segunda-feira, outubro 25, 2004

Alma

Escrito originalmente domingo pela manhã durante algum tempo psicológico.

Cheiro da “Radical. Uma peculiar mistura de móveis velhos, tinta de impressão serigráfica, papel couche e revistas. Quando entrei na sala, preenchera-me os pulmões, agora, por um instante, quase o perdi. Limpo a mesa do outro lado da sala e arrasto-a para perto do sofá. Coloco o aparelho de som em uma extremidade e sento-me na outra com os meus livros. Levanto, procuro a tomada e coloco um CD no aparelho de som. Música clássica, ou quase... A trilha sonora de “O Senhor dos Anéis”. Não pude resistir a vontade de escrever. O som, os cheiros, a arte. Essa mesma sala já foi o meu estúdio inúmeras vezes. Assistiu a vários “estados” e mudanças de espírito meus. Essa sala conheceu de mim um lado que poucos conhecem, talvez ninguém. Agora ela está tomada de coisas da Radical, firma do meu pai. Humm... vejo aqui, de repente, tantas coisas sobre o que escrever. Simples prazeres... A música evolui forte ecoando pela sala, violenta, sóbria. Lembro-me dos aromas das mulheres que tive. Como um cheiro pode seduzir um homem? Domá-lo? Tocá-lo? Posso lembrar-me dos aromas de cada uma delas, o que às vezes me faz arrepiar. Estes dias todos tenho pensado: que tipo de homem eu sou? Sobre tudo um tipo raro. Creio que tenho aquele tipo de característica provocadora, acompanhada por uma profundidade assustadoramente perigosa. Algo em mim atrai e amedronta. Tenho uma segurança sobre coisas que assustam as pessoas comuns, sempre gostei do desafio, da audácia, do perigo. Mas confesso que muitas vezes não sei lidar com coisas simples como um Beijo. Touche. Às vezes penso demais, ponho tudo à perder. Um troféu enfeita o tampo superior do piano de minha mãe, nesta mesma sala. Foi um dos melhores dias da minha vida, quando domei um cavalo e venci uma prova hípica de salto. Faz tanto tempo... seis longos anos. Esta sala também me faz recordar alguns dos beijos apaixonados que já dei. A alma de um homem é algo que poucas vezes se revela.


quinta-feira, outubro 21, 2004

Frase Red Dragon da semana:

“O estado de degradação de um homem é diretamente proporcional à quantidade de Cup Nodles que ele toma no café da manhã.”

quarta-feira, outubro 20, 2004

Top 5 - Filmes Trash e infames

Acho que foi Charles Chaplin que disse que você precisava ser bom para fazer chorar, mas precisava ser um gênio para fazer rir. Assim decidi utilizar essa coisa acinzentada que possuo entre as orelhas (não, eu lavo os ouvidos diariamente) para escrever algo diferente hoje. Sem pretensões à genialidade, (embora o humor seja reconhecidamente um sinal de vida inteligente) quero apenas tentar arrancar um sorriso ou dois das pessoas por hoje falando um pouco de bobagem. Vamos ao tema, vou aproveitar um pouco do meu serviço para falar sobre os filmes mais bizarros que eu já vi e seus nomes curiosos. Que comece o top cinco!

Em ultimo lugar...
Curiosamente, os filmes de artes marciais parecem ter uma grande propensão ao mundo bizarro. Quando comecei a escrever este post, o primeiro nome que me veio à mente foi “Rajada de Fogo”, um filme super batido que já passou zilhões de vezes naquela coisa lobotomizante com que as pessoas continuam insistindo em perder o seu tempo, a chamada televisão aberta (não que a paga seja muito melhor). Confesso que tive a sorte de nunca tê-lo assistido. Porque então foi o primeiro nome de que lembrei? Uma velha piada de colégio sobre que tipo de filme tem o nome “Rajada de Fogo”. A mente dos garotos aos 15 anos é uma fonte surpreendente de bobagens...

No penúltimo lugar...
O segundo nome que lembrei foi o famosíssimo “Reno, Desarmado e Perigoso”. Charles Bronson realmente é o cara, eu juro que queria ter a metade da habilidade dele em interpretar o maior papel de sua carreira (o papel dele mesmo), convencer os estúdios a filmarem a interminável série “Desejo de Matar” (onde ele se divertiu atirando com uma .45 e dando vários roles de Cherokee) e ainda conseguir que a Jeep permitisse que ele queimasse totalmente o filme da marca usando uma Grand Cherokee em todos os seus filmes. Esse cara realmente tem talento, sabe como se divertir e ganhar dinheiro! Pena que ele se pareça com o diretor da escola onde fiz o colegial...

Em terceiro lugar...
Agora, ao pensar no terceiro filme eu comecei a ficar preocupado. Misteriosamente todos os filmes muito ruins de que estou me lembrando parecem fazer parte da minha adolescência. O terceiro colocado (mnemonicamente falando é claro), foi uma disputa interessante entre “Freeklândia – O parque dos horrores” e “A Fantástica Fábrica de Chocolates”. Esse foi páreo duro, Freeklândia era um filme que costumava passa no SBT freqüentemente e era tão freek, tão trash, que conseguia me arrancar muitas risadas. É o típico filme B ao estilo um-Nerd-e-uma-câmera, o que me faz ter muita saudades da extinta “Gorda Flácida Produções”, a mega produtora de filmes B que foi muito ativa entre 1997 e 2001 aproximadamente. Ela produziu, entre outros, os clássicos thrillers “Cereal Killer I eII”, o cult “A Minhoca Assassina”, o épico moderno “Os Guerreiros de GranVille” que acidentalmente foi gravado sobre o final do primeiro “Cereal Killer” e um outro filme que nunca descobri o nome mas que foi inteiramente produzido, dirigido, estrelado, editado e divulgado pelo meu amigo Espírito da Noite. Bons tempos aqueles... quem assistiu que o diga. Um dia quem sabe ressuscitemos a coitada (ela merecia um post inteiro só para ela). Assim para o terceiro lugar elegi aquele que nunca assisti: “A Fantástica Fábrica de Chocolates”. Chocolate satisfaz mesmo quando amolece, mas um filme tosco com esse nome ninguém merece, tem que ser muuuuuuuuuuuito ruim.

Em segundo lugar...
Isto era para ser um top cinco, mas como alguém nesse país tem que trabalhar (entenda-se: minha chefe vai sair da reunião daqui à pouco e há uma enorme pilha de DVDs cobrindo a minha escrivaninha cinza claro) vou terminar com o segundo lugar. Filme: “Copycat III - ???” (o subtítulo era tão ruim que eu nem me lembro). Esse filme é sensacional, não vou nem comentar sobre o elenco multirracial que faz com que um russo e uma japonesa loira tenham um filho negro. Vou direto à primeira cena do filme, onde uma chinesa (japonesa, tailandesa ou coisa que o valha) vestindo um uniforme preto em uma mesa de cirurgia e leva uma injeção no meio da testa. Esse é o ápice... depois disso não tenho coragem de comentar mais nada...

Eu sei que as grandes restrições saco-orçamentárias me impedem de ter um campo de comentários decente que permita mais de 5 comentários, mas seja você também, mais um juiz a votar no pior filme trash de toda a sua adolescência! Deixe um comentário!

terça-feira, outubro 19, 2004

Tédio

Ontem eu passei o dia inteiro entediado, depois de um final de semana legal fiquei surpreso em saber que mesmo com bolinhas ainda consigo ficar de mau humor. Não sei bem porque. O ápice do meu tédio foi sonhar que eu jogava Magic: The Gathering com três amigos de colégio (ou deveria dizer com dois amigos e mais alguém) em uma noite chuvosa. É possível isso? Ter um sonho entediante? Para mim é novidade, não me lembro de ter passado por isso antes. Devo dizer que não há nada mais desafiador à criatividade de um sujeito do que o tédio. Nas últimas semanas o numero de posts que tenho publicado andou minguando, fiquei fazendo hora extra por vários dias e não tive tempo para publicar nada. Então vem essa misteriosa onda de tédio, aproxima-se como uma taturana avançando em movimentos circulares, coroada por esse tempo chuvoso, mundos de coisas para estudar, algumas traduções “malas” para fazer no trabalho, centenas de resenhas de clientes para revisar e subitamente rouba as minhas idéias... Devo dizer que o rombo orçamentário na minha conta também não ajuda muito o meu humor... rs. Afinal, não há tédio que resista a um bom rodízio de comida japonesa regado a um bom sake. Uma bela companhia também seria ótima, imagino-a trajando um vestido chinês vermelho com uma flor enfeitando seu cabelo e horas de conversas agradáveis. Ahh... sonhos... o que eu não daria agora por uma travessa com dezenas de sashimis, temakis, guiozas, hot rolls... Ou então uma visita à Curry House... Pelo menos acordado ainda consigo sonhar. Apenas sonhar, porque os números vermelhos do site do banco insistem em agredir meus sonhos na tela do computador.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Alô Blumenau! Bom dia Brasil! São 17 dias de folia...

Para ouvir enquanto lê: Don't stop me now – Queen (pensaram que eu tinha perdido o hábito né? rs).

Eu já havia me esquecido como é bom viajar, principalmente depois de árduos meses de trabalho e faculdade. O feriado fôra as minhas merecidas férias longe de tudo e de todos os problemas, pela primeira vez sem preocupações quanto a estar desempregado. Foi épico, muito divertido, descansei, conheci pessoas novas, lugares diferentes, senti saudades, ri bastante e de conheci o lado “selvagem” da vida... rs (desculpem pela piada interna, não pude evitar). O sul é um lugar incrível, eu estou até pensando em fazer uma daquelas promessas de me mudar para lá se eu não casar até os 35 (não que hoje em dia eu pretenda casar... rs, o que é ironicamente engraçado). Pensei até em tentar arrumar um estágio por lá quando eu terminar o bacharelado e transferir a licenciatura para a Federal de Santa Catarina ou coisa que o valha, só pela diversão.
Pretendia escrever um épico sobre a viagem, mas meus esforços foram frustrados, até agora ainda estou com sono, mesmo tendo dormido bem de ontem para hoje. Tentei escrever de lá e atualizar meu blog, mas tudo o que consegui foi enviar uns três recados via orkut, a lan house de lá possuía um teclado ABNT qualquer coisa e eu não encontrava um acento se quer. Meu plano de escrever um diário da viagem também acabou indo por água abaixo, esqueci o caderno e acabei não comprando um. Já as fotos clicadas acabaram se restringindo a um filme iso 400 do Nihil – “o Homem selvagem”, que tentamos acabar às pressas para brincar com um segundo filme de iso 800 que acabou por ficar esquecido no hotel durante a melhor de todas as noites. Mas mesmo depois uma viagem incrível e divertida, mas meu espírito cômico ficou na estrada junto com o meu cérebro, quase 11 horas de viagem na volta, ninguém merece. Então, por hoje ficam os agradecimentos ao Nihil e ao Tex Murph, meus companheiros na Savage Fellowship, que dividiram comigo essa viagem, chocolate e cerveja! E também, a Tezinha (futura candidata a Red Dragon), a Gabi (com quem acabei não conseguindo conversar muito, mas é fofa e gente boa demais), a Keka (pelas risadas e momentos de descontração) e a todas as amigas do Nihil que conheci e de quem não esquecerei. Agora volto a programação normal e a minha escrivaninha cinza claro, lotada de trabalho...

Don't stop me now - Queen

Tonight I'm gonna have myself a real good time
I feel alive and the world I'll turn it inside out - yeah
And floating around in ecstasy
So don't stop me now don't stop me
'Cause I'm having a good time having a good time

I'm a shooting star leaping through the sky
Like a tiger defying the laws of gravity
I'm a racing car passing by like Lady Godiva
I'm gonna go go go
There's no stopping me

I'm burnin' through the sky yeah
Two hundred degrees
That's why they call me Mister Fahrenheit
I'm trav'ling at the speed of light
I wanna make a supersonic man out of you

Don't stop me now I'm having such a good time
I'm having a ball
Don't stop me now
If you wanna have a good time just give me a call
Don't stop me now ('Cause I'm having a good time)
Don't stop me now (Yes I'm havin' a good time)
I don't want to stop at all

Yeah, I'm a rocket ship on my way to Mars
On a collision course
I am a satellite I'm out of control
I am a sex machine ready to reload
Like an atom bomb about to
Oh oh oh oh oh explode

I'm burnin' through the sky yeah
Two hundred degrees
That's why they call me Mister Fahrenheit
I'm trav'ling at the speed of light
I wanna make a supersonic woman of you

Don't stop me don't stop me
Don't stop me hey hey hey
Don't stop me don't stop me
Ooh ooh ooh, I like it
Don't stop me don't stop me
Have a good time good time
Don't stop me don't stop me ah
Oh yeah
Alright

Oh, I'm burnin' through the sky yeah
Two hundred degrees
That's why they call me Mister Fahrenheit
I'm trav'ling at the speed of light
I wanna make a supersonic man out of you

Don't stop me now I'm having such a good time
I'm having a ball
Don't stop me now
If you wanna have a good time (wooh)
Just give me a call (alright)
Don't stop me now ('Cause I'm having a good time - yeah yeah)
Don't stop me now (Yes I'm havin' a good time)
I don't want to stop at all
La da da da daah
Da da da haa
Ha da da ha ha haaa
Ha da daa ha da da aaa
Ooh ooh ooh

terça-feira, outubro 05, 2004

Carta a um velho amigo: Sobre ideologia e vinho

Hahahaha.Ah, caro amigo, soubesse você o tanto que o tempo me trouxe... Quantas mudanças, quanta maturidade...Acho que o melhor que posso dizer a meu respeito nesse sentido é parecido com o meu gosto para a bebida:Aprendi que não se bebe para encher a cara, mas para degustar uma boa bebida. Em fato beber e comer carne são coisa que faço por gosto e até por um posicionamento ideológico que vai contra a radicalização das idéias e contra os fundamentalismos. Eu poderia parar de beber ou de comer carne a qualquer momento se e somente se eu quisesse, se achasse que isso tem algum valor e quando falo em valor digo-o para mim, não tento aqui postular sobre o que todos devem ou não achar e fazer. Existem motivos muito bons para cada ato.
De um certo modo eu poderia dizer que não deixei de acreditar na "revolução", mas que, como tudo, tem de ser feito com consciência, ao contrario do que muitos pensam (aqueles que buscam a iluminação através dos atos e não das palavras). Embora as pessoas de modo geral não tenham gostado das continuações de matrix, eu devo dizer que, apesar delas não possuírem a genialidade do primeiro, as pessoas optaram por criticar o lado comercial e esquecer as discussões filosóficas. O segundo filme deixa bem claro aquilo que estou tentando dizer. O importante não é o ato em si, mas a compreensão sobre o que deve ser feito. Acho que isso expressa uma base muito grande onde se fundamentam vários dos meus comportamentos e das minhas ideologias hoje.
Yuppie de terninho? Rs... Meu gosto musical mudou bastante nesses anos todos, creio que para melhor, como disse a única coisa que tenho achado absolutamente agradável na idade é que um vinho de uma safra antiga tem um sabor melhor. Fui metaleiro, quase from hell, hoje estou muito próximo da ecleticidade. A pura ecleticidade em si não tem para mim muito valor, acho que ela deriva de uma ausência de aptidão crítica sobre uma das maiores formas de expressão, a arte. A arte é um dos filhos incompreendidos da humanidade. Hoje ela sobrevive de forma muito triste transformada em mercadoria como tudo aquilo que o homem é capaz de criar. Fácil é ouvir música, difícil e compreendê-la. Fácil é parar diante de um quadro, difícil é decifrá-lo. Fácil é ler um texto, difícil é compreendê-lo. O segredo para o gosto está no que Saussure chamou de significante e significado (o que mais uma vez me remete a uma das conversas mais agradáveis que já tive na vida e da qual sinto muita falta). Se eu mostrar um kanji, yama, por exemplo, a uma pessoa qualquer na rua, para ela isto nada irá significar. Serão apenas três traços verticais, que alguém poderia dizer simples traços, alguém poderia dizer um borrão e alguém poderia dizer que é um buraco feito pelas garras do Wolverine. O significante neste caso não teria significado certo para essas pessoas. Mas se eu mostrasse o mesmo kanji a você que estudou japonês por 8 anos, independentemente de não se lembrar quase nada, você pode até não lembrar do nome, mas sabe que yama é o kanji para montanha. O significante para você tem um significado. Partindo deste ponto sabemos que você pode discutir a respeito deste kanji e atribuir a ele um valor. Assim como poderia falar com propriedade sobre The Doors, uma banda que você sempre gostou, mas talvez não possa falar sobre música folclórica Neozelandesa.
Sobre o modo de vestir, acho que não sigo exatamente um modo, tenho sim um modo próprio, uma amiga minha disse que eu sou meio esporte... rs Creio que um hábito que adquiri depois do exército. Prefiro roupas que não me restrinjam os movimentos e que não sejam absolutamente largas podendo enroscar em qualquer coisa. Gosto de bolsos vários, fundos e ajustados ao corpo de modo que não pressionem o que eu carrego contra o meu corpo, mas que também não fiquem sacolejando. Atualmente eu tenho investido mais em um visual motociclista, devido à necessidade de ter roupas que protejam mais em caso de queda.
E para terminar de responder a sua carta, falemos sobre o vício da internet. A internet é uma ferramenta. Assim como uma chave de fenda ela por si só não é boa ou má, conceitos meramente humanos. Bom ou mau é o uso que damos a ela. Acho uma ferramenta formidável, só espero que sua esposa não tenha que disputar pela sua atenção com o computador, isso sim é um hábito desagradável. Um amigo que temos em comum, tem o péssimo hábito de deixar suas visitas esperando enquanto passa horas ao telefone. Isso é extremamente desagradável e desrespeitoso, reduzir uma pessoa a um objeto, que fica sobre sua estante até que você deseje utilizá-lo ou não e que, como qualquer criança descuidada e deslumbrada ou um animal como um gato, irá largar de qualquer jeito em qualquer lugar quando alguma outra coisa qualquer lhe chamar a atenção. O vício pode ser sobre qualquer coisa, pode ser sobre cocaína ou basquete, mescalina ou computação, álcool ou limpeza. O que caracteriza o vício é o abuso de algo em detrimento a uma obrigação ou ao convívio social.
Espero que me desculpe pelo tom absolutamente filosófico e um tanto frio que impregnei nesta carta, mas não escrevo no meu blog há alguns dias e achei nesta um prazer e um tema propício para um bom post. Lá, você a encontrará dentro em poucos momentos...

[]’sJuca

quinta-feira, setembro 30, 2004

Procuro enfermeira: pago em espécie.

Como é ruim ficar doente. Não falo isso por todos os motivos óbvios. Claro que todos os motivos diretos são muito chatos, as febres, as dores, as limitações... sem falar no prejuízo, mas cada vez que fico doente tenho a impressão de que atropelei um cigano. Observem o meu caso: Há algum tempo em um passado longínquo eu fiz um curso de massagem onde fui instruído e agraciado com a dádiva de ajudar as pessoas. Mas havia nesse mesmo curso uma senhora meio estranha que sentava na frente da sala e que me atirava olhares horripilantes cada vez que eu ganhava um elogio dos meus professores. Eu me empenhava bastante e como era o aluno mais jovem, era inevitavelmente notado em meio a uma sala de aula composta por senhoras em média 30 anos mais velhas que eu. Entre outras coisas, isso fazia com que eu ganhasse massagens dos meus professores a cada vez que eles necessitavam de um modelo. À margem de minha apreciável condição, esta estranha figura que usava um par de meias vertiginosamente listradas, carregava sempre um baralho só com cartas de copas, um fole e um cesto de maçãs, rogou-me uma praga. Desde então, sempre que preciso de massagem passo maus bocados até a conjunção astral mais próxima se realize (Depois da palestra que assisti essa semana sobre os calendários lunar e solar na cultura japonesa tenho a impressão de que tem alguma coisa haver com isso também).
Mas vamos aos fatos recentes. No final de semana eu fui inocentemente ajudar a minha irmã mais velha que havia tirado a coluna do lugar, uma das pessoas que eventualmente consegue escapar a regra e me fazer massagem. Coloquei no lugar, tudo muito naturalmente, e na segunda feira à noite comecei a me sentir mal. Minha terça feira foi desprezível, desmerecendo qualquer comentário... Quarta feira logo cedo decidi dar fim ao meu estado miserável e ir a um hospital. Lá chegando fui atendido por uma médica absurdamente mal-humorada que fez pouco caso de eu ter passado a terça toda com febre e ainda quis me fazer sentir culpado por existir. Não obstante, ganhei ainda duas injeções na nádega esquerda, que hoje eu tenho a impressão que vai se destacar do meu corpo e cair dura no chão, e um “vai trabalhar vagabundo”. Para não dizerem que eu sou machista vou citar o comentário de uma das minhas amigas do trabalho sobre esta parte da história: “_ Desencana, o namorado dela dever ter dormido de calça jeans ontem”.
Moral da história, hoje estou melhor, mas não tenho um puto para comprar os remédios que ela mandou e a injeção de ontem está perdendo o efeito, o que significa que vou voltar a piorar até amanhã, ainda mais com esse tempo tosco que está fazendo aqui em Sampa. Com essa história toda estudei muito menos do que eu queria essa semana e estou me sentindo o último Dodô. A carência de estar doente sozinho é algo absolutamente insuportável. Odeio a sensação de vulnerabilidade e dependência, queria sumir da face da Terra.

sábado, setembro 25, 2004

Chega de ser o bonzinho.

Não, não estou puto da vida, não levei mais um fora que me fez rolar por três meses, não aconteceu nada de mal, nada de ruim. Em fato nunca estive tão lúcido. Vou contar uma historinha, ela começa com um garoto frágil e sensível, que só queria agradar de todas as formas às mulheres. Não posso dizer que ele tenha aprendido tudo o que havia para ser aprendido, estava bem longe disso, mas ele aprendeu bastante, digamos que ele tenha aprendido quase o suficiente. Incrivelmente este garoto nunca deu muita sorte no quesito relacionamentos, engraçado não? Pois é, creio que o mais engraçado é que as pessoas que se aproximavam sempre o faziam seduzidas por duas imagens que na verdade não existiam, o anjo e o demônio. Mas o anjo era bonzinho demais, e como tudo o que é muito doce, ele causava satisfação e enjôo para não falar no medo de se estragar algo belo. O demônio, bem esse era bem visível, mas sempre ficara lá dentro e raramente saia para dar umas voltas. Entretanto, as pessoas que viam o demônio corriam para ele extasiadas com sua presença.
O irônico era isso o garoto ser as duas coisas e não ser nenhuma. Engraçado terem sempre o visto como o amante perfeito, mas um péssimo namorado, engraçado olharem para ele e verem nele aquele ar de cafajeste que ele sabia ter no sangue, mas queria a todo custo negar. O garoto era muito bom com uma coisa, sabia ler as pessoas de trás para frente, ele sabia olhar nos olhos de uma mulher saber exatamente o que ela queria ou não, mas pecava em uma coisa, nunca quis machucar ninguém, morria de medo disso. Pois que o tempo passou e pensando em todas as oportunidades perdidas e na vida que havia pela frente o garoto percebeu o seguinte: “Não arriscar nada é arriscar tudo”. Chega de medos, chega de proteções infindáveis que no fundo só lhe roubam a agilidade, chega de porquês e mas. Chega. A verdade é que a vida é uma só e se ficamos cheios de dedos para fazer as coisas, acabamos sem fazer nada. Isso não significa tocar o f0d4-s3 e machucar todo mundo, mas dar às pessoas a opção de viverem suas vidas e arriscarem o quanto estão dispostas. Não se trata de enganar ninguém, muito pelo contrário, trata-se da verdade mais absoluta, aquela que o garoto negou por todo esse tempo, mas que nunca seria feliz se não tentasse libertá-la. No fundo, somos o que somos, nada mais e nada menos.

sexta-feira, setembro 24, 2004

Nada melhor que amizade, amor e afins

Nada melhor do que a sensação de pele limpa depois de um banho tomado e cheiro de sabonete, do que transar com quem se ama ou com quem se deseja, do que estar apaixonado. Do que andar de moto no calor e sentir o vento no rosto, do que andar descalço na areia limpa da praia quando ela ainda não esquentou, do que comer quando você está com muita fome ou beber água quando se está com muita sede. Não há nada melhor do que ver alguém que você ama corresponder à sensação, mesmo com todos os problemas, com todo o mundo caindo ao redor. Nada melhor do que ver aquela garota especial que você conhece há anos, que é uma super amiga sua e que você acha super fofa te abraçar com vontade e sorrir. Não há nada melhor do que fazer rapel sob um céu de brigadeiro e uma vista linda, nada melhor do que levantar logo cedo depois de uma noite bem dormida em uma manhã de primavera. Não há nada melhor do que ser bom em algo que você faça e ser admirado por isso, do que pintar um quadro inspirado e sentir o cheiro dos pigmentos. Não há nada melhor do que conversar por horas com aquele seu amigo inteligente nem há nada melhor do que ler um bom livro deitado na cama com um prato de cookies e um copo de leite. Nada melhor do que beijos na boca, abraços fortes e ganhar um beijo de quem você queria. Nada melhor do que passar um dia inteiro fotografando com um amigo, nem do que ficar preso dentro de casa quando o mundo desaba lá fora sem compromisso algum exceto o de estar lá e se divertir com alguém de quem se gosta sob o barulho da chuva. Nada melhor do que ver o brilho nos olhos ao reencontrar um amigo e nada melhor do que reencontrar um grande amigo que você não vê a 10 anos. Não há nada melhor do que ter amigos maravilhosos e conhecer pessoas incríveis. Não há nada melhor do que um bom cálice de vinho, pedaços de um bom queijo (um não, vários!), pé de moleque, bicho de pé, sashimi e sake! Nada melhor do que a Boemia, do que ouvir música, do que conhecer pessoas interessantes e fazer bons amigos aonde quer que você vá. Nada melhor do que a excitação do trabalho instantes antes do almoço, quando você fica curioso para saber com quem vai almoçar e aonde. Não há nada melhor do que viver sem se preocupar e ser feliz por isso, sem precisar de motivos senão a própria felicidade.

terça-feira, setembro 21, 2004

Janelas

Estou pensando em matar uma dessas noites para pintar uma paisagem. Faz muito tempo que não pinto nada e sinto muita falta, mas mais do que isso me faz falta uma janela para que eu possa ver o mundo lá fora. O andar onde trabalho no Nautilus, não possui janelas, a única exceção é aquelas janelas de banheiro velho que circundam todo o andar, mas ficam ocultas por persianas propositalmente colocadas para tanto. Hoje sinto falta da Valentyne, levei-a para a revisão ontem e vou buscá-la hoje ao final do meu expediente. Ela se tornou rapidamente uma parte importante da minha vida, me faz lembrar dos poucos instantes onde sou realmente livre, senhor de mim. Estou querendo viajar para passar mais tempo com ela, porém me falta grana para isso. Nesta última semana tenho me apegado às coisas que deixo passar. Fico pensando quantas oportunidades passaram sem que eu pudesse aproveitá-las. Preciso desesperadamente levantar uma grana, quero por as minhas contas e coisas em ordem. Para quê? Ainda não sei ao certo, mas quem sabe se eu juntasse uma grana legal, pagasse todas as minhas contas e tentasse arrumar um novo emprego... bom, eu poderia tirar umas férias e viajar com a Valentyne para o sul do país, por um mês talvez... Acho que me faria muito bem. Então, a pintura que quero fazer ficaria pendurada ao lado do meu PC e seria o ícone do mundo lá fora, dos lugares desconhecidos, de pessoas exóticas. O ícone da minha iluminação, de uma vida melhor, a promessa de um amanhã diferente de tudo.

terça-feira, setembro 14, 2004

A volta do bom humor

Acordou esfregando os pés por debaixo da cama, com nova disposição e com o sol atravessando as arestas da janela. Enrolou, estava com preguiça de ir trabalhar. Procurou uma desculpa dentre o rol de pequenos mal-estares que o acometiam recentemente. Estômago virado logo cedo, torcicolo crônico e uma recente dor de ouvido com ares de bumerangue. Logo desistiu de ter preguiça e acabou por levantar. Engoliu alguma coisa de que mais tarde se não se lembraria só para dizer que comeu algo. Arrumou-se e partiu. Sempre que tinha insights sobre a condição humana se sentia bem disposto logo cedo. Hoje era um dia desses. Desviou do cachorro na entrada da casa e deu bom dia a Valentyne, seu verdadeiro amor, que dormia em um quarto empoeirado, daqueles onde pode se ver a poeira dançando no ar logo que os raios de sol o alcançam. Desviou novamente do cachorro que resignava-se a levantar e sair do caminho. Ignorou os presságios de chuva. Vestiu a luva, o capacete e deu a partida. O ronco do motor encheu o ar e acordou aos gatos. Com o coração crescendo e ocupando todo o peito doou-se à liberdade. Só conhecem o dom da liberdade aqueles que voam sobre o asfalto em duas rodas, com o vento no rosto e sentindo os cheiros da estrada.

segunda-feira, setembro 13, 2004

E assim segue mais um dia cinza chumbo.

Começou bem, levantei com o estômago embrulhado e desejando dormir o resto do dia. Hoje é segunda-feira o pior dia da semana e o dia que irá começar o meu segundo semestre. Supostamente eu deveria estar feliz com isso, mas vou começar tendo uma aula de japonês que não entenderei bulhufas porque não pego nos livros há um ano. Já estou até vendo, vou entrar na aula e passar por alguns momentos constrangedores quando a minha sensei mandar eu ler alguma coisa ou responder há algum exercício e eu simplesmente tiver a impressão de que estou lendo lídiche em alfabeto cirílico.
O tempo estava horrível quando olhei pela janela o que me lembrou que provavelmente vou pegar chuva de moto, já que não tenho dinheiro para pegar um ônibus até a facu (o que por um lado é excelente), mas ao mesmo tempo o contador de gasolina da Valentyne anda me pregando uma peça, de repente ele resolveu cair de uma vez para próximo da reserva. Espero que ela ande até o dia 15, quando eu continuarei sem dinheiro, mas pelo menos voltarei a ter limite no banco. De mais a mais, o meu final de semana foi bem estranho embora tenham ocorrido algumas coisas muito legais.
Andei pisando na bola com a minha “mais melhor amiga” e ela está afim de construir uma forca na frente da casa dela, onde suponho eu há uma grande possibilidade de eu encontrar alguns corpos de criaturas vagamente humanas semi-carbonizadas empaladas no portão de entrada e uma tabuleta de “aberta a temporada de caça aos elfos” da próxima vez que eu a visitar. Gostaria que a vida tivesse alguns save points, assim eu poderia simplesmente voltar atrás das m3rd4as que eu faço e não teria medo de morrer quando encontrasse o chefão da fase.

domingo, setembro 12, 2004

Deus está de brincadeira comigo hoje!

Olha o meu Horóscopo de hoje (sic):
"A raiva que circula solta por aí parece motivada pelas limitações, mas na verdade alimenta-se dos sonhos que ainda permanecem sem realização. Porque, senão, a alma se irritaria com as limitações? Consentre-se nos sonhos."

Twpish!!!! (onomatopéia de tapa)

e para completar o do meu ascendente (sic):
"Alimentando-se do medo a pergunta de, se vale a pena tanto sacrifício para realizar os sonhos, sugerindo inibir o impulso da criatividade e conquistar uma paz ilusória, dado que você continuaria sonhando mesmo assim."

Twpish!!!! Twpish!!!!
Na cara!!!!!

Deus só pode estar de brincadeira comigo hoje....

quinta-feira, setembro 09, 2004

Perdidos na tarde

Existe um sentimento que se abate sobre o coração dos homens em determinados dias, em determinadas tardes. É um sentimento como o por do sol, com cores vibrantes e um céu pintado de um material que não se sabe bem o que. É o mesmo que se sente entre as árvores de um bosque, em pleno silêncio em um canto afastado do mundo, onde se percebe que não existe o silêncio puro, mas a melodia das folhas e da natureza. Tem algo haver com a o calafrio extasiante que percorre nossos corpos ao pisarmos em folhas secas e com a brisa que nos refresca levemente em uma tarde de verão. Certas mulheres conseguem nos dar esta sensação, de que perdido em uma sala de cimento escuro no começo da tarde, preso há uma máquina de metal e plástico, um suspiro percorra o corpo e nossa boca lembre vigorosamente o sabor de um beijo com desejo e vontade. Uma saudade de algo que possa nunca ter acontecido. Basta sentir o aroma suave que desfila no ar com sua passagem, basta ver um arquear de lábios, ouvir um riso perdido. Bastam tão poucas coisas... Apenas a sensação de sua presença. Apenas um encontro de olhares, a leveza de um toque, a beleza de um sorriso. Ah! Soubessem elas o tremor que causam, as palpitações, os sonhos... E enquanto isso permanecemos aqui. Ocultos do mundo, distantes da luz do dia, fora da vida e longe de mais de tudo.

sexta-feira, setembro 03, 2004

A poucos centímetros da auto-suficiência – insights e conclusões em uma sexta-feira estranha.

Pois bem, seu topos foi muito apropriado Buck. Tão apropriado que resolvi escrever a respeito (pero no mucho).
Deus realmente deve ser um velhinho sacana, aliás, o único Deus que deve existir realmente é o Priapo. Explico, o Priapo era uma divindade fálica greco-romana, utilizada em frente às casas como uma espécie de “espantalho” junto a uma tabuleta com uns dizeres muito gentis, algo similar a “Se você invadir ou roubar este lugar currar-te-ei filho da P...” e eu não estou brincando, isso é sério mesmo. Ele também era muito cultuado em ocasiões “festivas”, se é que vocês me entendem, mas isso já é outro assunto.
Eu estava pensando na quantidade de obras feitas por homens para as mulheres, como diz aquele texto (que dizem que é do Jabor) tudo é por causa das mulheres. Mas curiosamente não há recíproca, ou melhor, se há eu ignoro. O mais próximo a isso que eu conheço são as chamadas “cantigas de amigo” que nada mais são do que lamentos frustrados e irados de mulheres pela ausência do amante. O que por sinal me faz recordar uma outra excelente observação do Sr. Buck a respeito de uma mísera palavra. Vingança - substantivo feminino - ato ou efeito de vingar; vindicta; punição; castigo; desforra; represália; desforço. Uma das palavras mais ouvidas saindo da boca de mulheres em referência aos homens. Quanto a nós, homens, continuamos a escrever poesias, músicas, livros, pintar quadros, fotografá-las e até a construir uma das maravilhas do mundo. Ouvi dizer que homens e mulheres hão de se tornar espécies diferentes. Não duvido, creio até que os homens entraram em extinção, porque toda essa adoração exasperada e esse ódio não há de terminar bem realmente. Entendam que não se trata de misógina da minha parte, eu sempre acreditei que homens e mulheres eram iguais, sou até um dos caras mais bobos que conheço nas mãos delas. Mas permaneço aqui com um terrível problema, não sei qual a palavra correspondente feminina para a misoginia (do Grego. mis, r. de misein, odiar + gyné, mulher). Somente depois de uma busca demorada consegui achar o correspondente, misandria, que curiosamente não consta no dicionário embora a palavra exista. Convido os meus leitores a fazerem uma pequena busca no Google por essa palavra onde vocês encontraram textos e dados bastante interessantes. Entre as justificativas para este fato vocês notarão que a misoginia é reprovada pelas sociedades ocidentais, o que não ocorre com a misandria por ser um hábito absolutamente freqüente. Uma das frases que me chamou a atenção foi a seguinte: “Enquanto que o agressor do sexo masculino é passível ser condenado por crimes de violência, as mulheres agressoras são vistas como loucas ou insanas” o texto integral pode ser encontrado na página: http://www.socratesnolasco.com.br/newshomer.htm Outro texto interessante pode ser encontrado em: http://nzmera.orcon.net.nz/p6maljus.html Curioso pensar como o homem branco em pouco mais de um século conseguiu o tornar-se o tipo humano mais discriminado. Mas a intenção deste post não era tornar-se um estudo sociológico, então volto a idéia do Sr. Buck e penso que atualmente a única coisa que o homem pode esperar hoje é que a evolução o compense ou acreditar que pode ter mais sorte na próxima encarnação.

segunda-feira, agosto 30, 2004

Inércia - Tudo é uma questão de razões.

Ao acordar de manhã levantou porque tinha de trabalhar, comeu para poder tomar seus remédios, tomou seus remédios para não surtar enquanto trabalhava. Foi trabalhar para poder pagar seus estudos, a conta da moto e a do analista, ou melhor, do analista e da moto que usava para ir até ele e até a faculdade. Ou pelo menos era o que ele queria acreditar.
Alguns amigos afirmam que Prozac é hoje uma religião. Eu afirmo que na verdade a religião é um Prozac. A religião obriga você a acreditar que há um ser supremo, Deus-pai-todo-poderoso, Magnus Opus, que olha por seus atos e que irá puni-lo ou bonificá-lo de alguma forma caso siga ou ignore dada conduta, caso você não faça exatamente o que “ele” deseja. Primeiramente eu não quero nem comentar o fato de que um ser supremo teria coisas muito melhores para fazer do que ter de criar um mundo e observar as pessoas nele. Explico, se estamos tratando de um ser perfeito ele não teria curiosidade uma vez que é onisciente, não criaria a humanidade para observá-la, e se o fizesse seria em um ato de extremo tédio. Ora, se deus está entediado ele não pode ser perfeito e as coisas não começaram nada bem. Uma vez que é onipotente ele poderia ter criado algo melhor, e teria lugares mais interessantes para estar apesar de ser onipresente. Mas não é sobre o conceito e o propósito de Deus que quero falar, por tanto darei função à religião e voltarei à questão. A religião serve a dois propósitos fundamentais: estabelecer um código de conduta tendo em vista o funcionamento da sociedade e do indivíduo exposto às pressões desta. Por analogia tanto a religião quanto o remédio, funcionam para sanar os mesmos problemas, as questões existencialistas.
As questões existenciais sempre foram um problema para o homem. Qual a real motivação do indivíduo para viver e seguir um modo de vida? O que faz com que o indivíduo levante de manhã e faça algo? A atual sociedade propõem um modelo onde a resposta se resume a uma palavra: desejo. Funciona em função da busca pelo hedonismo, estimulando o consumo e por tanto a produção. Para manter o ciclo ela necessita da criatividade, inventividade, tecnologia, propaganda e reciclagem. Isto apenas para citar algumas das coisas. Para que os desejos possam ser produzidos em série, rapidamente e em quantidade eles devem ser padronizados, dando origem ao irônico termo conhecido como “cultura de massa”, que nada mais é do que a padronização da população e que nada tem de cultura no sentido erudito da palavra. A sociedade atual induz a uma resposta que é artificial e que tenta nos fazer esquecer a pergunta.
Existe um pensamento que eu creio seja o maior sofisma perpetrado pela nossa espécie. A crença de que somos animais racionais. Uma vez que somos criaturas de instintos, pensamentos, sentimentos e desejos não creio que possamos ser chamados racionais porque muitas vezes a racionalidade é suplantada por nossos instintos, sentimentos e desejos. Em que isso nos difere dos animais? Nossas relações são mediadas por instintos, estabelecidas à força e segundo nossos interesses. A questão social nunca evoluiu para além da selva.
Por um longo tempo eu cometi o erro de justificar a razão da minha existência através dos meus atos e das pessoas a quem amo. Acreditava que aquilo que eu fizesse poderia ser a essência de meu ser, a minha razão. Acreditava em agir com nobreza em honra àqueles que amo. Na verdade um modo bonito de se dizer que se eu fosse uma pessoa de bem, seria admirado, respeitado, querido, desejado e amado. Portanto em pouco tempo esta se tornou a razão do meu ser. Porém isso encerra um grande problema, toda vez que a relação que tenho com as outras pessoas muda isto me afeta de uma maneira violenta. Essencialmente quanto mais significativa a relação com a pessoa mais violenta a reação, maior o tombo por assim dizer. Toda vez que perco um amigo ou uma namorada eu literalmente morro, porque meus atos deixam de ter um propósito, um sentido, um significado e uma razão. Aprendi a viver em função das outras pessoas, aprendi a não acreditar nos meus olhos, mas nos olhos de outrem. Quando sou amado me sinto bem, sei que sou uma boa pessoa, quando abandonado, volto às trevas do esquecimento. Não consigo ser de outra forma por mais que eu tente. Tento me amar, mas não vejo nisso mais que uma motivação narcisista e egoísta, não acredito na realidade que capto com os meus sentidos a respeito do meu ser. Talvez porque eu não aspire grandes coisas além de amor, o que infelizmente envolve outros seres.
Então eu pergunto a todos os que me lêem: Qual o motivo que vocês tem para levantar da cama de manhã e viver a vida? O que faz com que vocês passem pela vida e não que a vida passe por vocês? Porque amor é uma mera convenção, relativa a proteção e admiração, relativa a instituição de quem é sagrado para você. Devo afirmar que nesta alçada não sou mais do que um mero aspirante. Que me apaixono como qualquer cachorro de rua quando recebe um osso qualquer. Mas como todo o cachorro de rua não sou capaz de gerar admiração por parte de ninguém. Não tenho características impressionantes. Não sou nada além de “fofo”, mas não quero ser um travesseiro. No final eu sou sempre o cara legal com quem as pessoas contam quanto precisam, mas se esquecem quando apropriado. E isso não tem nada haver com recompensa, mas com notabilidade. Por mais que eu me esforce, não sou digno de nota. Se nós somos todos animais e vivemos para crescer e perpetuar a espécie, neste caso sou fadado ao fracasso. Sou um sobrevivente astuto não um garanhão musculoso. Sou apenas um coiote que uiva só no topo da montanha. Não posso mais ansiar grandes relações que me façam viver com meus antiquados ideais nobres, nem esperar que essas relações me preencham. Assim, já tenho meus remédios, não quero uma religião ou uma crença em um futuro improvável, não será nada que eu compre que irá me responder o que quero saber. Não quero me importar porque assim dói menos, já que sou fraco, admito a minha fraqueza! Quero apenas uma resposta e não quero a resposta definitiva, quero apenas saber que motivo faz cada um levantar logo cedo e viver a vida!

sexta-feira, agosto 27, 2004

Jogando dados com o diabo

Certa vez eu li um conto muito interessante sobre um irlandês muito sortudo que sempre ganhava as apostas que fazia. Diziam que ele seria capaz até de enganar três vezes o diabo. Até que um dia o diabo apareceu para comprovar a teoria...
Não vou contar o resto da história porque ela é muito boa, e em algum lugar no meu ser eu desejo não estragar o deleite das pessoas que eu gostaria que lessem-no um dia.
Há muitos anos, uma das minhas expressões mais conhecidas era “jogar dados com o diabo”. Acho que não preciso explicar muito a respeito até porque meus parcos leitores já a conhecem. Ainda assim explicarei, aliás, explicarei com uma frase que não é minha: “Life is cheap when the bounty is high;
So are you ready to die?“
Depois de muito tempo votei a tentação de jogar dados com o diabo. Imagino que se conversássemos seria algo mais ou menos assim:
_Boa noite jovem mancebo.
_Boa noite.
Um silêncio seguiria entre os moveis rústicos de madeira em um ambiente predominantemente marrom de um pub irlandês, quase com os tons da fase holandesa de Van Gohg, exceto pela iluminação um tanto mais calorosa e pelo cheiro forte de madeira.
Os olhares falariam por um longo tempo, o meu levemente audaz, desafiador. O dele, plácido.
_Não há necessidade de constrangimentos ou rivalidades aqui. Cedo ou tarde TODOS voltam.
Ele colocar-se-ia de lado e indicaria com a mão a passagem até uma mesa com pão de centeio, queijos vários, salame italiano, azeite extra-virgem e cerveja irlandesa.
_Você não esquece não é mesmo?
_No meu negócio, hospitalidade e memória são muito importantes, uma leve e agradável risada tornaria a frase reconfortante.
Comeríamos um pouco e enquanto ele retiraria do bolso um pequeno jogo de dados de marfim, que nos acompanhariam pela noite toda rolando pela mesa. Ao final, eu teria ganhado a maioria das partidas, então me levantaria e diria.
_Você nunca se cansa? Eu vinha aqui freqüentemente e nunca perdi, mesmo depois de todo esse tempo continuo ganhando.
_Vou lhe contar um segredo, mais cedo ou mais tarde TODOS perdem. Uns mais cedo, uns mais tarde. Alguns perdem na primeira rodada, outros nunca perdem. É tudo um lance de sorte.
Um instante de silêncio e ele diria ainda:
_Gosto de você, você é um bom cliente, uma companhia agradável, sabe das coisas, conhece as regras... Você não vem aqui para ganhar. Você vem aqui pelo jogo.
Um breve e caloroso abraço e ele abriria a porta para mim.
_Agasalhe-se bem, está frio lá fora.Abriria totalmente a porta e flocos de neve voariam para dentro, revelando um mundo azul lá fora.

quinta-feira, agosto 26, 2004

...

Desculpem-me, eu queria escrever, mas não consigo. Queria apenas dormir pelo resto da semana. O tratamento tem ajudado muito, mas hoje não é um bom dia.

Frase red dragon do dia

"I love my pills!"

sexta-feira, agosto 20, 2004

E a canção do flautista começa lentamente.

Sexta-feira, 15:00 horas e eu aqui à deriva... Não porque não tenha o que fazer, estou com uma pilha de trabalho acumulado, mas sei lá... é como se eu não estivesse aqui. Não sei explicar, a Fada disse que é essa mesma a sensação no início, de que eu não sou eu mesmo. Tudo está diferente, meu equilíbrio, meu tato, meu paladar, os cheiros e o meu olhar. Nada de mal com isso, não por enquanto. Mas eu estou aqui, sentado em frente ao meu micro, com tendinite devido ao excesso de trabalho e tentando esquecer que daqui a pouco terei de enfrentar o trânsito infernal de Sampa para chegar até Avalon. Não que eu não queira assistir a minha aula hoje, pelo contrário, eu só queria chegar logo e sair logo. Acho que é a ansiedade me roendo de novo. Pelo menos ela também não está tão ruim como de costume. O trabalho não para de acumular e parte dele ainda é problema alheio. Até este post está estranho. Será que isso tudo não é algum sonho estranho?