segunda-feira, dezembro 19, 2005

Desculpem-me

Após passar uma semana revisando textos de livros didáticos em uma escola infantil venho oficialmente por meio dessa pedir perdão a todas as pessoas que forma de alguma forma ou em algum momento foram responsáveis por mim (e também a algumas das que não foram) ou que de algum modo passaram pela tragédia de ter que me aturar quando pivete. E informo também que agora, ainda mais do que antes, não é de minha intenção perpetrar a vilania de estender o legado de nossa espécie e conseqüentemente submeter alguém à barbárie de ter que cuidar de uma criança. E tenho dito.

Ps.: Aproveito também o embalo para registrar o meu repúdio aos líderes mundiais pelo fato de que o Pacto de Versalles não pronuncie palavra alguma sobre um ato tão reprovável.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Frase Red Dragon da Semana

"Já fui bom nisso..."

Se é que ainda existem dragões...
E o mais engraçado é que essa frase pode ser irônicamente aplicada a qualquer coisa.

sexta-feira, novembro 18, 2005

sexta-feira, novembro 04, 2005

Liberta meu pensamento

Para variar um pouco o nada, esta semana eu tenho a impressão de ter acordado de um torpor de anos, não sei o que me deu e nem se já acabou ou se está por aí ainda. Pode ser apenas uma daquelas piscadas que damos durante a noite enquanto dormimos e das quais muito provavelmente ao acordar não nos recordemos. Mas está aqui agora, um lapso de consciência. Um lapso talvez muito produtivo até (assim espero)... Para variar surgiu do nada, mas acho que não foi bem do nada, foi do vazio, daquela dissonância em mim mesmo que eu odeio, aquela que faz eu me sentir transparente, fútil, inútil. Não sei, acho que ontem por algum instante lendo, ainda que apressadamente, uma HQ que nem valia à pena, perdido na tarde enrolado em um edredom sobre o sofá da sala de alguém de quem gosto muito e que agora sinto remorso de ter atrapalhado, ontem, consegui encontrar um pouco da paz que me foi há muito roubada. Não por nada, apenas porque foi um momento de privacidade da minha alma, um momento aonde me senti inócuo, um momento que pôde me mostrar a ausência e determinar a diferença entre a ânsia de ter que fazer tudo e a meditação inconsciente. É isso, um texto provavelmente confuso e mais do que provavelmente vazio de significado para a maioria das pessoas, perdido entre toneladas de terabites de páginas e arquivos, mas que para mim, ao menos agora, parece significar muito. Como já dizia aquele sábio pintor, a arte não está em saber aonde colocar a tinta na tela, mas em saber aonde não colocá-la. Agora torçamos para que este lapso de consciência, que é na verdade um lapso de inconsciência, porque rompeu a não-existência que a minha mente anda cruzando, possa rasgar o véu diáfano da não-existência que enveredou sobre o meu ser ultimamente fazendo de mim apenas uma casca.

terça-feira, novembro 01, 2005

Redshift*

O sonhar está lentamente voltando a ser uma parte lúgubre do inconsciente de onde saiu... e desta vez talvez volte, talvez por um longo tempo, talvez para sempre. Estou cansando de escrever no vento, estou cansado... Foram três anos escrevendo aqui e nas sombras da canção, o que por vezes me fez feliz e por vezes me fez triste, mas nunca me fez tão solitário quanto tem feito agora. Escrever, antes, era um sonho, depois tornou-se uma brincadeira, um elogio a um modo de pensar e a todas as pessoas que partilhavam dos meus pensamentos. Hoje talvez seja a placa de “bem-vindo” encontrada à porta de algum gueto ou a placa de “aberta a temporada de caça” sobre a toca da raposa. Amanhã talvez seja um pesadelo. A colméia, chamada humanidade, não admite sujeitos diferentes e diferente eu sou, intelectuais estão mais uma vez sendo vistos com maus olhos e logo veremos a fogueira arder. Que seja... A verdade? A verdade talvez seja que o meu Ego não suporta os golpes dos últimos dias, maldita mania de querer ser um herói que só me levou a descobrir que o Ego é um ser perigoso. Só sei que nada sei. E que imbecil pretenso eu fui querendo saber o mundo. Talvez seja a hora de ser um pouco mais inteligente e parar enquanto ainda há tempo.


* Redshift - http://www.on.br/glossario/alfabeto/d/d.html#deslocamentoparaovermelho

quarta-feira, outubro 19, 2005

Mais devaneios

Ando me sentindo perdido nos últimos dias. Bombardeado com várias idéias me sinto como o chão da floresta equatorial, cheio de sementes à espera de um raio de sol para me iluminar, aquecer e fazer florir novas idéias. É uma sensação bastante estranha. Fico procurando motivos que a justifiquem enquanto assisto indignado aos reclames do referendo sobre a comercialização de armas, o que me entristece é que as pessoas esqueçam-se de que gatilhos não disparam sem dedos e dedos não se movam à revelia. Assunto chato e cansativo, mas no que me diz respeito, acho que prefiro votar por uma morte rápida embalada pelo cheiro da pólvora que pela agonia de 13 ou 18 facadas. Juro que eu queria ter o argumento final, juro que gostaria de ter uma resposta definitiva para iluminar à todos nós, párias, descamizados e famintos que continuaremos sem ter dinheiro para comprar arroz, quanto mais um trinta e oito. Mas quem sabe um daqueles tios gordinhos que ocupam os assentos do parlamento não tenham uma boa idéia e, tal qual fizeram impedindo a reprovação dos alunos nos colégios, não nos proíbam de morrer? Ninguém mais morreria, os donos de fábricas de armas poderiam continuar vendendo seus produtos e todos seriamos felizes para todo o sempre. Não importa... Já estamos todos mortos. Morremos quando nos fora negado o esclarecimento, morremos a cada dia um pouco quando nos impedem de dar cabo às trevas de nossa ignorância, morremos porque a despeito do que digam a informação é para todos... todos aqueles que possam pagar por ela. Para os outros resta apenas o marketing.

Ah... Cansei-me... Disse que não ia falar sobre isso e acabei dando com a língua nos dentes... Fico feliz apenas porque só consegui escrever quando não tentei fazê-lo. E talvez seja isso, talvez a minha criatividade esteja empedrada por causa disso. Ou talvez não. A única coisa que sei é que no último mês ganhei uma maravilhosa amiga sereia e ontem ela me fez a pergunta derradeira. Disse-me ela:

_O que você perdeu?

E atônito eu respondi que não sabia. Não sabia e continuo não sabendo, mas perdido está... é um fato.

É isso meus amores, agora tenho lição-de-casa para fazer, então me vou. Peço que me desculpem pela ausência prolongada e por não voltar aqui cheio de histórias divertidas sobre as minhas “férias” na Oktoberfest. Mas por hora está difícil e eu ando bastante preocupado com o meu selvagem companheiro Nihil...

sexta-feira, setembro 30, 2005

Perda de Tempo

2:02am, vagam pela casa eu e os espectros da noite. A luz vinda do quarto no final do corredor espalha pelo resto da casa uma tênue iluminação que tinge com tons de amarelo as cores azuladas da visão noturna. Sigo o corredor a passos calmos, alcanço o quarto com os cabelos molhados começando a formar cachos e, numa retrospectiva de falas perdidas por outrem ao longo do dia, penso quanto tempo perdemos ao longo da vida com preocupações fúteis e assuntos menores sem nunca se dar conta disso. Nesse momento roubo uma hora do meu sono já atrasado pela espera de um visitante ausente para redigir essas parcas linhas. Redijo-as para não perder o costume, redijo-as para cumprir uma promessa feita a mim mesmo, redijo como se esta fosse uma carta endereçada ao meu nome. Enfim, escrevo por motivos diversos, mas retornando ao assunto, perdemos tempo com muitas coisas que, de fato, não interessam. É isso, foi só uma constatação, não pretendo perder muito mais sono para explicar o que deve ou não interessar. O fato é que algumas das coisas que quero estão estagnadas a dias por conta das falsas prioridades a que a vida moderna nos impõe.

sábado, setembro 17, 2005

"Home is where your heart lies, they say."

Não sei quem pronunciou essa frase pela primeira vez, nem quem foram os primeiros a propagá-la, mas gosto de pensar, como decerto deve ser, que esta frase surgiu em meio àqueles homens bravios que singraram o azul desde o princípio das coisas. Pode ser apenas ilusão minha, mas essa é parte de minha natureza de pretenso contador de histórias e tecelão de sonhos. Assim, sonhem comigo. Sonhem porque é na ousadia dos homens que seguem em busca do lugar onde o céu toca o mar que mora a verdade. Sonhem porque embora só os sonhos possam ser assim tão belos, não é preciso fechar os olhos para viver pesadelos. Sejam grandes e audazes, mesmo que isso por vezes signifique arriscar o que lhes é mais caro, como tantos homens e mulheres o fizeram antes de nós. "Be bold - and mighty forces will come to your aid" - Basil King. Porque mesmo se estivermos à deriva, mesmo se tudo o mais der errado, o nosso lar continuará sendo o lugar aonde o nosso coração pertence.

terça-feira, setembro 06, 2005

Paradoxos

Tremeu diante do silêncio, pálido como um defunto em frente à tela azulada do computador. Era ali em seu quarto, mas poderia ser em qualquer necrotério aos sons dos pneus distantes atravessando as ruas molhadas pela chuva que passou. Chuva que também poderia ser ali, dentro de casa, dentro do quarto, debaixo de seus olhos e sobre o seu coração. Só compreende a solidão quem dela sofre. Porque só os solitários sabem o que é sentir o coração apertado, enrijecido pelo frio. Um frio que qualquer um poderia calar exceto eles mesmos. Ser só é como morar em uma casa sem paredes e ser açoitado pelo vento que devora as plantas e agride os corpos com pequenos fragmentos de areia. Desejou, ao menos uma vez na vida, compreender o segredo de não precisar de nada nem de ninguém. Por algum tempo talvez até o tenha compreendido, ou assim acreditava. O segredo das crianças com seus amigos imaginários, o segredo dos velhos que falam sozinhos. A noite avançava cada vez mais fria e ele amaldiçoava a expectativa e o sentimento desperto. Se ele transformara seu coração em pedra o que os outros tinham com isso? Não é o princípio de não sentir dor, o de não causá-la? Ao menos a si próprio... Deixem me então esquecer o que é o amor, porque não se sente falta de alguém a quem se desconhece ou de um lugar onde nunca se esteve.

terça-feira, agosto 30, 2005

Siriris

Os siriris dançam lá fora traçando elipses ao redor da lâmpada que ilumina parte do quintal. E eu que não sinto exatamente fascínio pelo frio fico feliz pelo dia quente que passou. Vou contar uma coisa, é que eu adoro verão. Sim eu adoro, mesmo sabendo que o inverno só acaba daqui a uns vinte e poucos dias, mesmo o dia tendo esse ar de artificialidade, mesmo estando tão abafado que eu mal consiga ouvir meus pensamentos tamanha enxaqueca que esse calor me trouxe. Os dias andam bons, repletos de conversas agradáveis com grandes amigos, o que tem me deixado muito feliz. Coisas de cancerianos...

segunda-feira, agosto 29, 2005

Às mais belas flores

Algumas coisas são mais surpreendentes do que deveriam. É estranho não reconhecer a beleza rara de uma flor. A delicadeza plácida e até um pouco vulgar das pétalas, o modo como elas se atam às sépalas, seus pistilos longos e delineados, o sabor intenso do néctar, o aroma exuberante, as cores vibrantes... Nenhuma flor é igual a outra. Não, cada botão é único em sua pequena existência e a cada florada novos botões abundam sem nunca se repetir.

Eu costumava comprar flores... Grandes gérberas alaranjadas e, às vezes, botões de rosas com suas aveludadas pétalas vermelhas. Foi a um longo tempo, se foi. Eu adorava a situação como um todo de ir até uma banca de flores e escolher lentamente o botão perfeito. De sentir a umidade vinda dos vasos e o cheiro das flores no ar, de ver o florista trabalhar acertando o comprimento do caule e limpando-o dos acúleos. De andar pela rua levando o botão solto e fresco e do olhar poético que as pessoas lançavam sobre mim. E quando chegava ao meu destino eu adorava assistir aos risos florescerem, encantadores, sinceros, profundos, inesquecíveis, únicos.

domingo, agosto 21, 2005

Vômito

Então eu tento fechar a minha cabeça para que as idéias não escapem, não fujam ou se misturem com as outras coisas ao meu redor. Como se todas as coisas no meu quarto fossem pintadas em tinta a óleo e a qualquer momento que eu toque ou olhe para qualquer coisa isso possa se misturar as minhas idéias. Não quero, ou melhor, não posso, não agora pelo menos. Tenho algo importante a pensar, a escrever. Digito olhando para o teclado para não ver absolutamente nada ao meu redor que possa me desconcentrar.
Tudo começou ontem à noite. Fui a uma festa de noivado muito legal de uma amiga minha da faculdade, que me arrependo de não ter conhecido antes, assim como a todas as pessoas com quem atualmente eu falo por lá. É como se depois de todos esses anos o curso tivesse separado o joio do trigo e agora eu possa encontrar pessoas que são como eu. Isso é adorável, embora não queira dizer necessariamente algo além disso. São pessoas como eu sou, nem melhores, nem piores do que as outras pessoas. Na vida carecemos ter pessoas diferentes assim como carecemos ter pessoas minimamente parecidas conosco. Mas às vezes o manto da igualdade esconde diferenças estarrecedoras. Enfim, o meu leitor que me perdoe o raciocínio tortuoso, é que quando passamos por um período de estiagem criativa, nós escritores, temos acessos nos quais vomitamos todas as idéias que nos vêm à mente, tudo o que pensamos, tudo o que sentimos; acessos que queremos, desejamos, precisamos grafar de qualquer modo. Para mim, hoje é um desses dias.
Como eu ia dizendo, ontem fui a essa festa em uma tradicional balada rock n’ roll paulistana. E sob a sensação hospitaleira da fraternidade não consegui evitar me sentir um pouco deslocado por estar entre várias pessoas que conheço a pouco tempo. O que mais uma vez me obriga a interromper para pedir desculpas, pois o fato de serem novos amigos não os diminui de modo algum. A admiração mútua, o tratamento afável que se estabelece entre todos nós é de todo respeitoso e sincero, o que me comove bastante a despeito do fel. O fel é apenas um desconforto fútil que sinto, semelhante a começar um livro pelo seu último capítulo. Como assistir ao final de uma peça identificando-se a um Hamlet cuja paixão se desconhece. É o grito agonizante de alguma sinapse esquizóide em meu cérebro.
Não sei se vocês compreendem o que tento falar, entendo que as sucessivas interrupções narrativas a que eu vos submeto evidênciam o tão pernicioso assunto. Eu falo sobre o medo. Maldito medo que me persegue noites a fio, sombra longilínea que se estende a partir dos meus pés. Queria entender quem me infundiu todo esse medo. Quem... Eu mesmo talvez, tendo me submetido a meia dúzia de relações espúrias que me fizeram apenas mal. Agora eu medro toda vez que recebo um olhar afetuoso, esperando um golpe de chave inglesa por cada sorriso. Não compreendo a mim mesmo. Tenho, às vezes alguns delírios de entendimento, pálidas idéias que não conseguem refletir a realidade. Realidade... E o que é a realidade senão um status mórbido criado por cada um de nós para convenientemente simular o meio e justificar aos nossos atos, a nós e aos nossos imensos umbigos.

terça-feira, agosto 16, 2005

Tum-tum

Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Os latidos dos cães ecoam noite adentro pela vizinhança.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Sem sono... de novo. Fico deitado observando as fotos antigas no mural do outro lado do quarto.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Faz tempo que não o organizo ou a qualquer outra coisa dentro do meu quarto. É como se ele houvesse parado no tempo há um ano, um ano e meio.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Viro para o outro lado e olho a parede. O sono não vem.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Fico olhando a textura da parede, não consigo dormir. Meu coração bate muito alto.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
A minha mente passa por um milhão de coisas sem se fixar em nenhuma, eu fico ouvindo o meu coração bater e bater e bater e me pergunto o que está errado.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Um pernilongo tenta se aproveitar da minha distração, eu logo ligo o veneno no quarto.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Fico com sede, levanto, vou até a cozinha, tomo um copo d’água e na volta vejo o relógio. Faz quase uma hora desde que me deitei e até agora nada, nem mesmo uma boa idéia para escrever. Acho que o tempo que eu tenho passado sozinho está começando a me afetar. Olho admirado para as últimas linhas e me surpreendo como um simples copo d’água faz as linhas correrem mais depressa.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Um gato de rua começa a miar no quintal e o meu cachorro acorda, os latidos deixam de ser apenas ecos; o pernilongo continua vivo em algum lugar.
Sinto que não consigo ter nas pessoas a mesma confiança de antes, não sei por que. Muitas coisas, a falta de escrúpulos da grande maioria que acha que você não nota, pessoas de quem gosto desaparecendo subitamente, opiniões duvidosas.
Silêncio.
Os carros pararam de passar, o gato se foi, meu cão voltou a dormir e os ecos quase cessaram. O meu coração? Parece estar batendo mais rápido e quieto, saudades de alguém que partiu há muito tempo.
As pontas dos meus dedos adormeceram, faltam seis minutos para as 3:00 e parece que a noite vai ser realmente longa.

terça-feira, agosto 09, 2005

Explosão criativa

Os canos secos desde muito tempo não viam água outra senão a da extensa umidade da parede. Um dia foram canos de sistema anti-incêndio outro dia cultivo de ferrugem. O teto baixo e o ar viciado não tornavam o lugar agradável, um lugar perdido, esquecido pelo tempo entre paredes de uma megalópole, abaixo de um prédio qualquer em uma rua qualquer em lugar nenhum. Poças d’água cobriam o chão de concreto criando um espelho perfeito do teto e das paredes cheias de brechas, refletindo um pouco da luz do céu e de uma grande nuvem branca perdida pelo lugar. Mais acima, o edifício abandonado tecia a sua viagem através das décadas, um bloco de cimento com paredes podres, tinta descamando, toneladas de umidade e mofo incrustado na cidade. Ele poderia estar absolutamente sozinho por todo esse tempo, mas ainda assim estava vivo. Comunidades de insetos, fungos, uma samambaia que morava em um buraco nos tijolos, onde um dia esteve fixada a calha, e agora, mais recentemente um homem que acabara de entrar. Ele fechou a porta atrás de si deixando a rua presa do lado de fora e começou a procurar o registro. Verificou se tudo estava em ordem. Removeu o pastoso calhamaço de papel formado pela correspondência velha enfiada por baixo da porta e começou a subir a escada até o andar de cima. Subiu, subiu, subiu os degraus gastos por centenas de pés que ali passaram parando apenas por um instante quando a nuvem cruzou com o sol a luz diminuiu por um instante. Voltou a subir pisando em duas traças que dialogavam amistosamente na curva de outra escada que contornava o prédio por dentro, atravessou uma cozinha vazia e deu com a porta que levava para a varanda exterior inchada pela ação da chuva. Forçou-a e abriu com alguma dificuldade. No exterior havia ainda mais uma escada íngreme que escalava o topo da construção, levando até uma sala extensa e desabitada. O tempo já havia virado, começava a garoar e as gotículas d’água dançavam pelo ar. Parou à porta já do lado de dentro da sala e observou o mundaréu de telhados e antenas de televisores. Ouviu o barulho dos carros que ainda conseguia chegar até ali, embora um pouco abafado, e fechou a porta como se houvesse uma nevasca do lado de fora. Na sala o chão de cimento liso adquiria tons róseos da luz de um filtro vermelho envelhecido preso à janela. Caminhou pela sala funcionalmente amorfa e tentou usar uma pia perdida por ali. Houve primeiro um som agudo e estertorante vindo da torneira, um pouco de vento, um silêncio e a reverberação de dezenas de canos de chumbo balançando, vibrando, agonizando e gritando com um silvo longo do vazio de anos. Era como ser atingido por uma extenuante dor de cabeça em um momento de gozo. E lá embaixo já vazando água pelas juntas o cano arrebentara...

quarta-feira, julho 27, 2005

He Wishes For The Cloths Of Heaven

He Wishes For The Cloths Of Heaven - William Butler Yeats (1865-1939)


Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet ;
Tread softly because you tread on my dreams.


O poema que eu mais amo no mundo...

segunda-feira, julho 25, 2005

E um novo dia virá...

O casarão legitimamente português quase do começo do século continuava a sua trajetória através do tempo. O sol brilhava, a tinta de suas paredes externas descascava e, gradualmente, perdia a cor. Era um dia bem quente para um inverno paulistano e nenhuma nuvem cobria o céu que era surpreendentemente azul de ponta a ponta. Todas as coisas estavam cobertas por aquele brilho bem claro da luz da manhã. A casa quente estava toda aberta como dos derradeiros dias de verão. Eram 9:00 horas.
Ele havia acabado de acordar. A luz invadia o quarto pelos frisos da janela fechada. Ele esfregava os pés um no outro por debaixo do lençol e com um leve sorriso no rosto pensava em um café bem ao estilo dos comerciais de margarina. Não precisava de paredes e roupas brancas ou da família toda reunida na mesa, só queria um pão na chapa bem quente e cheio de manteiga, sim, manteiga de verdade, nada de gorduras vegetais e aditivos químicos bizarros, apenas as coisas como elas deveriam ser naturalmente, sem complicações adicionais. A vida pura e simples como ela pode ser... Um pulo do beliche, alguns instantes procurando por uma camiseta no armário e um dia novo pela frente. Atravessou um corredor e a sala vazia parando apenas para ligar o rádio e constatar que estava sozinho. O som alto ecoou pela casa e o rock clássico dos anos 80 realçou seu entusiasmo fazendo-o lembrar das antigas fitas K-7 que suas irmãs levavam para viajar quando criança. Por um instante o sol brilhou mais forte e uma brisa iniciou um farfalhar de folhas, o céu reverberou mais azul e o verde das folhas tornou-se infinitamente mais verde. Alguns instantes em frente ao fogão, um copo de leite e estava pronto o seu café alto-astral. Juntou os pães sobre um prato, pegou todos os utensílios de que precisaria e com as mãos cheias atravessou o corredor de volta à sala onde o lilás de uma orquídea sobre a mesa em seu centro invadiu os seus sentidos. Naquele breve instante em que ele se fez confuso, mãos delicadas cobriram-lhe os olhos e o cheiro dela preencheu seus pulmões. Seu coração disparou e a surpresa se fez completa.

segunda-feira, julho 18, 2005

Registro Geral número...

Estou com algumas idéias bem legais para escrever, mas descobri que às vezes inspiração não é o bastante. Não sei, ando me estranhando. Ando triste, preocupado com zilhões de coisas que talvez não sejam nada, mas o que acho estranho é estar curiosamente sereno. Não o tempo todo, mas quando necessário ao menos. É verdade, estou até espantado, de repente é como se não fosse mais eu... Tem horas que você deixa de tentar ser para ser simplesmente ou ser apenas. O segundo é o meu caso. Será que a serenidade vem da falta de expectativas? Será que isso é bom? Será que não? Odeio quando os dias passam a ser apenas uma seqüência de tempo vazia, sem significado.

segunda-feira, julho 11, 2005

Pesadelo

Pare e esvazie sua mente.
Feixe a porta que separa a sua consciência do mundo exterior deixando todos os sons do lado de fora.
Respire devagar e profundamente por três vezes.
E só então leia.

Imagine o terror de acordar de um pesadelo que te assombrou a noite toda. Uma noite azul, escura, quase negra e fria... Absolutamente fria. A respiração ofegante, o suor frio a escorrer salgado sobre a face depositando-se em suas sobrancelhas a ponto de fazê-las pesar mais que o mundo. Um pesadelo que te fizeste correr o céu durante a noite toda, dilacerando teus pés descalços em um chão metálico de pontas de agulhas partidas, molhadas e frias raspando teus ossos. Uma corrida interminável e tão agitada quando o desespero dos últimos grãos de areia de uma ampulheta tentando não cair pelo buraco. Imagine o cansaço queimando os pulmões como se eles estivessem repletos de ácido invadir o teu corpo, aquele mesmo cansaço que surge diante da exaustão, que salga a boca por baixo da língua e que traz à tona a vertigem. Imagine o céu girando em falso sob os teus pés e deixando-te imóvel na estratosfera enquanto chega a aurora. Os primeiros raios de sol despontando no horizonte revelando a silhueta distante daquilo que tu persegues, raios que irão queimar-te antes que o alcance. Raios estes a mostrar que tu passaste a noite toda correndo senão atrás de você mesmo como o cão corre bobo atrás do próprio rabo. Imagine acordar, sentar na cama gelado enquanto alguém se aproxima a passos lentos, assistir inerte e cansado a esse alguém se declinar aos teus pés e ser flagrado por um tênue facho de luz no instante em que se abaixa revelando que é você. E que seja o que for, pesadelo ou realidade, ainda não acabou.

sexta-feira, julho 08, 2005

Animaniacs

Tá, os meus textos andam péssimos comparados com os de novembro/desembro de 2004. Eu preciso sentar e escrever com calma, mas enquanto isso não acontece olha só o que a gente encontra depois de uma inocente busca por fotos dos "Animaniacs" no google:

http://www.gandalf23.com/LoAPictures1.html

O destaque, é lógico, é para a foto intitulada Animaniacs... mas a dos Scuds também é ótima.

Divirtam-se!

quinta-feira, julho 07, 2005

MAC

Dizem que em nenhum outro lugar faz o clima de São Paulo... Talvez em Londres, mas acho que não ou então alguém já teria dito isso, talvez no inferno... Hora garoa e esfria, hora chove e esfria, hora simplesmente esfria. Enfim, está um frio dos diabos. Estão dizendo que hoje irá fazer 3 graus de madrugada e quando era 15:00 eu já estava na rua congelando. Precisei ir até a faculdade buscar um documento, feliz da vida por atravessar a cidade com esse frio todo. Não reclamo por ter de sair de casa, foi bom. Já estou cansado dessa vida de tartaruga de aquário. E foi tão bom que eu até aproveitei para corrigir uma falha de quatro anos de idade. Fui ao MAC ver a exposição do acervo. Da minha parte posso dizer que me diverti muito, da parte da minha companhia... que companhia? Os guardas do museu também se divertiram bastante. Com a exceção de meia dúzia de pessoas sentadas em um canto conversando, de um senhor estrangeiro em uma cadeira de rodas e de uma garota tímida e lindamente vestida com uma jaqueta vermelha de veludo, uma saia um pouco abaixo do joelho e uma sandália combinando, tudo em um estilo meio anos 60, eles não devem ter visto mais ninguém o dia todo. Deve até ter sido o dia de sorte de um deles, tivemos uma conversa de uns 10 minutos que eu devo dizer foi a mais agradável conversa que eu tive nos últimos dias. Nunca vi um segurança tão animado, caloroso e simpático. Fazia muito tempo que eu queria ir a uma exposição, pena que o MAC seja um dos poucos museus que não se paga para entrar.