia só entre a sobrancelha e o olho. Espreguiçou-se e virou de lado expondo o torso nu, o sono vinha gostoso e os sonhos, doces como néctar, regados num desejo de ouvir Djavan. Ah... vontade de poesia que rola no corpo, na sensação de toque leve na pele e no cheiro de calêndula. Dentes de Leão voando pelo ar, escalando o céu claro até as nuvens brancas que dançam no cerúleo refletidas na íris e na pupila dilatada, pegadia, perdida.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Não Leia.

Às vezes quando estou só algumas idéias vem me visitar em asas de mariposas e se queimam na lâmpada inúmeras vezes até caírem mortas no chão. Outras vivem escavando o solo e devorando a terra fazendo cócegas na minha mente. Algumas vêm e outras vão depois de um tempo. Às vezes estas idéias ficam, esperando maturação, às vezes elas morrem sem terem conhecido a luz do dia. Outras surgem devorando a estas idéias como surgem os vermes que devoram cadáveres. Hoje apenas não há como falar. É falar sobre o nada, tentar relacionar ecos, ametistas, vinagre e vestidos vermelhos, como relacionar olhares, madeira e desespero. É imiscuir água em óleo, derreter areia com gelo. Às vezes não há como falar. Aqui sou senhor do absoluto, monarca supremo do meu reino. Aqui minha palavra é a ordem e estabelece a história, mas hoje, hoje não há histórias para serem contadas. No princípio era o verbo, e depois, o silêncio. Como poderia deixar-me seduzir pelo silêncio e fazê-lo abater-se sobre todas as coisas? Delírios apoteóticos de uma mente lúgubre, insana e insalubre. O dia de hoje simplesmente não aconteceu. E no sétimo dia? Ele não descansou? Não. Estava farto por demais, enrolou, chorou, padeceu, riu e visitou a loucura.
Blasfêmia, eu disse: "Não leia." e a propósito, não quer ler, não venha.

terça-feira, novembro 30, 2004

É engano...

Existe algo mais deprimente do que uma ligação enganada no celular? Você atende e o cara do outro lado pergunta quem está falando, como se ele não soubesse para quem ele ligou. Tudo bem, até entendo, de repente a pessoa deixou o celular dele na bolsa da namorada, ou estava longe e alguém atendeu por que ele pediu (ou não... vai saber), mas de modo geral as pessoas costumam atender a seus próprios telefones. Então você pergunta para o cara com quem ele quer falar, geralmente essa é a pior parte, chovem nomes esdrúxulos, títulos bizarros, dicções tortas e insistências estúpidas. “Queria falar como o Ministro Caetano”, “O Evérclaidísson está?” (como se as pessoas pregassem seus celulares na parede, o que me lembra da história da empresa que mandou fixar os lap-tops dos executivos às mesas porque não queriam que eles levassem os respectivos em viagens ou algo do gênero).
_ aáà luidiisjns esk?
_Eim?
_ ``AÀ`´a luidiisjns!
_Eim?
_LUIDIISJNS!
Você para, pensa, não consegue se decidir se desliga na cara ou manda tirar o p... da boca. Desliga porque é educado. A pessoa liga de novo e ainda acha que pode ficar puta porque você está enganando ela! Mas acreditar realmente que deram a ela o numero errado... isso não, nunca. O processo se repete pela próxima hora e, a partir do dia seguinte, em dias alternados. Afinal, todo mundo sabe que os celulares saem à noite para cantar no muro do quintal e se reproduzir (de onde você imaginou que vinham os celulares? Não vai me dizer que também acredita em cegonha...) e nesse processo às vezes voltam para a casa errada, mas um dia eles voltam. Isso tudo quando a pessoa não começa a perguntar de onde fala, ou quando acha que você é o(a) amante da esposa(o) e começa a te perturbar a vida. Maldita baixa estima...
Mas passando os constrangimentos sociais diretos, você sempre tem os sociais indiretos e os psicológicos. Os sociais indiretos geralmente são relativos à oportunidade, isso sempre costuma ocorrer nas horas mais constrangedoras possíveis. No dia em que você esqueceu de desligar o celular no motel, quando você está chegando atrasado no serviço (mais precisamente no exato momento em que você está passando discretamente pela sala do seu chefe), no banheiro, no cinema, quando você finalmente conseguiu dormir depois de vários dias, ou pior, quando a sua namorada com uma cólica desgraçada e aquela TPM insuportável conseguiu. Mas ainda acho que os piores efeitos de todos são os psicológicos: Quando se está esperando resposta a uma entrevista de emprego, quando se está esperando uma ligação daquela pessoa especial, ou quando você brigou com o seu melhor amigo ou com a namorada. É horrível. E se é tão horrível hoje, imagine quando as pessoas usavam pombos correio...