sexta-feira, novembro 18, 2005
Link - Coelhinho cantor
http://www.phrozenflame.com/flashclip/252
divirtam-se
sexta-feira, novembro 04, 2005
Liberta meu pensamento
Para variar um pouco o nada, esta semana eu tenho a impressão de ter acordado de um torpor de anos, não sei o que me deu e nem se já acabou ou se está por aí ainda. Pode ser apenas uma daquelas piscadas que damos durante a noite enquanto dormimos e das quais muito provavelmente ao acordar não nos recordemos. Mas está aqui agora, um lapso de consciência. Um lapso talvez muito produtivo até (assim espero)... Para variar surgiu do nada, mas acho que não foi bem do nada, foi do vazio, daquela dissonância em mim mesmo que eu odeio, aquela que faz eu me sentir transparente, fútil, inútil. Não sei, acho que ontem por algum instante lendo, ainda que apressadamente, uma HQ que nem valia à pena, perdido na tarde enrolado em um edredom sobre o sofá da sala de alguém de quem gosto muito e que agora sinto remorso de ter atrapalhado, ontem, consegui encontrar um pouco da paz que me foi há muito roubada. Não por nada, apenas porque foi um momento de privacidade da minha alma, um momento aonde me senti inócuo, um momento que pôde me mostrar a ausência e determinar a diferença entre a ânsia de ter que fazer tudo e a meditação inconsciente. É isso, um texto provavelmente confuso e mais do que provavelmente vazio de significado para a maioria das pessoas, perdido entre toneladas de terabites de páginas e arquivos, mas que para mim, ao menos agora, parece significar muito. Como já dizia aquele sábio pintor, a arte não está em saber aonde colocar a tinta na tela, mas em saber aonde não colocá-la. Agora torçamos para que este lapso de consciência, que é na verdade um lapso de inconsciência, porque rompeu a não-existência que a minha mente anda cruzando, possa rasgar o véu diáfano da não-existência que enveredou sobre o meu ser ultimamente fazendo de mim apenas uma casca.
terça-feira, novembro 01, 2005
Redshift*
O sonhar está lentamente voltando a ser uma parte lúgubre do inconsciente de onde saiu... e desta vez talvez volte, talvez por um longo tempo, talvez para sempre. Estou cansando de escrever no vento, estou cansado... Foram três anos escrevendo aqui e nas sombras da canção, o que por vezes me fez feliz e por vezes me fez triste, mas nunca me fez tão solitário quanto tem feito agora. Escrever, antes, era um sonho, depois tornou-se uma brincadeira, um elogio a um modo de pensar e a todas as pessoas que partilhavam dos meus pensamentos. Hoje talvez seja a placa de “bem-vindo” encontrada à porta de algum gueto ou a placa de “aberta a temporada de caça” sobre a toca da raposa. Amanhã talvez seja um pesadelo. A colméia, chamada humanidade, não admite sujeitos diferentes e diferente eu sou, intelectuais estão mais uma vez sendo vistos com maus olhos e logo veremos a fogueira arder. Que seja... A verdade? A verdade talvez seja que o meu Ego não suporta os golpes dos últimos dias, maldita mania de querer ser um herói que só me levou a descobrir que o Ego é um ser perigoso. Só sei que nada sei. E que imbecil pretenso eu fui querendo saber o mundo. Talvez seja a hora de ser um pouco mais inteligente e parar enquanto ainda há tempo.
* Redshift - http://www.on.br/glossario/alfabeto/d/d.html#deslocamentoparaovermelho
quarta-feira, outubro 19, 2005
Mais devaneios
Ando me sentindo perdido nos últimos dias. Bombardeado com várias idéias me sinto como o chão da floresta equatorial, cheio de sementes à espera de um raio de sol para me iluminar, aquecer e fazer florir novas idéias. É uma sensação bastante estranha. Fico procurando motivos que a justifiquem enquanto assisto indignado aos reclames do referendo sobre a comercialização de armas, o que me entristece é que as pessoas esqueçam-se de que gatilhos não disparam sem dedos e dedos não se movam à revelia. Assunto chato e cansativo, mas no que me diz respeito, acho que prefiro votar por uma morte rápida embalada pelo cheiro da pólvora que pela agonia de 13 ou 18 facadas. Juro que eu queria ter o argumento final, juro que gostaria de ter uma resposta definitiva para iluminar à todos nós, párias, descamizados e famintos que continuaremos sem ter dinheiro para comprar arroz, quanto mais um trinta e oito. Mas quem sabe um daqueles tios gordinhos que ocupam os assentos do parlamento não tenham uma boa idéia e, tal qual fizeram impedindo a reprovação dos alunos nos colégios, não nos proíbam de morrer? Ninguém mais morreria, os donos de fábricas de armas poderiam continuar vendendo seus produtos e todos seriamos felizes para todo o sempre. Não importa... Já estamos todos mortos. Morremos quando nos fora negado o esclarecimento, morremos a cada dia um pouco quando nos impedem de dar cabo às trevas de nossa ignorância, morremos porque a despeito do que digam a informação é para todos... todos aqueles que possam pagar por ela. Para os outros resta apenas o marketing.
Ah... Cansei-me... Disse que não ia falar sobre isso e acabei dando com a língua nos dentes... Fico feliz apenas porque só consegui escrever quando não tentei fazê-lo. E talvez seja isso, talvez a minha criatividade esteja empedrada por causa disso. Ou talvez não. A única coisa que sei é que no último mês ganhei uma maravilhosa amiga sereia e ontem ela me fez a pergunta derradeira. Disse-me ela:
_O que você perdeu?
E atônito eu respondi que não sabia. Não sabia e continuo não sabendo, mas perdido está... é um fato.
É isso meus amores, agora tenho lição-de-casa para fazer, então me vou. Peço que me desculpem pela ausência prolongada e por não voltar aqui cheio de histórias divertidas sobre as minhas “férias” na Oktoberfest. Mas por hora está difícil e eu ando bastante preocupado com o meu selvagem companheiro Nihil...
sexta-feira, setembro 30, 2005
Perda de Tempo
2:02am, vagam pela casa eu e os espectros da noite. A luz vinda do quarto no final do corredor espalha pelo resto da casa uma tênue iluminação que tinge com tons de amarelo as cores azuladas da visão noturna. Sigo o corredor a passos calmos, alcanço o quarto com os cabelos molhados começando a formar cachos e, numa retrospectiva de falas perdidas por outrem ao longo do dia, penso quanto tempo perdemos ao longo da vida com preocupações fúteis e assuntos menores sem nunca se dar conta disso. Nesse momento roubo uma hora do meu sono já atrasado pela espera de um visitante ausente para redigir essas parcas linhas. Redijo-as para não perder o costume, redijo-as para cumprir uma promessa feita a mim mesmo, redijo como se esta fosse uma carta endereçada ao meu nome. Enfim, escrevo por motivos diversos, mas retornando ao assunto, perdemos tempo com muitas coisas que, de fato, não interessam. É isso, foi só uma constatação, não pretendo perder muito mais sono para explicar o que deve ou não interessar. O fato é que algumas das coisas que quero estão estagnadas a dias por conta das falsas prioridades a que a vida moderna nos impõe.
sábado, setembro 17, 2005
"Home is where your heart lies, they say."
Não sei quem pronunciou essa frase pela primeira vez, nem quem foram os primeiros a propagá-la, mas gosto de pensar, como decerto deve ser, que esta frase surgiu em meio àqueles homens bravios que singraram o azul desde o princípio das coisas. Pode ser apenas ilusão minha, mas essa é parte de minha natureza de pretenso contador de histórias e tecelão de sonhos. Assim, sonhem comigo. Sonhem porque é na ousadia dos homens que seguem em busca do lugar onde o céu toca o mar que mora a verdade. Sonhem porque embora só os sonhos possam ser assim tão belos, não é preciso fechar os olhos para viver pesadelos. Sejam grandes e audazes, mesmo que isso por vezes signifique arriscar o que lhes é mais caro, como tantos homens e mulheres o fizeram antes de nós. "Be bold - and mighty forces will come to your aid" - Basil King. Porque mesmo se estivermos à deriva, mesmo se tudo o mais der errado, o nosso lar continuará sendo o lugar aonde o nosso coração pertence.
terça-feira, setembro 06, 2005
Paradoxos
terça-feira, agosto 30, 2005
Siriris
segunda-feira, agosto 29, 2005
Às mais belas flores
Algumas coisas são mais surpreendentes do que deveriam. É estranho não reconhecer a beleza rara de uma flor. A delicadeza plácida e até um pouco vulgar das pétalas, o modo como elas se atam às sépalas, seus pistilos longos e delineados, o sabor intenso do néctar, o aroma exuberante, as cores vibrantes... Nenhuma flor é igual a outra. Não, cada botão é único em sua pequena existência e a cada florada novos botões abundam sem nunca se repetir.
Eu costumava comprar flores... Grandes gérberas alaranjadas e, às vezes, botões de rosas com suas aveludadas pétalas vermelhas. Foi a um longo tempo, se foi. Eu adorava a situação como um todo de ir até uma banca de flores e escolher lentamente o botão perfeito. De sentir a umidade vinda dos vasos e o cheiro das flores no ar, de ver o florista trabalhar acertando o comprimento do caule e limpando-o dos acúleos. De andar pela rua levando o botão solto e fresco e do olhar poético que as pessoas lançavam sobre mim. E quando chegava ao meu destino eu adorava assistir aos risos florescerem, encantadores, sinceros, profundos, inesquecíveis, únicos.
domingo, agosto 21, 2005
Vômito
Tudo começou ontem à noite. Fui a uma festa de noivado muito legal de uma amiga minha da faculdade, que me arrependo de não ter conhecido antes, assim como a todas as pessoas com quem atualmente eu falo por lá. É como se depois de todos esses anos o curso tivesse separado o joio do trigo e agora eu possa encontrar pessoas que são como eu. Isso é adorável, embora não queira dizer necessariamente algo além disso. São pessoas como eu sou, nem melhores, nem piores do que as outras pessoas. Na vida carecemos ter pessoas diferentes assim como carecemos ter pessoas minimamente parecidas conosco. Mas às vezes o manto da igualdade esconde diferenças estarrecedoras. Enfim, o meu leitor que me perdoe o raciocínio tortuoso, é que quando passamos por um período de estiagem criativa, nós escritores, temos acessos nos quais vomitamos todas as idéias que nos vêm à mente, tudo o que pensamos, tudo o que sentimos; acessos que queremos, desejamos, precisamos grafar de qualquer modo. Para mim, hoje é um desses dias.
Como eu ia dizendo, ontem fui a essa festa em uma tradicional balada rock n’ roll paulistana. E sob a sensação hospitaleira da fraternidade não consegui evitar me sentir um pouco deslocado por estar entre várias pessoas que conheço a pouco tempo. O que mais uma vez me obriga a interromper para pedir desculpas, pois o fato de serem novos amigos não os diminui de modo algum. A admiração mútua, o tratamento afável que se estabelece entre todos nós é de todo respeitoso e sincero, o que me comove bastante a despeito do fel. O fel é apenas um desconforto fútil que sinto, semelhante a começar um livro pelo seu último capítulo. Como assistir ao final de uma peça identificando-se a um Hamlet cuja paixão se desconhece. É o grito agonizante de alguma sinapse esquizóide em meu cérebro.
Não sei se vocês compreendem o que tento falar, entendo que as sucessivas interrupções narrativas a que eu vos submeto evidênciam o tão pernicioso assunto. Eu falo sobre o medo. Maldito medo que me persegue noites a fio, sombra longilínea que se estende a partir dos meus pés. Queria entender quem me infundiu todo esse medo. Quem... Eu mesmo talvez, tendo me submetido a meia dúzia de relações espúrias que me fizeram apenas mal. Agora eu medro toda vez que recebo um olhar afetuoso, esperando um golpe de chave inglesa por cada sorriso. Não compreendo a mim mesmo. Tenho, às vezes alguns delírios de entendimento, pálidas idéias que não conseguem refletir a realidade. Realidade... E o que é a realidade senão um status mórbido criado por cada um de nós para convenientemente simular o meio e justificar aos nossos atos, a nós e aos nossos imensos umbigos.
terça-feira, agosto 16, 2005
Tum-tum
Os latidos dos cães ecoam noite adentro pela vizinhança.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Sem sono... de novo. Fico deitado observando as fotos antigas no mural do outro lado do quarto.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Faz tempo que não o organizo ou a qualquer outra coisa dentro do meu quarto. É como se ele houvesse parado no tempo há um ano, um ano e meio.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Viro para o outro lado e olho a parede. O sono não vem.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Fico olhando a textura da parede, não consigo dormir. Meu coração bate muito alto.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
A minha mente passa por um milhão de coisas sem se fixar em nenhuma, eu fico ouvindo o meu coração bater e bater e bater e me pergunto o que está errado.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Um pernilongo tenta se aproveitar da minha distração, eu logo ligo o veneno no quarto.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Fico com sede, levanto, vou até a cozinha, tomo um copo d’água e na volta vejo o relógio. Faz quase uma hora desde que me deitei e até agora nada, nem mesmo uma boa idéia para escrever. Acho que o tempo que eu tenho passado sozinho está começando a me afetar. Olho admirado para as últimas linhas e me surpreendo como um simples copo d’água faz as linhas correrem mais depressa.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum.
Um gato de rua começa a miar no quintal e o meu cachorro acorda, os latidos deixam de ser apenas ecos; o pernilongo continua vivo em algum lugar.
Sinto que não consigo ter nas pessoas a mesma confiança de antes, não sei por que. Muitas coisas, a falta de escrúpulos da grande maioria que acha que você não nota, pessoas de quem gosto desaparecendo subitamente, opiniões duvidosas.
Silêncio.
Os carros pararam de passar, o gato se foi, meu cão voltou a dormir e os ecos quase cessaram. O meu coração? Parece estar batendo mais rápido e quieto, saudades de alguém que partiu há muito tempo.
As pontas dos meus dedos adormeceram, faltam seis minutos para as 3:00 e parece que a noite vai ser realmente longa.
terça-feira, agosto 09, 2005
Explosão criativa
quarta-feira, julho 27, 2005
He Wishes For The Cloths Of Heaven
Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet ;
Tread softly because you tread on my dreams.
O poema que eu mais amo no mundo...
segunda-feira, julho 25, 2005
E um novo dia virá...
Ele havia acabado de acordar. A luz invadia o quarto pelos frisos da janela fechada. Ele esfregava os pés um no outro por debaixo do lençol e com um leve sorriso no rosto pensava em um café bem ao estilo dos comerciais de margarina. Não precisava de paredes e roupas brancas ou da família toda reunida na mesa, só queria um pão na chapa bem quente e cheio de manteiga, sim, manteiga de verdade, nada de gorduras vegetais e aditivos químicos bizarros, apenas as coisas como elas deveriam ser naturalmente, sem complicações adicionais. A vida pura e simples como ela pode ser... Um pulo do beliche, alguns instantes procurando por uma camiseta no armário e um dia novo pela frente. Atravessou um corredor e a sala vazia parando apenas para ligar o rádio e constatar que estava sozinho. O som alto ecoou pela casa e o rock clássico dos anos 80 realçou seu entusiasmo fazendo-o lembrar das antigas fitas K-7 que suas irmãs levavam para viajar quando criança. Por um instante o sol brilhou mais forte e uma brisa iniciou um farfalhar de folhas, o céu reverberou mais azul e o verde das folhas tornou-se infinitamente mais verde. Alguns instantes em frente ao fogão, um copo de leite e estava pronto o seu café alto-astral. Juntou os pães sobre um prato, pegou todos os utensílios de que precisaria e com as mãos cheias atravessou o corredor de volta à sala onde o lilás de uma orquídea sobre a mesa em seu centro invadiu os seus sentidos. Naquele breve instante em que ele se fez confuso, mãos delicadas cobriram-lhe os olhos e o cheiro dela preencheu seus pulmões. Seu coração disparou e a surpresa se fez completa.
segunda-feira, julho 18, 2005
Registro Geral número...
segunda-feira, julho 11, 2005
Pesadelo
Feixe a porta que separa a sua consciência do mundo exterior deixando todos os sons do lado de fora.
Respire devagar e profundamente por três vezes.
E só então leia.
Imagine o terror de acordar de um pesadelo que te assombrou a noite toda. Uma noite azul, escura, quase negra e fria... Absolutamente fria. A respiração ofegante, o suor frio a escorrer salgado sobre a face depositando-se em suas sobrancelhas a ponto de fazê-las pesar mais que o mundo. Um pesadelo que te fizeste correr o céu durante a noite toda, dilacerando teus pés descalços em um chão metálico de pontas de agulhas partidas, molhadas e frias raspando teus ossos. Uma corrida interminável e tão agitada quando o desespero dos últimos grãos de areia de uma ampulheta tentando não cair pelo buraco. Imagine o cansaço queimando os pulmões como se eles estivessem repletos de ácido invadir o teu corpo, aquele mesmo cansaço que surge diante da exaustão, que salga a boca por baixo da língua e que traz à tona a vertigem. Imagine o céu girando em falso sob os teus pés e deixando-te imóvel na estratosfera enquanto chega a aurora. Os primeiros raios de sol despontando no horizonte revelando a silhueta distante daquilo que tu persegues, raios que irão queimar-te antes que o alcance. Raios estes a mostrar que tu passaste a noite toda correndo senão atrás de você mesmo como o cão corre bobo atrás do próprio rabo. Imagine acordar, sentar na cama gelado enquanto alguém se aproxima a passos lentos, assistir inerte e cansado a esse alguém se declinar aos teus pés e ser flagrado por um tênue facho de luz no instante em que se abaixa revelando que é você. E que seja o que for, pesadelo ou realidade, ainda não acabou.
sexta-feira, julho 08, 2005
Animaniacs
http://www.gandalf23.com/LoAPictures1.html
O destaque, é lógico, é para a foto intitulada Animaniacs... mas a dos Scuds também é ótima.
Divirtam-se!
quinta-feira, julho 07, 2005
MAC
quinta-feira, junho 30, 2005
Análise político-sintática
Estava eu tranqüilamente almoçando e assistindo ao jornal, um dia desses na semana passada e veio a estarrecedora notícia: O site do partido do presidente (que todos sabemos trata-se de uma organização pública e governamental) acusava a oposição de golpista. Estava armado o escândalo, a mídia logo começou a apurar aos fatos e a entrevistar alarmados representantes dos partidos de oposição no planalto. O primeiro representante logo disse: “É sabido que nosso partido nunca participou do golpe neste país, para tanto, basta apenas observar a história. Sempre fomos contra o golpe!”. O representante do segundo partido logo esbravejou: “Não sabemos de golpe nenhum, se o governo afirma que somos golpistas o governo deve mostrar as provas!”. O representante do terceiro partido pronunciou-se com toda a autoridade: “Golpe? Queremos saber a qual golpe que o governo se refere! O governo precisa dizer de qual golpe está falando”.
Sabe, na qualidade de estudante de língua portuguesa me reservo o direito de continuar odiando sintaxe, mas eu ainda adoro a parte sobre as ambigüidades!
sábado, junho 25, 2005
Vermelha
Perfeitamente vermelha escura.
Deslizara pelo branco aveludado, lentamente, ora atrasada pelos pequenos pelos, ora correndo mais de pressa até a borda onde se debruçara com um brilho vivo, intenso, furtivo, balançara, pulsara, pendera e caíra. Viajando por centenas de longos instantes pelo ar, perdida, redonda e vermelha.
O tempo parara. Algumas vezes pestanejava, caía em um sono longo, etéreo e instantâneo, visitava pradarias, bosques, montanhas e ia muito além. O cheiro de madeira invadia as narinas, as extremidades do corpo reclamavam frias, as mãos ásperas falhavam, vacilava... E o sono perseverava mais forte que tudo, disputava, tentava acordar, piscava forte contra o sono dos justos. Às vezes um raio de luz refletido no copo de vidro que ia e voltava saltando os frisos do assoalho de madeira alcançava a gigantesca pupila dilatada que não precisava mais esconder-se atrás da pálpebra para sonhar. Alçara vôo sobre dois mundos. De súbito todas as cores ganharam um brilho forte, sobrenatural, como se a tinta do quadro borrasse em milhares de tons impressionistas. Não havia mais extremidades e cada cor era feita de milhares de outras, estava dentro de um quadro. Em um átimo de segundo sentiu-se finalmente livre, o corpo parou de lutar, os músculos cederam, a consciência deu lugar à inconsciência.
Acordara bruscamente com o estardalhaço. Eram milhares de gotas vermelhas a surgir da derradeira que despedaçara-se ao encontrar com a água, multiplicando o impacto e o efeito do vermelho vivo diluindo e desaparecendo no líquido transparente. O estrago já havia sido feito. O vermelho escorria sobre o cavalete e o chão misturando o seu forte odor ao do vinho. A tela branca possuía agora manchas produzidas por um efeito errático. Rorschach.

