terça-feira, março 16, 2010

O Tigre da Tasmânia

Dizem que recordar é passar novamente pelo coração, mas a memória tem algo de volátil e de traiçoeira, tal qual a víbora que desvanece tão repentinamente quanto surge antes do bote. Pode parecer uma afirmação falsa, mas é fato que não sou capaz de me recordar da minha primeira experiência artística significativa. Lembro de muitas coisas, das cores nas latas de tinta, do silêncio e da escuridão do laboratório fotográfico, das mesas de desenho e de pessoas que passaram por elas; mas sobre tudo me lembro da mistura peculiar de cheiros que iam da serragem na carpintaria aos periódicos sobre as mesas do escritório passando pelo cheiro das emulsões, thiner, poeira, películas e das pessoas que davam vida à fábrica. Os dias eram longos, repletos de contradições e curiosidades. De certo não era arte, mas ela estava impregnada por lá em todos os cantos e espaços, entrava pelos poros e morria na boca. E quando terminava deixava um sabor estranho de algo que é o que não é e não é o que é.
Devaneio, uma garota ao telefone rabisca dezenas de caixas num pedaço de papel, outra quebra uma folha em centenas de triângulos cuidadosamente coloridos. No museu de arte, um garoto brinca com uma estátua da maneira que garotos brincam para constranger aos adultos. Em um quarto mal iluminado uma gaveta transborda lápis, réguas, tintas e decalques. Um prédio se sustenta no ar por quatro pernas que ainda não eram vermelhas. Eu não sei como foi porque eu não estava lá, era outro, lá no principio, onde a linguagem se insinuou antes da mensagem. Carregada de um hálito embriagante, inexorável, sedutor, proibido, implacável.

domingo, dezembro 13, 2009

Ficção Intitulada

Ao olhar por um instante para o céu, notou o que nunca antes parara para pensar e deu por falta da luminosidade tenra de uma estrela conhecida. Era normal que vibrasse e fraquejasse e que por vezes parasse e voltasse, desde que sempre estivesse lá. Mas naquele momento, sabe-se lá por que, o que deveria estar lá não estava. Não havia estrela alguma, apenas o temor até então desconhecido de que ela nunca mais voltasse.

Jack lembrou-se de que toda a subjetividade tem um preço, que quando olhamos tempo demais para dentro de nós não vemos o que está a mais de um palmo do nosso umbigo. Sempre “soube” que as estrelas morriam, mas nunca em sua vidinha miserável imaginou que veria isso acontecer. No entanto lá estava ele diante do fato, extremamente surpreso e um tanto quanto envergonhado de por tanto tempo ter sentido a necessidade de saber que alguém um dia lançou daquela estrela um olhar de volta para ele.

Olhou de novo para o céu, e de novo, e de novo, sabendo que já ocorrera antes de ter apenas perdido a estrela de vista e se confundido, visto que era apenas um amador na arte de observar estrelas. Mas sabia que até então ela não estava lá e talvez amanhã não estivesse, nem depois de amanhã e nem depois de depois de amanhã. E por mais que doesse não havia nada que pudesse fazer a não ser esperar.

Enquanto fitava o horizonte aturdido, lembrou-se de que quando era criança acreditava que as estrelas existiam uma por causa das outras. Que de cada estrela brotavam várias outras e destas muitas outras ainda, numa profusão caótica, amistosa e infinita. Até que um dia, ao compartilhar com cortesia sua pequena sabedoria a um adulto, recebera de volta uma risada curta, rude e sarcástica e uma pergunta capciosa. “Então, se as estrelas nascem umas das outras, de quem nasceu a primeira estrela?”

Diante do enunciado o pequeno Jack não teve outra opção senão sorrir sem graça e corar. Conteve o choro enfurecido e orgulhoso até conseguir se encontrar só e então verteu todas as lágrimas que pode, não pela grosseria recebida, nem pela certeza que lhe havia sido arrancada, mas pela necessidade do homem em destruir tudo pela “lógica”. No fundo ele sempre soube que não era aquela a resposta para o brilho da noite, mas nunca entendeu o prazer mórbido do homem em destruir coisas belas fingindo ignorar o que estava para além de si próprio.

Naquela noite Jack não conseguiu dormir, ficou esperando a estrela até que a aurora não o deixasse mais distinguir entre os astros e céu. E sem saber se a estrela havia morrido ou não, o amargor de tornar-se consciente de que estrelas morriam todos os dias só era superado pelo amargor de saber ter herdado a ignorância que o tornava impotente e cúmplice de um fato tão sórdido quanto a morte de uma estrela.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Trêmulo

Tremor. Um zumbido alto se sobrepõe por um instante ao ronco constante dos motores. Sirenes, vozes, alarmes de carro... A sala, imersa em sua penumbra habitual, permanecia naquele ponto inconstante, quase claro, quase escuro, quase quente, quase frio, quase confortável, quase ordenada, quase solitária.

Falta pouco para a aula, uma hora, uma hora e quinze, quarenta e cinco minutos talvez. Não faz diferença, hoje não. Hoje não estou para o ar viciado de terebentina e óleo de linhaça, nem para os corpos-objetos dos modelos ditos vivos. E depois de dois ou três telefonemas também não estou para ninguém, o que é o jeito hipócrita de reconhecer ser dado ao ostracismo. Cuja mordaz indiferença é a parte mais dolorosa entre o esquecer e o quase. Que por longos instantes me transforma num objeto de dar corda ou num sátiro cuja importância se relativiza diante de tantas outras distrações disponíveis. Não é a toa que o gentio se deixa iludir por fábulas e mitos megalomaníacos de infinitude, entes supremos, paraísos, infernos e toda a sorte de coisa que designifica o suicídio e lhe tira a mente de sua vida vazia.

Agora lembro-me de uma amiga a contar de um amigo formado bacharel ainda imberbe em uma profissão mercadologicamente viável e dono de seu primeiro milhão aos vinte e poucos anos. E ainda hoje, cético da existência de gente assim, me pergunto o que é essa lógica diabólica que afirma que alguém assim "deu certo". Orgulho-me de estar pastando o diabo, sem ter onde cair morto se isso me trouxe alguma lucidez. Ainda que doa na minha alma os dias e dias sem uma conversa amistosa, que quase todos os meus amigos já me tenham apenas na efemeridade de um punhado de memórias cálidas. E que a certeza da minha existência resida apenas no calor tépido que se esvai de beijos apaixonados, abraços apertados e do cheiro da amada que persiste em meu corpo.

A poucos passos da obliteração, resistem apenas linhas mal escritas com palavras borradas e idéias satânicas. Algumas telas empoeiradas num canto. Olhares devovidos em fotos. E longas reflexões sustentadas de forma tão imaterial por uns poucos watts de eletricidade.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Invisível

Deu calor, foi uma corrida que dei na rua, demorou a passar, horas e horas. Sinto o nariz cheio de ar e os ouvidos quase tapados. Os sons chegam abafados, submersos e tento segurar a chuva com um tremor interno. A sombra é fria e o sol arde enquanto me afogo em mim mesmo.

E enquanto isso, assisto às coisas e pessoas do outro lado do espelho d'água, numa outra vida em um outro lugar. Como se do alto do meu palco invisível, ao sentir a proximidade do clímax da minha tragédia, eu vivesse um meta-momento , um momento onde as coisas se invertessem e eu pudesse assistir a platéia. Enfadado de mim mesmo, cansado, repetitivo, nostálgico, agitado, desesperado, cansado, cansado, cansado...

A correnteza aumenta e quase me entrego, meio morto, abandonado ao acaso de ser uma sombra do homem, já quase sem forças para continuar. Tenho os bolsos vazios, um milhão de desejos e nenhuma moeda para o Caronte . E assim, a morte irá prevalecer e a vida também, com todas as suas lamentações as quais este lápis é o único confidente. O único capaz de realizar a materialidade e o significado intrínsecos destes fatos insignes. O único capaz de fazer algo à respeito e sobreviver.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Hiatos

Ainda ontem quando acordei uma nesga de sol amarelo ouro avançava sobre a sala após fugir entre as nuvens negras que maculavam os céus. Era muito cedo, como há muito tempo não me lembrava de acordar por vontade própria. Os primeiros pingos me alcançaram logo antes de chegar ao ponto de ônibus e já continham em si o mesmo ímpeto que meu corpo quando ainda na noite anterior prometi para a mim mesmo um derradeiro esforço pela salvação dos meus dias.

Estava feliz com a minha pequena vitória sobre o sono, o cansaço, o tédio e o desânimo; permanecia levemente excitado mesmo diante da montanha russa emocional matinal. A água açoitara as vidraças do campus com toda a fúria e escorria plácida pelos vidros das janelas, causando aquela sensação boa de que tanto gosto. Mal havia passado das nove horas da manhã e já era noite.

E assim o dia foi passando, molhado branco-acinzentado com aulas boas, conversas jogadas fora com amigos aqui e ali e rompantes de paixão. Veio a noite tão úmida quanto o dia, o ar leve e respirável, o asfalto brilhante, uns poucos letreiros acesos, as dezenas de portas fechadas e um restaurante grego um pouco mais animado do que a lanchonete em Nighthawks. O dia foi-se tão surpreendentemente quanto chegou deixando apenas o desejo de poder mandar embora todo o hiato criativo com a mesma veemência de um dia bom de chuva.

sexta-feira, julho 31, 2009

Aqueronte

Sensação estranha, uma misura de imagens que são por sua vez misturas de idéias. Um amigo morto, ou melhor dizendo, prestes a morrer porque seu cérebro foi danificado permanentemente, além de qualquer possibilidade de conserto. Nem sei como fiquei sabendo, fui até a casa do amigo em questão que se tornou outro de uma hora para outra, talvez porque eu tenha decidido polidamente declinar de minha amizade para com este anos atrás. Uma relação estranha, tóxica e questionável do ponto de vista do que se deve esperar de uma amizade.

Removido das idéias o amigo em questão. O novo-velho-amigo-covalecente, que por acaso não encontrava desde o velório da mãe de um grande amigo nosso (mais meu do que dele na verdade, não por isso menos amigo nosso, coisas de amigos de colégio). Estava magro e positivamente mudado pela idade, aparentava estar mais saudável, sincero e bem cuidado do que em nosso encontro anterior. Acompanhou-me até uma loja de aspecto um tanto vitoriano onde alguns dos meus quadros estavam expostos ainda molhados. Levei-o lá porque ao longo de sua doença aparentemente ele também havia passado a pintar e o fazia muito bem. E ao partilhar de tão agradável experiência, queria que levasse consigo o prazer de uma última conversa com outro amigo pintor. Ele não estava só, o pai dele, um jovem senhor muito gente boa que morreu há alguns anos de uma doença degenerativa, o acompanhava devido a sua impossibilidade de caminhar, conversar e fazer tudo aquilo que ele estava fazendo naquele momento.

Tudo ocorreu muito rápido, tendo em vista que a hora da morte estava marcada para a cena seguinte e não queríamos nos atrasar. Assim, dei-lhe um quadro e voltamos a sua verdadeira casa onde outros rostos conhecidos aguardavam com ansiedade e pesar. Apressado, meu amigo voltou para o quarto de enfermaria que havia deixado em sua casa, no que outrora fora sua sala de estar; deitou-se na cama, ajeitou o travesseiro e colocou de volta os eletrodos. Soutou uma ou duas palavras de ordem durante o processo afim de que tudo ocorresse como planejado e, sem mais me olhar desde que voltamos da loja, desligou os próprios aparelhos enquanto seu pai o auxiliava.

Triste e sem poder mais observar o corpo que agora jazia sem vida, virei de costas e caminhei para longe enquanto lembrava de quando minha irmã do meio removia a carne excessiva de suas pernas após ser morta por um trem algumas noites antes.

Comprimi os olhos com um gosto estranhamente familiar na boca, o som das pedras de gelo castigava o telhado. Virei de lado, e fiquei ali parado, nostalgicamente ouvindo a chuva por alguns minutos até o sono me buscar novamente.

terça-feira, julho 07, 2009

Esferográficas, grafites 2b e nostalgia

Fazia meses que não pegava em um lápis para escrever (e para ser sincero para desenhar também). Com essa história de computador para lá e para cá, greves universitárias e outras aberrações da vida moderna o pobre lápis ficou até empoeirado. Não era nada demais, nada sério, apenas umas anotações do que precisava ser feito ao logo do trabalho. O lápis conservara-se bem apontado, sinal do seu continuado desuso. E ele nem se lembrava mais como se parecia a sua letra que de tão garranchada que saíra pela abstinência, poderia bem ser a de outro. E o era.

Outros tempos, outros gostos, outros eus. Tempos analógicos. Lembrou-se das canetas e lapiseiras de que gostava de usar para escrever e para rebobinar as fitas k7 que ouvia o tempo todo enquanto escrevia. Gostos que mudaram ao longo do tempo, reflexo do ato de escrever, desenhar e da falta de um walkman. Gostara de seus cds, gostava de seus mp3, mas por melhores que fossem não eram a mesma coisa. Algo havia se perdido na tradução da tradução da tradução de alguma coisa que havia muito acompanhava a humanidade.

Pensou consigo mesmo e percebeu que o que sentia nesse exato momento era a mesma sensação que sua mãe sentira uma vez ao tentar lhe explicar sem muito sucesso porque sentira falta de escrever a bico de pena. Contou os minutos para sair do trabalho. Correu para o metrô e do metrô para casa. Foi para o quarto, subiu apressado num banquinho e tirou do armário o aparelho pouco menor que um tijolo pequeno. Arrepiado pelo frio e pela eletricidade, parou um instante para colocar uma camisa de flanela e, na falta de uma pilot de ponta fina, procurar uma bic. Sentou-se no chão de madeira , rebobinou uma fita, colocou os fones de que tanto gostava e, mais uma vez alheio ao mundo, escreveu pela tarde.

quarta-feira, junho 10, 2009

Outra Estupidez Qualquer

Sempre olhando, sempre olhando... não descanse, digite, não digite, codifique, copia e cola. O corpo preso e mente tentando ser livre, as articulações rangem, doem e reclamam enquanto os olhares não perdoam um instante sequer; copia e cola. Você não é obrigado, mas obrigado o é a sempre copiar e colar. Olhares de novo, copia e cola. Finge, escreve uma tolice qualquer, copia ali, cola lá. Odeia em seu íntimo, mas o faz mesmo assim. O som das teclas delata, não mais cíclico e repetitivo, mas contínuo, interrompido apenas pela organização dos pensamentos. Logo os olhares se voltam novamente desconfiados e me preparo para escutar outra estupidez, copia e cola. Eu queria criar. Só um pouquinho. Copia e cola. CoPiA e coLa. COPIA E COLA. COPIA E COLA. COPIA E COLA. Pelo menos ainda posso ouvir música. copia e cola. copia e cola. copia e cola.

segunda-feira, março 23, 2009

Fast Forward

A realidade ainda brinca com meus sentidos. Durmo e o sono continua a me perseguir. O tempo passa. Eu corro, corro, corro e a realidade foge ao meu controle, a minha percepção. Tomo café. Uma xícara. Duas. O amargor toma conta e o sono prevalece. Nunca gostei de café, mas continuo tentando. Passa um dia, dois dias e quando acordo novamente é sexta feira 15:42. A semana foi-se e o fim de semana também. O que eu fiz? Aonde estive? O que aconteceu não sei.

Tento entender e tenho em mente duas hipóteses: Passei esse tempo todo tão cansado que nem me lembro de nada, como quando fico com sono e perco totalmente a noção do que acontece. A outra hipótese é de que o tempo passa realmente rápido quando estamos nos divertindo que eu nem vi. E, de fato, não tenho do que reclamar, meu trabalho novo é ótimo, as aulas da faculdade estão promissoras esse semestre, meu namoro vai bem e eu até consegui jogar um pouco de video-game na semana passada... mas a sensação ao final de cada dia é péssima.

Então o que? Algum sonambulismo bizarro que me faz lembra dos momentos em que estou acordado da mesma forma que dos sonhos que tenho quando durmo? Será isso o que me faz acordar diversas vezes ao longo da noite com calores diversos, dores nas costas e me sentindo atado às roupas como se fossem elas grilhões? Será um alcoolismo ou uma ressaca da realidade, um cansaço irremediável?

Tento não pensar no mal mais óbvio que sempre me leva aos mesmos becos sem saída com a esperança de que se eu o ignorar ele fará o mesmo por mim.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Reflexões Sobre a Natureza Envasada

Era uma tarde quente e úmida de final de ano no “agreste universitário”. Não bastasse o calor abrasador, eu sentia uma bela de uma fome numa época em que não é aconselhável sentir fome depois que o bandejão já fechou.

Saio para tentar um lanche e procuro incessantemente algum lugar que esteja aberto. Corro para lá, corro para cá e com um pouco de sorte encontro uma cantina fechando antes de considerar a caça uma opção mais viável. Dou uma olhada (bem) rápida entre as diversas (leia-se: duas) opções do menu e agradeço por não existirem cantinas estatais. Escolho o croissant de quatro queijos com o medo e a certeza de descobrir que os quatro queijos inclusos são o queijo ralado, o queijo fatiado, o queijo em pedaços e o queijo em filetes. E para completar peço um suco de laranja de lata.

A senhora dona da cantina me atende com tamanha boa vontade que me sinto culpado por sentir fome. Alguma coisa me diz que ela não sabe que não é funcionária pública, provavelmente a mesma coisa que me diz que ela não vai acreditar se eu a disser. Pego a comida, procuro por uma mesa na sombra, sento, como e num ímpeto de curiosidade leio (sic):

“Ingredientes: Água, suco concentrado de laranja, açúcar, antioxidante ácido ascórbico e aroma natural de laranja. Pasteurizado. Não contém glúten.”

A grande laranja desenhada no rótulo me observa desconfiada. Releio tudo assustado e confuso. O aroma natural de laranja não deveria ser parte integral do suco concentrado de laranja? Se este suco tem aroma natural de laranja quer dizer que outros sucos naturais de laranja podem ter aroma artificial?

Desconfiança é assim, depois que nós encontramos um motivo qualquer para duvidar de algo tudo o mais se torna inquietante. Até quando leio que: “Esta lata contém em média o suco de 5 laranjas” fico me perguntando porque não encontrei a palavra “naturais” após “laranjas”. Será que a única coisa natural do meu suco é o aroma?

Acho que esse é mais um daqueles mistérios como a água mineral natural gaseificada, que em 90% dos casos esconde em algum canto da embalagem uma menção sorrateira em uma fonte pequena e borrada com os dizeres: “gaseificada artificialmente”. Foi-se o tempo em que quando alguém somava uma coisa artificial a uma coisa natural esta pessoa tinha a decência de chamar o subproduto de artificial também. Devo então supor que o meu computador também é natural, já que é feito de silício, ouro, alumínio e outros materiais encontrados na natureza?

terça-feira, janeiro 13, 2009

Reflexões sobre o Tempo

O tempo em sua fúria passa imperiosamente;
Quando olhamos já não vemos o que nos é presente;

Tentamos segurar mesmo quando não podemos;
Deixamos nos levar quando já não mais queremos;

Ao ver o tempo a passar e nos deixar o esquecimento,
do que somos, do que rimos, do que choramos, do que vimos...

Escrevemos para abraçar aquilo o que nós somos
e pranteamos ao perceber o quanto nossos braços são curtos.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Se falo, calo
Se calo, escrevo

Se escrevo, apago
Se apago, esqueço

Se esqueço, choro
Se choro, desejo

Se desejo, espero
Se espero, entristeço

Se entristeço, paro
E se paro, enlouqueço.


***
Para Luana com carinho.
Válvula Literária

terça-feira, setembro 23, 2008

Cadafalso

A cova aguarda.

Com rosnados e roncos ensurdecedores a rua trata os passantes rispidamente.

A cova aguarda.

Força um transe hipnótico em que ninguém vê ninguém, só ouve aos barulhos e respira o cheiro fétido da cidade, de suas velhas galerias, hidrocarbonetos e esgoto à vista de estabelecimentos pútridos.

A cova aguarda.

Em algum lugar do outro lado da cidade ela aguarda, sinistra, silenciosa, funesta. E eu aqui, em um lapso de consciência oriundo das mais misteriosas manifestações da vida, batatas e leveduras. Minhas batatas, minhas leveduras, outras vidas e a minha não-vida. Enquanto a minha vida... A cova aguarda pronta para me devorar a cada dia mais. Mas mal sabe ela que já me tem por inteiro! Que estou morto sabe lá desde quando e que se ainda existo é porque apenas ando e moribundo, mórbido, maltrapilho, habito a casca vazia de mim mesmo.

Ocasionalmente acordo e enxergo através de meus próprios olhos em um instante único de lucidez quando à noite a Lua envolve as minhas entranhas com carícias. Ou quando às vezes sinto um pálido raio de sol invernal o qual ao passar me retorna ao cadafalso, como agora que o lusco-fusco foi-se, o frio é implacável, as batatas jazem gélidas no prato e a consciência luta contra a imobilidade.

O copo rapidamente seca enquanto rabisco as últimas linhas entre goles. O corpo reluta.

A cova aguarda seu momento triunfal.

E eu espero pelo último frio do inverno.

quarta-feira, julho 16, 2008

Bons Tempos

Eu disse a ela que queria voltar a escrever, mas que não consigo. Ela me disse que é porque eu estou deprimido. Antigamente quando eu estava deprimido conseguia escrever e escrevia muito. Hoje não consigo escrever muito quando estou deprimido e nem quando eu não estou.

Ela me disse que eu precisava fazer aquilo que dizia para ela: “Você precisa criar o hábito”. E eu disse que antigamente eu tinha hábitos quando eu estava deprimido. Hoje não tenho hábitos quando estou deprimido e nem quando não estou.

O único hábito que eu não perdi foi o de reclamar que não consigo mais escrever, pareço uma daquelas velhas mal-comidas que olham tudo da janela para praguejar depois o dia inteiro. Só que velhas mal-comidas são mal-comidas e eu sou bem-comido quando estou deprimido e quando não estou também.

Mas se tem uma coisa que não mudou nem um pouco é que antigamente eu não sabia terminar os meus textos quando estava deprimido e hoje não sei terminar os meus textos quando estou deprimido e nem quando não estou.

terça-feira, maio 27, 2008

Incertezas

E o que se faz da tristeza implacável que se abate sobre o peito e abraça-nos com tão extrema fúria, calor e paixão que o ar nos falta longamente, fazendo-nos por vezes duvidar da consciência que ainda nos resta. O cansaço segue e o silêncio observa enquanto a cabeça repete as palavras alheias e o remorso de escolhas incertas rói a carne lentamente.

segunda-feira, março 03, 2008

Tudo Sobre Eu ou Você

Você pode falar sobre o que não compreende?
Sobre aquilo que está além da íris, oculto por camadas de pele, carne, ossos, sentimentos e pensamentos?
Ou cantar as gestas de uma existência que gostaria de significar algo além de sua mera essência?
Alguma vez você já fez algo tão significativo que o bem gerado a partir de suas ações redimisse a culpa de uma existência desperdiçada?

sábado, março 01, 2008

Equilíbrio, Razão e Sentimento

Amanhece mais uma vez. Acordo com os sons que chegam pela janela até o meu quarto onde o calor de um pequeno felino faz meus pés suarem. Ouço o barulho de pessoas caminhando na rua, indo de um lugar a outro sem propósito aparente, sem significado. Levando vidas acidentais de quem ninguém irá lembrar, vidas medíocres que se repetirão à exaustão até mesmo quando não forem mais humanas.

Um velho sentimento bate à porta, não tenho vontade de falar com ninguém ou comer, como ocorre tão freqüentemente em dias frios e chuvosos que também podem ser quentes e secos. Sinto raiva de mim, porque a explicação para a raiva não me escapa tão fácil quanto à explicação para aquilo que sinto. Às vezes a lógica é o cianureto dos sentimentos, às vezes o contrário.

Sigo a rotina. Levanto-me, me visto, me lavo e nem sei que dia é hoje. Mastigo um belo doce de goiaba caseiro (que é a sensação do momento para aqueles que ainda sentem o gosto) perseguindo algum sentimento com a vontade de quem se agarra à vida que lhe escapa. Eu faria inveja a uma anêmona se anêmonas sentissem inveja. Converso pouco e as minhas palavras se atiram vazias para as pessoas sem talvez passarem despercebidas.

E assim que tenho a oportunidade eu me sento e escrevo. Espremo todo o significado que tenho dentro de mim para uma folha de papel, me sufocando mais a cada palavra que escrevo com a minha inevitável dificuldade em equilibrar razão e sentimento. Meu corpo estremece e se curva com o esforço para o papel, as letras diminuem e se entortam. Subitamente o telefone toca e me interrompe com um grande susto. O coração pulsa rápido e com força, os pensamentos anuviam-se, a mão se recusa a obedecer e impõe ao papel os seus próprios pensamentos. O corpo trai, cede. Troco letras, troco palavras, nublo tudo com olhos que se fecham colocando o mundo que não entendo em uma perspectiva bizarra, o mundo cão que ensurdece e colapsa e então quando o vejo amanhece mais uma vez.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Mooo??? A primeira estampa do ano

Mooo??? - Threadless, Best T-shirts Ever

Nos próximos dias abrirá para votação, entrem e confiram.
Estou ansioso pelos votos e comentários!

[]'s!